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segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Cólicas (Revista Letras et Cetera)

O meu conto de Janeiro na Revista "Letras et Cetera"




http://nanquin.blogspot.com/2012/01/colicas.html


Cólicas

As cólicas provocavam-lhe uma agonia sem vómito.

Tentou distrair-se enquanto escrevia mais um texto, mas as guinadas eram cada vez mais agudas. Não havia palavra que não fosse terminada com uma dor violenta que obrigava o corpo a debruçar-se sobre o teclado. Pousou as duas mãos na barriga. Só assim conseguia estar imóvel.
Tinha arrepios de frio, as pernas não conseguiam estar quietas, a boca rasgava-se em dor e uma indefinível inquietação preenchia o seu ânimo.
Os dedos voltaram a insistir nas vogais e consoantes do teclado. Guinada. Dor. Abriu a boca para o corpo expulsar o mal que havia nele, mas nada saiu. Correu para a casa de banho, não sabia por onde sairia toda aquela agonia, e ficou sem saber, pois voltou para o escritório com as mesmas dores, com a mesma obstipação.
Tinha estado numa livraria, de manhã. Lentamente, o incómodo foi crescendo e crescendo até, ao pegar num livro, ter levado uma mão à boca. Não se mexeu. As pernas ficaram amarradas pela vergonha. Olhou em volta, percebeu que ninguém tinha visto, pousou o livro, e saiu.
«Preciso de ar fresco»
Telefonou para desmarcar um encontro.
«Tens de fazer dieta e comer melhor», disseram-lhe. Sorriu e minimizou a importância do seu próprio tamanho. «Sou pessoa de três dígitos», respondeu.
«Tens falta de fibra»
«Não digas isso…»
«Bebe chá. Tens falta de chá.»
«De que tipo?»
«Sei lá… vai experimentando.»

O caminho para casa foi demasiado longo. Cada sinal de trânsito provocava um momento de desespero.
«Não vou chegar a tempo, não vou chegar a tempo...». Mas conseguiu chegar a casa sem sofrer qualquer acidente.
Entrou, despiu o casaco e passou a mão pelas gotas que escorregavam na pele do rosto.
Pousou as chaves, foi para o escritório, sentou-se à secretária e ligou o computador. Pousou as duas mãos na barriga .
Olhou para as fotos sobre a secretária, espreitou os jornais on-line e decidiu enfrentar o cursor que aparecia e desaparecia na página vazia.
Começou a escrever palavras ao acaso, sem sentido, à espera de que o texto aparecesse. As frases começaram a surgir e a dor aumentou. Batia furiosamente com os dedos nas teclas, com grande velocidade, empenho, percebendo que havia algo ali de que gostava muito. Os arrepios de frio percorriam o seu corpo, mas não parava de escrever, as dores de barriga aumentavam, mas não desistia. Olhava para o teclado e mal corrigia o que aparecia na folha em branco até lhe chegar um odor desagradável, pestilento, das suas mãos. Cheirou-as, olhou para a cadeira e sem mais demora correu para a casa de banho. Puxou a roupa para baixo e sentou-se com alívio. 
Deixara a porta aberta. A casa cheirava a algo morto. O cursor piscava, implacável.

Mário Rufino
mariorufino.textos@gmail.com

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