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terça-feira, 16 de agosto de 2011

Um recém-nascido é suficientemente velho para morrer.


I

É uma frase formada por nomes, verbo, adjectivo; tem a sua construção semântica, sintáctica, pragmática, etc. É somente uma frase. No entanto, é uma frase que causa impacto, é uma linha de figuras que alimenta a incerteza e a dor.
A relação do Homem com a linguagem é uma relação de medo e de esperança. O medo reside na incerteza e nas limitações do seu próprio corpo (o conjuntivo, as frases condicionais são uma demonstração disso). A esperança está exposta, essencialmente, no verbo Ser e no seu Futuro próximo ou imperfeito. De que vale um tempo que se refere a algo que ainda não aconteceu se não temos a esperança de o vivermos? E no entanto, dentro da esperança, o medo espreita porque há a possibilidade, mais ou menos remota, de não estarmos na realidade futura a que a língua se refere. Assim, o medo não anula a esperança nem esta anula o medo. Ambas coexistem.
A arte alimenta-se desta dicotomia. A relação do autor e da obra que produz é uma relação com o tempo passado, presente e futuro. É com esperança que a sua obra prevaleça que ele a produz. É com medo do fim que pega no seu material (palavras, pedras, tintas) e combate como melhor sabe e pode. Por isso, e isto a propósito de uma recente polémica (no bom sentido) em que me vi envolvido, afirmo que qualquer obra é comparável. Nenhuma produção artística é individual o suficiente para se poder dizer que é incomparável. "Já não há começos", diz Steiner em “Gramáticas da Criação”. O "Incipit" é uma utopia e toda a literatura, por exemplo, é reprodução parcial de si mesmo. Toda a produção literária entra em dialéctica com o tempo e, assim sendo, o que foi escrito está presente no que é escrito e estará presente no que for escrito.
Tudo é comparável. Tudo é presente.

II
Fico admirado com as discussões sobre boa literatura e má literatura. Não há má literatura. Se é má, então não é Literatura.
Por isso, há Literatura.
Na Literatura, a plasticidade dos vocábulos, das palavras é levada ao limite. Mas a Literatura alimenta-se da Linguagem e, por isso, não foge ao que foi exposto. As obras literárias confrontam-se SEMPRE com o que foi escrito até ao momento do seu "incipit". E a sua qualidade, ou falta dela, é analisada através de uma luta com o que é considerado canónico. E não me refiro somente ao bloomiano Cânone Ocidental; refiro-me ao cânone individual, ao sofrimento do autor com a ansiedade que o domina. Essa ansiedade é o resultado de tudo o que foi lido e vivido. Essa ansiedade é que o motiva a escrever melhor do que os autores que leu e mesmo do que ele próprio já escreveu.

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