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segunda-feira, 14 de novembro de 2011

“A Arte de Chorar em Coro”


“A Arte de Chorar em Coro”
Erling Jepsen
Eucleia Editora


“ Este é o destino que me calhou, penso, ser o responsável por equilibrar um pouco as coisas” pag.66

A Verdade para o rapaz de 11 anos que nos conta a sua história reside no espaço entre o facto e a observação do mesmo. Esse espaço, que podemos nomear de interpretação, é moldado pelo hábito. E esta é uma palavra-chave para a compreensão de “ A Arte de Chorar em Coro”.
A dinâmica comportamental da família (composta pelo rapaz, a irmã adolescente Sanne, o irmão mais velho Asger, o pai e a mãe) é analisada através da ingenuidade infantil do nosso narrador e de acordo com o comportamento padrão/ hábito que conhece desde que tem memória.
Erlin Jepsen mostra-nos, logo nas primeiras páginas, a perspectiva por si adoptada para contar a história de uma família disfuncional:
Quando a mãe tem dificuldades em definir com sucesso a palavra “hábito”, o filho diz que o pai explicará melhor. Quando o ouve, sente-se mais seguro.
“ Levanto-me e sinto que percebi tudo, e que qualquer coisa neste mundo é boa desde que tenha o pai para ma explicar. O pai com as suas grandes mãos e quentes.” Pag. 13
A satisfação do pai é o motivo de preocupação de todos. O sucesso nos negócios (mercearia), a aceitação social (funerais) e o respeito da família perante a figura patriarcal são os motivos que levam à acção ou apatia dos seus elementos. No entanto, ao longo do livro vamos percebendo que as ligações entre eles são dúbias.
Na dinâmica familiar, as mulheres (mãe e filha) sofrem também devido à sua própria passividade. A mãe está sempre ausente em momentos fulcrais e a filha é definida e tratada como louca quando, na verdade, é uma vítima amarrada pelo silêncio de todos.
As palavras na boca do homem são opostas aos seus gestos… paternais. No entanto, as duas vertentes têm uma consequência em comum: O choro torna-se um facto doloroso partilhado por muitos e, em “A Arte de Chorar em Coro”, são os lamentos não ouvidos, os gemidos por averiguar, que provocam a maior agonia nas personagens e o maior impacto no leitor. Os discursos fúnebres são um sucesso quantificado pelas lágrimas vertidas. Mesmo sem conhecer bem o falecido, o pai é capaz de elevar as hipotéticas qualidades e sublinhar a dor da ausência até ao choro convulsivo. O objectivo é ultrapassar o esperado, chegar às pessoas com menos probabilidades de chorar a partida do morto.
“ (…) há, por fim, um ataque de choro, mas é o da mãe da falecida, e essa iria chorar de qualquer forma, portanto não conta” pag. 29
Ironicamente, devido ao dom da retórica e por conseguir sublinhar virtudes que, muitas vezes, não existem, ele é convidado a seguir a carreira política. De acordo com o filho mais novo, tudo corre bem quando o pai está bem. Os elogios fúnebres promovem a ascensão social e um certo apaziguamento. Para conseguir manter a harmonia, o narrador elabora um plano. Ele faz uma lista de pessoas a matar para o pai continuar a fazer discursos fúnebres. Inclui-se nessa lista, mas elimina-se pois percebe que não poderia ver o sucesso do pai caso fosse assassinado.
A intimidade com a sua irmã permite-lhe confessar os seus desejos de ver algumas pessoas morrerem. Ela, no entanto, reage como se de uma brincadeira se tratasse.
Sem a sua ajuda, ele recorre à divindade criada por si: uma mistura do seu herói (Tarzan) com uma proeminente figura do catolicismo (Arcanjo Gabriel).
Surpreendentemente, as hipotéticas vítimas começam a morrer em condições suspeitas e ele pensa que as suas preces foram atendidas.
A polícia considera as mortes como acidentais.
O pai e a irmã Sanne aparentam estar muito nervosos devido a todos estes acontecimentos e à presença da polícia. Insistindo em manter a paz, o filho aconselha-os a dormir juntos como por vezes fazem.
Ele gosta muito de ter a mãe ao seu lado quando adormece e de saber que a irmã está segura nos braços do pai. Sanne, contudo, não partilha esse sentimento. Quando dorme com o pai, acorda a tremer e muito agitada. A mãe cala-se, o irmão mostra a sua incompreensão e o pai leva-a, repetidamente, ao psiquiatra para ela levar um sedativo.
O incesto é um segredo muito mal guardado. Quando Asger, o irmão mais velho, vem da cidade onde estuda para os visitar, ouve, numa conversa ao jantar, que Sanne, a irmã, tem dormido com o pai. Todos se calam porque todos, excepto o nosso narrador, sabem o que estava a acontecer.
“ (…) o que é isso do incesto? Sei bem o que é uma vítima, e isso do incesto soa a algo contagioso, como uma espécie de piolho. Não me estranharia que lho tivesse pegado o pai depois de o apanhar no sofá da avó alemã. Oxalá não tivéssemos ficado com o sofá, não trouxe nada para além de desgostos” pág. 76

O livro de Jepsen não é um livro divertido. E no entanto é inevitável sorrirmos perante tanta ingenuidade que vai diminuindo com o avançar da idade. O amor que ele sente principalmente pelo pai (o seu exemplo masculino) resulta em atropelos a uma moralidade que para ele ainda não existe. A bondade só é bondade quando em si reside a sabedoria. E é o que ele não tem nem pode ter com 11 anos, apenas. É esta perspectiva tão afastada dos valores que enriquece a narração. Como podemos julgar duas crianças (ele e a irmã) que, por apego ao hábito e amor ao pai, cometem atrocidades com objectivo de o fazer feliz?
A luta pela harmonia é hipotecada pela ingenuidade que não permite avaliar correctamente os factos. O campo de interpretação é estreito porque o narrador não tem as ferramentas necessárias para observar os acontecimentos. Erling Jepsen consegue manter eficazmente esta perspectiva e com esta “limitação” consegue sublinhar a já falada interpretação ingénua. Neste jogo de perdas, o autor enriquece o texto ao adoptar o prisma de uma criança de onze anos que demonstra, assim, a incapacidade de simbiose entre o dito e o facto. É neste espaço interpretativo que o autor sugere, não finaliza, e deixa espaço à dedução do leitor.

A voz individual, com a sua dor e incompreensão, procura a validação de um coro.

Mário Rufino
mariorufino.textos@gmail.com



A Arte de Chorar em CoroA Arte de Chorar em Coro by Erling Jepsen
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