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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

“A Curva do Rio” de V.S. Naipaul - Quetzal Editores

“A Curva do Rio” de V.S. Naipaul - Quetzal Editores


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“A escrita não está a serviço de um pensamento, como cenário realista bem conseguido que estivesse justaposto a pintura de uma subclasse social; ela representa realmente o mergulho na opacidade viscosa da condição que descreve” BARTHES, Roland “ O grau zero da escrita” pp. 67-68; 1997

 A narração, através de um “eu narrativo”, adopta uma postura analítica sobre o desenvolvimento do personagem/narrador, da sua relação com o meio que o envolve, e da sociedade em constante convulsão. Salim, o nosso narrador, tem uma visão tanto intrínseca como extrínseca sobre os acontecimentos que interferem, de forma directa e indirecta, na sua realidade. Ele é um inadaptado. E é a partir dessa condição que nos vai contando a sua experiência perante o “desconhecido próximo”:
“ A África era a minha terra, fora a terra da minha família durante séculos. Mas nós éramos da costa leste, e isso fazia a diferença. A costa não era verdadeiramente africana, ela era simultaneamente árabe, indiana, persa e portuguesa, e nós que vivíamos na costa, éramos na realidade gente do Oceano Índico. (..) Mas já não podíamos dizer que éramos árabes, indianos ou persas; quando nos comparávamos com esses povos, sentíamos que éramos gente de África” Pág. 21
Salim comporta-se como colonizado, apesar de ser africano e de se ter transferido, de modo voluntário, com o objectivo de prosperar numa nova geografia. Ele adapta-se às relações sociais já existentes e, de uma forma mais ou menos passiva, é nelas que tenta encontrar sentido e identificação. O ambiente tem mais efeito sobre ele do que ele consegue ter sobre o que o rodeia. Ao longo da narrativa, acompanhamos a imposição intrínseca e extrínseca da inadaptação psicológica, social e cultural. A sua personalidade sofre alterações devido a pressões exteriores. As constantes convulsões sociais, a violência, a corrupção, fazem emergir características psicológicas que, até ali, haviam permanecido longe da superfície. Assim, o nosso narrador debate-se com factos imprevistos que o levam a agir contrariamente ao que acredita. Uma nova realidade física obriga a uma nova realidade emocional. E a adaptação a ambas nunca chega a concluir-se. Salim depara-se com dilemas morais numa sociedade em demanda da sua própria psicologia colectiva.
Toda a complexidade inerente à interactividade social implica transformações de perspectiva e obriga a adaptações constantes com o objectivo de assegurar a mera sobrevivência.
A força colonizadora da Europa manifesta-se nas ruínas de pedestais sem estátuas e em edifícios decadentes. Apesar de não terem passado muitos anos sobre o fim da colonização, a deterioração da memória sobre presença europeia é muito rápida. E sem memória, sem história, os problemas repetem-se.
“ As pessoas viviam como sempre tinham vivido; não havia qualquer rutura entre passado e presente. Tudo o que acontecera no passado se eclipsara; só o presente existia; sempre o presente” Pág. 24
 A África de “A Curva do Rio” adopta a superficialidade dos costumes europeus e quer eliminar as ideias europeias enquanto tenta a aceitação do mundo ocidental. É nesta intensa e contraditória relação que acontecem guerras e revoltas.
“Ninguém usava os novos nomes [das ruas] porque ninguém se preocupava especialmente com eles. Aquele povo quisera apenas libertar-se dos nomes antigos, varrer para sempre a memória do intruso. Fazia medo, a violência daquela raiva africana, o desejo de destruir, sem levar em conta as consequências” Pág. 43

A proposta de Fanon[1] está presente na narrativa de Naipaul.

Fanon propõe-nos 3 fases na complexa relação entre as implicações culturais provenientes do colonialismo e os comprometimentos da luta anticolonialista:

-A fase da assimilação acontece quando o nativo assimila (hipoteticamente) a cultura do poder colonizador. A construção de “BigBurguer”, por parte de Mahesh, é um sintoma da absorção da cultura ocidental (neste caso, norte-americana). Enquanto Mahesh importava todas as máquinas, decorações, mesas e cadeiras dos Estados Unidos, lembrando McDonalds, um turista norte-americano saqueava um conjunto de máscaras características da região.

O estrangeiro leva o produto autêntico da região e traz o que é típico da sua cultura. Desta forma, cumpre-se o que o padre Huismans tinha afirmado: o fim da África africana e o êxito das influências exteriores.
Naipaul menciona muitas vezes a existência de o jacinto-de-Água no rio que banha a cidade. Esta espécie, oriunda da bacia amazónica, é caracterizada como sendo uma das piores espécies invasoras em todo o mundo. Quando em rios, como acontece neste caso, prejudica o fluxo natural da corrente, traz alterações bioquímicas, e prejudica todo o ecossistema. O rio adjacente à cidade do padre Huismans e do nosso narrador foi invadido por esta espécie aquática. As suas flores são lindíssimas, mas o prejuízo que traz é enorme. A ornamentação prejudica o equilíbrio natural da região.

-A fase da cultura nacionalista materializa-se através da procura da autenticidade nativa e reacção contra o colonizador.

Numa fase de expansão, orientada pelo “Grande Chefe”, presidente daquela parte de África (nunca nomeada), é construída a Cidade Nova, zona de apartamentos para os professores e um politécnico, onde estudava o africano do futuro. Esta cidade equivalia quase a um outro país: “Na nossa cidade, «africano» podia ser um termo injurioso ou que denotava desprezo; na Cidade Nova, porém, era uma palavra grandiosa. Aí, um «africano» era um homem novo, um homem a cuja construção todos se dedicavam afanosamente, um homem prestes a nascer (…)” Pág. 101

- Por último, a fase revolucionária e nacionalista. Aqui, o intelectual tenta inflamar o povo e despertá-lo para o que há de “primordial” na sua cultura. É a fase em que a “raiva africana” se transforma em violência. A mescla entre o que se pensa verdadeiramente africano e a imagética do povo colonizador, imposta ao longo dos séculos, é difícil (ou impossível) de ser clarificada. A confusão manifesta-se e o que realmente impera não é a cultura nativa nem a colonizadora, mas a tal raiva, a violência que sempre procura uma forma de se manifestar.
“Determinadas pessoas haviam perdido poder e tinham sido fisicamente destruídas. Isso em África não era novo; aliás, era mesmo a mais velha das leis da terra” Pág. 47
Paralelamente ao percurso colectivo, o caminho (individual) de Salim tem outras etapas[2]: Utopia – Distopia (desencantamento) – Atopia (reencantamento). Naipaul, no entanto, oferece uma saída deste círculo vicioso e acrescenta uma nova etapa: Fuga.
A utopia começa quando ele decide fugir a um casamento prometido e tenta concretizar aquilo que adivinhava para si mesmo:
“ O meu anseio não era ser bom, como mandava a tradição, mas ter êxito na vida”. Pág. 34
Ele compra a loja de Nazrudin, amigo da família, situada numa cidade (destruída) na curva do rio. Depois de um período de encantamento, a burocracia, a corrupção, a violência latente deterioram o seu optimismo e ele vê-se como um prisioneiro, e alguém, como muitos dos que ali moram, que tem a sua vida suspensa, interrompida.
É nesta fase que conhece Ferdinand, filho da feiticeira Zabeth, que fica aos seus cuidados para aprender inglês, a ler e a escrever.
Sem saber como educá-lo, será o seu criado (Metty) a ter influência decisiva na formação emocional e intelectual do rapaz.
O desenvolvimento do filho da feiticeira (oriundo de uma aldeia bem no interior do território) sugere o paralelismo com a nova geração africana e Salim pressente que os tempos vindouros serão muito maus. A atitude de Ferdinand não era compatível com a sua:
“O seu aspecto, naquele instante, era de fato terrível, assustador. Ocorreu-me então esta ideia: «Este há-de ser o seu inimigo a morrer.» E, associada a essa ideia, uma outra: «Esta foi a era que arrasou a cidade» ” Pág. 88
Ferdinand viria a ter uma acção decisiva no futuro.
A esperança ressurge com o crescimento da Cidade Nova, a poucos quilómetros da cidade onde vivia. Indar, amigo de infância, é destacado para o politécnico para ali leccionar e será o guia do narrador, tanto pela Cidade Nova como por uma forma nova de pensar. Quando Indar se vai embora, Salim já não é o mesmo.
A instável paz vai se deteriorando e aquele que fora a figura patriarcal da população é visto, cada vez mais, como um tirano igual a tantos outros. E o ciclo completa-se: paz, desencanto, revolta, destruição.
Salim, perante isto, toma uma decisão.

V.S. Naipaul, Prémio Nobel da Literatura (2001), desenha as características sociais e psicológicas da população da cidade situada na curva do rio que, por especulação e metonímia, podemos considerar comuns a populações em diferentes países africanos.

“A Curva do Rio” merece bem o tempo que lhe dispensamos.




Mário Rufino
mariorufino.textos@gmail.com

[1] Fanon, Frantz “ The Wretched of the Earth”; pp. 178-179; 1990

[2] Mata, Inocência “ A condição pós-colonial das literaturas africanas de língua portuguesa: algumas diferenças e convergências e muitos lugares comuns”; pp.50; 2003




A Bend in the RiverA Bend in the River by V.S. Naipaul
My rating: 4 of 5 stars

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4 comentários:

Morgana disse...

Olá Mario,
Adorei o seu cantinho,
O blog é muito rico em informações que me interessam,estarei sempre por aqui.
Um forte abraço!

Mário Rufino disse...

Obrigado, Morgana!!

Seja bem-vinda!
Abraços

Mário

Carlos Faria disse...

Já há muito tempo que não o lia depois da nossas conversas num grupo de facebook, mas como tenho estado a ler precisamente "A curva do Rio" senti necessidade de ler análises sobre a obra porque embora vá a meio, mas vejo que ela subtilmente diz muito mais nas entrelinhas e dei com este post efetivamente ajudou-me a olhar melhor para dentro deste romance e a ficar com as ideias mais arrumadas.
Obrigado por isto.

Mário Rufino disse...

Olá, Carlos
Já foi há muito tempo, mas lembro-me bem desse grupo.
Sim, é um livro que diz muito.
Fico contente por ter conseguido ajudar um bocadinho.

Abraço

Mário

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