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sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Pulseira Electrónica


Pulseira Electrónica





Eu não seria mais feliz sem pulseira electrónica. Afastei as pessoas, fechando-as do lado de fora.
Gosto da inércia. É com ela que me dou bem e a ela sou militantemente fiel. A inércia permite poupar palavras, economizar movimentos.
A minha liberdade existe fora do espaço público.
Em casa, o murmúrio de um casal e o guinchar, semanal, da cama no andar do lado atravessa a parede do meu quarto. Quando o marido está no emprego, deito-me na minha cama e ouço a experiência religiosa e tão maternal daquela esposa, tão devota, quando chama por Deus e pela mãe em gritos anunciadores.
A minha janela é uma tela de cinema, onde vejo a estéril comédia inquieta das pessoas. Dentro de casa, mantenho-me exterior a tudo o que é mundano. Mas foi o que fiz lá fora que me permite estar aqui dentro.
Naquele dia, algo se rasgou em mim. Tinha acendido um cigarro enquanto olhava para a rua. A janela do apartamento dela oferecia uma vista ampla. Estava muito transpirado e não vesti mais do que as calças. Ela levantou-se, satisfeita, passou as mãos pelo meu peito e beijou-me no pescoço. Um arrepio assaltou-me o sossego e escorregou pelo meu corpo.
«Não fumes aqui»
«E se eu abrir a janela?»
«Não sejas tonto. Está frio e sabes que o cheiro fica dentro de casa»
«És castradora»
«Hum…», as mãos deslizaram pela minha barriga, «não me parece faltar nenhum bocado»
Vesti-me enquanto ela estava na casa de banho e saí com o cigarro na mão.
Há nos elevadores antigos uma incompatibilidade entre a saída e a entrada. Entra-se por uma porta, dá-se meia volta e sai-se por outra. Os elevadores modernos são mais económicos. Saímos pela porta por onde entramos.
Carreguei no botão de chamada, carreguei novamente, bati na porta do elevador, mas não havia qualquer intenção de o mesmo subir. Resolvi descer as escadas e, sem esperar mais, acendi o cigarro ainda dentro do prédio.
A grade, que tem de ser puxada depois de a porta fechar, ainda deveria estar aberta. O elevador nunca subiria. Desci até ao rés-do-chão e quando me preparava para fechar a grade, assustei-me com o velho que estava lá dentro. De perfil para mim carregava insistentemente no botão sem surtir qualquer efeito.
«Desculpe…»
Ele não ouviu e julguei ser impossível não me ter visto.
«Desculpe…»
«DESCULPE», gritei e toquei-lhe no braço.
Virou-se muito devagar e encostou os óculos ao rosto. Um tubo no nariz permitia que respirasse. O outro braço ficou imóvel, sem vontade, ao longo do corpo. Reparei numa pequena bilha de oxigénio que ele deveria transportar como se de um cachorro se tratasse.
«A GRADE ESTAVA ABERTA». E puxei-a com força. A porta do elevador fechou-se. Fiquei a aguardar que subisse. O silêncio permitia ouvir a pesada respiração. Esperei. Quando ia abrir a porta para ver o que se passava, o elevador soluçou e subiu. O cigarro fora comido pelo lume até ao filtro. Esmaguei-o num canto da parede, deitei-o no lixo e acendi outro. Chovia. Não estava com vontade de me molhar por causa de um cigarro, mas não queria deixar de o fumar. Subi dois lanços de escada e refugiei-me no escuro.
A ponta do cigarro iluminava-me o rosto e a mão cada vez que o levava à boca. Ritualmente, nascia no escuro uma fugaz auréola de luz. Depois, a penumbra escondia-me, outra vez. A porta da rua foi aberta e bateu com estrondo quando se fechou. Espreitei e vi um homem de fato, sem o rosto visível, e percebi que haveria problemas. Subi mais um ou dois degraus, mantendo-me sentado. Ouvi alguns passos enquanto subiam as escadas…
«Cheira a tabaco»
…para depois deixarem de se ouvir. Reconheci aquela voz. Era o marido. Se não fosse pelo cigarro, teria sido apanhado em casa dela e na cama dele ainda a cheirar a sexo e ao corpo da sua mulher. O cigarro salvou a minha integridade física.
Se cumprisse com as suas funções, eu não seria obrigado a cumpri-las por ele. As relações abrem brechas, e é nelas que eu entro. Todas têm os seus pontos fracos. Eu aproveito o melhor de todas, sem obrigações, sem fidelidade, emprestando o corpo em troca de outro corpo. E fim. Nada mais do que isso. As obrigações são para os maridos e não para mim. Quando todos as cumprirem, eu sou aliviado desse trabalho.
Assim que ele entrasse no elevador, eu sairia do prédio. Tinha deixado o telemóvel e carteira dentro casaco, ainda pendurado numa cadeira da sala. Ser apanhado implica drama, gritos, ameaças e, possivelmente, confronto físico. Dá muito trabalho. Não estava e não estou para isso.
O elevador subiu e imediatamente desceu. Escondi o cigarro para não espalhar muito cheiro. Não ouvia nada a não ser o soluçar metálico do elevador. A porta foi aberta, a grade puxada, mas não o ouvi a entrar. Esperei e concentrei-me em decifrar os sons. Duas pessoas. Os sons eram distintos. Um guinchar de rodas, um cumprimento, um compasso de espera, a grade a fechar e o elevador a subir.
Levantei-me e espiei o Hall de entrada do prédio. O velho estava novamente no mesmo sítio. Parecia confuso, apoiado no carrinho que transportava a bilha de oxigénio.
A bilha estava à sua frente e ele apoiava as mãos no carrinho, tentando perceber o que havia acontecido. Olhou à sua volta, encostou os óculos à cara, a sua mão tremia muito e a sua boca continuava amordaçada pelo silêncio. A sua cabeça inclinou-se em desistência. A mão direita desceu o rosto e parou sobre o nariz.
Ele não conseguiu sair no seu andar e caminhar para sua casa. Mal tinha chegado, o elevador desceu sem ele perceber que estava a voltar ao ponto de partida. A sua mão estava sobre o seu nariz, sobre o tubo. Puxou e arrancou-o das narinas. A bilha estava no limiar da primeira escada.
Fiquei inquieto. Teria de o socorrer, mas isso implicaria ser detectado pelo marido.
O peito estava ansioso devido à falta de ar.
Sentei-me, novamente, nas escadas. Pensei em correr e sair antes de ele cair puxado pelo carrinho.
Fechou os olhos. As mãos apoiaram-se nas pegas metálicas.
Apaguei o cigarro.
As rodas estavam quase a cair.
Levantei-me para correr.
Arrastou os pés para trás, meteu o tubo no nariz, o peito acalmou.
Não conseguiu quebrar a forçada ligação que o mantinha agarrado pela vida. Era um movimento que haveria de romper com um estado lastimável para entrar num período de descanso. Ele procurava quebrar a visceral inércia do corpo em tomar nas mãos a decisão de se soltar. O velho estava preso em si mesmo.
Corri escada acima para perceber em que andar morava. Um, dois, corri mais um pouco, três, continuei a subir, até pararmos no andar imediatamente inferior àquele de onde eu tinha saído e o marido entrado.
Escondi-me e esperei que o velho abrisse a porta. Apareci rapidamente junto dele e agarrei-o pelo braço. O meu peito arfava mais do que o dele. O que estava eu a fazer? O que é que pretendia com aquilo? Entrámos e fechámos a porta. Do hall consegui ver o quarto. Dirigimo-nos para lá. Ele largou o oxigénio. Fui eu quem empurrou o carrinho. Deitei-o na cama com muito cuidado. Não queria que se magoasse. Não ofereceu resistência.
Fiquei a olhar para ele, sem sentir o tempo a passar e sem saber o que fazer. Sobre a sua mesa-de-cabeceira, estava uma fotografia do casamento e outra do que presumi ser do seu filho. Pediu-as. Eu coloquei-as sobre o seu peito. Fechou os olhos, arrancou o tubo do nariz e agarrou as fotos com ambas as mãos. Eu teria de cumprir com a minha parte. Tirei o tubo que passava por cima de ambas as orelhas, puxei-o e pousei-o sobre a bilha de oxigénio. Toquei-lhe nas mãos, mas ele não abriu os olhos. Empurrei o carrinho para a divisória mais distante do quarto. Voltei para ver o seu corpo imóvel sobre a cama e saí de sua casa.
Ainda não tinha fechado a porta quando ela apareceu com o meu casaco e o meu telemóvel nas mãos. Descera as escadas empurrada pelo medo. Eu não disse nada: Ela não disse nada. Entrei no elevador, já com o casado vestido e o telemóvel no bolso, mas ainda a vi entrar em casa do velho. Caminhei para aqui, acendi outro cigarro e esperei que a polícia aparecesse.
Eu gosto da polícia. Foram eles que me ajudaram a estar aqui. Gosto dos juízes, também. Foram eles que me ofereceram esta pulseira.
Chove. Adoro tempestades quando estou em casa.


Mário Rufino
mariorufino.textos@gmail.com

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