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quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

“Uma Vasta e Deserta Paisagem”


“Uma Vasta e Deserta Paisagem”
Kjell Askildsen
Edições Ahab

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=545039

Kjell Askildsen é um predador de silêncios.

Quando tudo se cala e o homem é obrigado a lidar consigo mesmo, a culpa emerge, a solidão instala-se e a vida torna-se quase intolerável. A inevitabilidade do aparecimento da ausência, da instalação do “Nada”, é um peso árduo de suportar. É este vazio que o autor consegue captar de forma sublime tanto em “Uma vasta e deserta paisagem” (Ahab Edições) como em “Um repentino pensamento libertador” (Ahab Edições).
Askildsen escreve o necessário e nada mais. Ao deixar de dizer o que se intui, ao conseguir um (quase) perfeito equilíbrio entre o dito e o não-dito, o autor consegue mostrar o horror que o ser humano sente pelo vazio. A história que nos é contada é um instante essencial na vida do (s) interveniente (s), onde os conflitos permanecem irresolúveis. O leitor percebe que há mais aquém e além do que é mostrado. As várias histórias que compõem “Uma vasta e deserta paisagem” são estupendas criações literárias, onde o autor consegue no formato de narrativa curta capturar a angústia da solidão e a incapacidade de percebermos integralmente quem é o “Outro”
Em “Não sou assim, não sou assim”, o narrador não consegue ter uma conversa sobre amor, amizade, ou seja, não consegue sair de si e ir ao encontro do seu interlocutor. Essa Alteridade é-lhe ofensiva.
“ E quando, para cúmulo de tudo isto, começou a falar de amor, decidi dar por terminada a minha visita. Há muito pouco amor no mundo, disse ele, tem de haver mais amor pelo próximo. Era confrangedor. Quem é o próximo?, perguntei eu, e o que é o amor?” Pag.23.
Esta postura é sublinhada, também, em “O estimulante funeral de Johannes”, onde observamos a aversão a sentimentos e atenção alheias. A passividade perante os acontecimentos e sentimentos, condizentes com o estatuto de observador não vinculado, é a condição desejada por grande parte das personagens de Askildsen.
Em “O jóquer”, o narrador tem necessidade de sair de casa (acontecimento) para poder observar e concluir que nada é aquilo que pensava. Antes de sair, ele afirma: “ Talvez tenha sido esse o motivo, a chuva suave e o silêncio, o certo é que aconteceu o que acontece de vez em quando: cai sobre nós um vazio enorme, como se a própria falta de sentido da existência entrasse por nós adentro e se estendesse como uma imensa e despida paisagem” Pág.57
E é quando deixa de ser interveniente directo e passa a espectador que consegue apreender a essência de toda a estrutura física e emocional que o rodeia.

Askildsen incide o seu olhar sobre o espaço que reside entre as pessoas, as brechas de cada relação, o silêncio que mora nas frases e o vazio implementado pela efemeridade da Vida.

Mário Rufino
mariorufino.textos@gmail.com

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