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quinta-feira, 27 de outubro de 2011

“ A Bofetada” de Christos Tsiolkas


“ A Bofetada”
Christos Tsiolkas
D. Quixote

“É o mundo moderno, Anouk. Somos todos putas.” Pág. 87



“ A bofetada” de Christos Tsiolkas é um rasgo na realidade do leitor. Há livros assim: Pegam em nós e conseguem sacudir a nossa realidade até à quase insuportável inquietação.
A tensão existe e é mantida desde a primeira até à última página.
O enredo apoia-se em várias perspectivas, numa polifonia, sem perder coerência. A narração adopta, frequentemente, o discurso indirecto livre. A perspectiva associa-se de tal forma ao pensamento de cada personagem que, por vezes, não temos a certeza a quem pertence a voz que “ouvimos”. A linguagem apodera-se da realidade, expressa-se de forma obscena e, por vezes, caricatural. No entanto, poucas vezes é utilizada de forma gratuita. O comportamento das personagens consegue melindrar mais do que o léxico utilizado.
De uma maneira ou de outra, o leitmotiv (a bofetada dada a uma criança) é debatido em todos os capítulos. E é desta forma que o texto não perde a coerência e a leitura mantém-se fluente.
Através dos elos sociais e afectivos, cada um extrai o que precisa sem haver a preocupação em retribuir. Vive-se na Era da “New Age” onde a falência moral é uma realidade e a sociedade segue a ideologia de “Why Not?”.
O churrasco em casa de Hector, personagem que acompanhamos no primeiro capítulo, é o epicentro da falência dos equilíbrios precários que existem entre os convidados. É o único local onde temos as personagens do livro reunidas. A tensão entre os elementos já se faz sentir e continuará em crescendo até ao fim. Percebemos o mundo em que entramos e sentiremos, até ao fim do livro, a inquietação que se instala em nós. A festa é um microcosmos onde a principal filosofia é o hedonismo: A tensão sexual é permanente, a linguagem é obscena, partilham-se drogas sintécticas e leves, bebe-se muito álcool. Na página 40, Tsiolkas, autor e também argumentista como Anouk, parece justificar a opção pela abordagem mais crua e menos poética do texto:
“É televisão, Gary, televisão com fins comerciais- Anouk falou num tom simultaneamente cortante e entediado- Não, as famílias verdadeiras não são nada assim.
- Mas estás a transmitir um corrilho de tretas que depois vai influenciar milhões de pessoas no mundo inteiro! Toda a gente pensa que as famílias australianas são exactamente como as da telenovela!”
Não são e Tsiolkas demonstra-o neste livro.
A inquietação vai crescendo, as crianças lutam entre si e fazem muito barulho, as divergências políticas, religiosas e culturais animam as discussões, os comportamentos libertam-se com a droga e o álcool até tudo rebentar numa estalada na cara de uma criança. É este impulso, um breve momento de violência, que desencadeia a ruptura entre as ligações familiares e de afecto que ligam os convidados. A partir daqui tudo será diferente.
Família e amigos condenam ou apoiam a acção de Harry, que havia batido em Hugo. Os pais da criança apresentam queixa na polícia e levam o caso a tribunal. Extremam-se posições e as decrépitas ligações entre eles quebram-se.
A partir desta ruptura, o autor leva-nos a conhecer uma sociedade multicultural, onde coabitam várias religiões, nacionalidades e ideologias. Há sentimentos em comum e que são muito bem transmitidos ao leitor: o sentimento de perda, de degradação familiar e social, de insegurança enraizada em infâncias e adolescências problemáticas (alcoolismo, HIV, maus tratos, drogas, jogo, suicídio, abandono…) e que influencia a educação das gerações posteriores.
“ Estes miúdos são inacreditáveis. Acham que o mundo lhes deve tudo e mais alguma coisa. Forma mimados até dizer chega pelos pais e pelos professores e pela porra dos media e acham que têm todos os direitos do mundo e nenhuma obrigação, por isso não têm vergonha na cara, não têm valores nenhuns. São egoístas, umas merdinhas ignorantes”, afirma Anouk criticando indirectamente Rosie, a mãe do rapaz que levou a bofetada.
Há uma latente falência da moralidade, as personagens andam perdidas numa escala de valores que não assimilam. Não sabemos que espécie de moral rege os comportamentos dos personagens, mas sentimos o desconforto por termos consciência que essa imoralidade não existe assim tão longe do nosso quotidiano.
“(…)somos todos putas. Os laboratórios farmacêuticos oferecem-me viagens à borla, para mim e para a minha família, em troca de eu dar vacinas a animais que sei que não precisam delas. É o mundo moderno, Anouk. Somos todos putas.” Pág. 87
O comportamento individual roça a obscenidade e, no entanto, é credível. Estamos perante a incoerência de indivíduos inseridos numa sociedade materialista, longe da Igreja e vencida pela velocidade da informação.
No capítulo onde acompanhamos Harry, adulto que deu a estalada à criança, a aglutinação de tais incoerências está patente em vários episódios. O mais ostensivo é quando Harry vai ter com a amante e imagina estar a fornicar a esposa. Quando termina e depois de consumir algumas linhas de cocaína, dirige-se a casa, dando graças a Deus por ter uma excelente esposa, um filho lindo, uma piscina, cozinha nova, garagem, dois carros, aparelhagem e um plasma. E o exemplo de Harry poderia ser o exemplo de outras personagens que, em muitos casos, comungam casos de infidelidade, intolerância e inadaptação.
“A Bofetada” é um livro extenuante não só pelo volume (537 páginas), mas – essencialmente- pelo desgaste emocional a que o leitor é sujeito. Apetece dizer quando se abre a primeira página “ Deixai toda a Esperança, Vós que entrais”. No entanto, Christos Tsiolkas consegue prender o leitor ao texto até à última página. Não é inteiramente verdade que toda a esperança seja eliminada do livro. Há momentos de catarse, tolerância e aceitação. Quando Richie confessa a sua obsessão por Hector, a mãe reage mal e esbofeteia-o. No entanto, ela reconsidera e afirma “Hás-de apaixonar-te por outros homens e muitos homens por ti” Pag.521
Quando a mãe pergunta a Richie se ele vai tomar drogas num festival de música, ele responde afirmativamente. Iria tomar ecstasy e erva. A reacção da mãe é tudo menos conservadora:
“- Oh, meu amor. – Ela esticou o braço para ele, mas recolheu-o abruptamente. – Pelos vistos, já és adulto” Pág. 528
“ A Bofetada” é desconcertante e merecedor do tempo aplicado na sua leitura. O autor conseguiu criar um mundo estranho, frio e calculista. É um livro perturbador e com uma ostensiva negação do banal.

Mário Rufino
mariorufino.textos@gmail.com

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