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segunda-feira, 12 de março de 2012

Entrevista com Valeria Luiselli sobre "Rostos na Multidão"



Valeria Luiselli, autora do surpreendente «Rostos na Multidão», editado pela Bertrand, foi editora do magazine literário online «Letras Librés», publicou crítica literária, traduções de poesia e ensaios. E se há casos em que vale a pena mencionar dados biográficos de autores, este é, necessariamente, um desses casos...
A sua experiência em todos os aspectos profissional é parte integrante do excelente romance de estreia de Valeria Luiselli, «Rostos na Multidão», um romance onde a realidade e a ficção evoluem no mesmo plano. No decorrer da sua investigação, a própria narradora coloca-se como alvo de análise e a tradicional observação autor-personagem ganha um sentido contrário, uma observação personagem-autor, dotando o livro de maior complexidade. A estrutura da narrativa evolui em várias temporalidades. O dinamismo da prosa contrasta com a claustrofobia da narradora que, de forma aproximada a Dickinson, escreve sem sair de casa e é alvo de agressividade passiva tanto do exterior como do interior do seu pequeno espaço. A autora teve a amabilidade de conversar connosco e, como poderão ler nas suas declarações, iluminar aspectos essenciais da sua criação. Valeria Luiselli demonstrou uma segurança e qualidade incomuns para uma estreia. É um nome a seguir com muita atenção…


É o seu primeiro romance?

Romance, sim. Tenho um livro de contos e ensaios. [«Papeles Falsos»].

Este livro é quase uma ficção sobre literatura…

Sim, efectivamente.

Há um jogo entre o autor, a personagem e o leitor. Começam com alguma separação, mas vão ficando cada vez mais próximos.
Sim, completamente. Dentro do livro há um leitor que vai lendo um livro. A sua leitura vai modificando-se no próprio decurso do livro como sucede com um leitor.
A imagem da autora está muito «colada» à narradora. Expõe-se muito e joga com a fronteira entre realidade e ficção…

Sim… O fundamental é que é um livro sobre o processo de escrever um livro. Não é só isso… conta uma história, mas é um livro onde me interessava ser transparente com o processo de trabalho; interessava-me evidenciar a maneira como incide a ficção na realidade… como a ficção modifica a realidade, não só como modificamos a realidade para construirmos uma ficção, mas também vice-versa, como a ficção toca a realidade.

O que significa «Ingrávidos» [título do livro em castelhano]?

Não é uma palavra muito comum. A palavra significa algo que não tem peso…

O título em português [«Rostos na multidão»] é um pouco diferente…

Sim, mas também é meu. Para a edição em inglês escolhi o título «Faces in the crowd», que é um verso de Ezra Pound: 
«The apparition of these faces in the crowd;
Petals on a wet, black bough»
São dois versos que formam parte importante da ficção.

…estamos a falar do momento em que ele [Ezra Pound] está no metro, escreve um longo poema e depois reduz…

Sim, é um pouco lenda, um pouco verdade, não se sabe… Ezra Pound, no Metro de Paris, crê ver um amigo que teve e procura-o. Pouco tempo depois sabe que ele tinha morrido. A história, não minha, em torno desse poema de Pound é que, supostamente, Pound escreveu um poema muito grande sobre esse acontecimento e depois deu-se conta de que o poema não capturava a essência desse instante; então reduziu-o a duas linhas. Traduzi esse verso «faces in the crowd» para português e para italiano.
De alguma maneira captura a essência de perda de identidade definida em redor de uma multiplicidade de vidas que uma pessoa tem…. Vai–se sendo muitas pessoas e tem-se muitas mortes…

Se não se importa vou ler uma passagem do seu livro, pois penso que capta a sua visão/visões sobre o texto: «Li uma vez num livro de Saul Bellow que a diferença entre estar vivo e estar morto reside apenas no ponto de vista: os vivos olham do centro para fora, e os mortos da periferia para algum tipo de centro» (página 32). A partir daqui, tive a sensação de que, ao longo do livro, há dois tipos de observação: a observação da autora sobre as personagens e outra que é das personagens sobre a autora. Há uma dupla avaliação e a própria autora também é uma personagem. Por que é que se colocou como «objecto» de análise?

Tentei muitos pontos de vista, muitos espaços de enunciação para contar o que tinha a contar. Descartei muitos porque não funcionavam e depois de um ano a tentar distintos lugares, desde onde contar esta história - uma grande pergunta durante um ano: «Desde onde posso realmente contar esta história?» -, o resultado, depois de muitas provas, foi a de uma personagem que narrava desde um espaço íntimo, muito fechado. A narradora que vive numa casa e narra sempre do mesmo espaço, muito pequeno e confinado. O presente absoluto é narrado nesse espaço e isso permitiu-me sair e explorar muitas temporalidades, pelo menos quatro diferentes: Nova Iorque do passado recente; Nova Iorque de um passado remoto, dos anos 20; Nova Iorque dos anos 50… Encontrei um centro a partir do qual girava o livro. Este centro permitiu-me ter uma grande liberdade para construir uma novela de muito movimento, com troca de vozes, troca de perspectivas.

Há uma parte em que ela fica muito embaraçada quando o marido lê parte do que ela vai escrevendo. O marido representa, de alguma forma, o leitor?

Eu creio que sim. De alguma maneira representa… nem sempre as personagens desta novela representam coisas, mas suponho que, em alguma medida, sim. Elas não são formas ocas que representam significados. Eu trato de trabalhar com coisas muito humanas, não com personagens que representam valores e símbolos. As minhas personagens não são simbólicas, embora algumas das suas acções tenham um alcance maior e que se podem ler simbolicamente ou metaforicamente ou abstractamente. E sim... Digamos que a leitura do marido vai perguntando sobre os limites da ficção. Os limites da realidade estão ligados à criação do leitor, à minha experiência própria como leitora, que está sempre investigando de uma maneira detectivesca… buscando…

…como um «voyeur»…

Como um «voyeur», exactamente. É uma figura externa que influencia o decurso da ficção, mas que tem sempre uma visão externa.

De alguma forma, todos eles, incluindo a criança, são criadores e leitores dos próprios acontecimentos. Se virmos a realidade e a ficção como um enorme texto, todos eles interpretam.

Absolutamente. Por outro lado, eu queria construir uma personagem, particularmente a narradora, mas também Owen, que estivesse muito ameaçada, cercada, por tudo. Há uma violência muito subtil, um mundo passivo-agressivo em redor da narradora. Nesse mundo os filhos são asfixiantes. Existe o marido zeloso… Ela não sai de casa, mas escuta o rádio do vizinho e são puras notícias horríveis; então há um mundo que está à porta de sua casa e que ela não quer e de alguma maneira a encerra. É um mundo muito claustrofóbico.

A certa altura, a criança dorme e ela vai ver se a criança respira, acabando por dizer «…mas eu tenho falta de ar». De uma forma mais abstracta, esse tipo de responsabilidades, a nível familiar, não se compatibiliza com a criação literária ou com outro tipo de criação?

Eu creio que sim, que se compatibiliza. Como adultos temos que encontrar as formas para sobreviver, para poder ser bons pais, pessoas completas.

Além desta situação em que ela olha para a criança, a certa altura também diz: «Os romances são de um fôlego. É isso que os romancistas querem. Ninguém sabe exactamente o que significa, mas todos dizem: de um fôlego. Eu tenho uma bebé e um menino do meio. Não me deixam respirar. Tudo o que escrevo é – tem de ser – de vários fôlegos. Pouco ar.» (página 14).

Esta pessoa está muito assediada por tudo. De uma forma mais ampla… os meninos são do mais luminoso. A paternidade é muito complexa. Há lugares muito difíceis e há coisas muito luminosas também. Eu descobri enquanto escrevia este livro de que a única maneira de lidar com as dificuldades era incorporá-las na novela. Foi assim que pude atravessar um período difícil de maternidade recente.

É muito sincera e honesta na escrita do livro…

Não é um livro, neste sentido, autobiográfico, mas é um lado da paternidade de que não se explora muito. Há muitas novelas maravilhosas sobre a relação pai-filho, mas poucas novelas retractam a relação entre maternidade e a criação… como se fosse um tema demasiado feminino, mas os pais também atravessam essa dificuldade.

Percebi vários tipos de relação no texto: a relação entre autora/narradora e outros autores, como Ezra Pound, Dickinson… Existem referências constantes a outros autores. Que tipo de influência sente em relação a esses autores? Há uma tentativa de se «separar» deles ou de os «incorporar»?

Somos leitores profissionais ou, pelo menos, leitores constantes e dedicamos uma boa parte da nossa vida a ler. Temos uma relação com os escritores de uma certa fantasmagoria no sentido em que quando lês também é uma conversação com um autor, de alguma maneira… Para exemplificar de uma maneira simples: vim a Lisboa, mas já tinha lido muito Pessoa e quando caminhei pela primeira vez por Lisboa reconheci o nome das ruas, acredito ter reconhecido os espaços e a sensação que tive, era como se já tivesse estado aqui. E através de Pessoa.

Primeiro entrou na alma e depois nos sítios…

Exactamente… Lemos e vivemos através da leitura dos livros e somos mediados por presenças, vozes, companhias. Interessa-me incorporar e viver perto das vozes que me marcaram e ignorar as outras.

O livro abre várias janelas para outros autores. Não se encerra nele próprio. A partir do seu livro podemos a chegar a outros autores…

A mim isso interessa-me muito… Não de uma maneira pedante, didáctica, mas interessam-me os livros que chegam a outros livros. Considero que, quando um livro ou um texto meu consegue chegar a outros, então consegue algo.

Existe uma intertextualidade muito forte entre o seu livro e vários…

Sim, e de uma maneira muito vital. Este é um livro de muitos livros, de muitas referências, mas não é um livro que requer ter lido Dickinson ou profundamente os «Cantos de Pound» para ser entendido. As presenças são mais vitais do que académicas. Os leitores que têm uma bagagem intelectual ampla poderão encontrar muitas coisas no livro com as quais se conectam e entendem melhor; mas se não, pouco importa. Tem vários planos.

No princípio da entrevista disse que a realidade influencia a ficção e a ficção influencia a realidade. Quem constrói quem? É o autor que constrói as personagens ou as personagens que constroem o autor? Como é que é essa relação?

Completamente bilateral. Enquanto estou escrevendo um livro, também depois mas sobretudo enquanto estou preparando e escrevendo um livro, é evidente para mim a maneira como a ficção e as personagens desse livro modificam a minha experiência quotidiana.

São projecções suas?

Não, não… É de uma maneira muito concreta. Exemplifico com um par de pequenos exemplos:
No primeiro livro, «Papeles Falsos», eu estava escrevendo sobre Joseph Brodsky. Eu tenho nacionalidade italiana, mas não tenho residência, só nacionalidade. Soube no entanto de alguém que vivia em Veneza e que tinha umas cartas entre Brodsky e Pasternak. Então… tinha um amigo em Veneza que conhecia essa pessoa. Vou a Veneza, no Verão, para poder encontrar essa pessoa que tinha estas cartas. Era simplesmente interesse para o livro que eu estava escrevendo. Quando cheguei fiquei horrivelmente doente, quase morri, e tive que fazer uma série de «piruetas» para que me dessem a residência em Veneza. Tive que passar… tive um casamento [risos]… tive uma série de modificações brutais na minha vida. Havia ido perseguindo as cartas de Brodsky e terminei casada com um italiano [risos]… Um matrimónio muito efémero. Esta história incorporou-se no livro. Levou uma volta da ficção do livro à realidade e de volta ao livro.
Aqui neste livro também. Há um episódio que é meio ficção onde eu fui ao apartamento de Owen em Nova Iorque, onde vivia. Na realidade, fui a esse edifício, subi ao tecto e trouxe uma planta num vaso. Essa planta foi para casa de uns amigos que vivem em Princeton, perto de Nova Iorque. Bem… Eles divorciaram-se, mas essa mesma planta que está no livro, agora, foi depositada por uma amiga num cemitério, em Princeton, onde estão enterradas uma série de personagens. Ela mandou-me há pouco uma foto. Então… É como a ficção se incorpora na realidade. Na minha próxima novela também, apesar de já ter começado a escrevê-la. Sei disso porque aqui em Lisboa aconteceram uma série de experiências muito raras. Ontem, num alfarrabista, encontrei um livro do século XV que procurava há muito tempo. Fui a vários alfarrabistas até que finalmente encontrei. Eu sei que este livro vai ser chave para o meu próximo livro. De alguma maneira a ficção e a realidade estão sempre circulando…

Como tradutora vê algum paralelo entre a recriação, ou seja, na passagem de uma língua para outra, e a sua própria criação como autora?

Eu reflecti muito sobre a tradução. É um tema pelo qual sou obcecada e creio que na tradução há um processo de recriação. Uma boa tradução recria… A mim interessa-me muito que outras línguas modifiquem o meu espanhol. Cresci ouvindo muitas línguas porque passei por muitos países, cresci bilingue… Gostaria de pensar que as línguas estrangeiras ou os próprios exercícios de tradução dos livros modificaram-me…

É crítica literária…

Há uma diferença entre ser crítica literária e escrever sobre literatura, de vez em quando… Eu não me considero crítica literária, mas, de vez em quando, opino sobre os livros que leio.

Teve esse espírito crítico em relação ao seu próprio livro? Teve perspectiva avaliativa?

Sim… Eu sou dura e por isso demoro muito tempo a terminar. Eu corto, corto, corto… [risos] Sou dura comigo mesma e meticulosa. Quando era mais jovem, quando comecei a escrever crítica literária, era mais dura com as coisas de que não gostava. Agora não me interessa fazer uma crítica dura. Interessa-me escrever sobre os livros de que gosto. Não me interessa destruir um livro mau… Porquê? Para quê? Quando um livro me emociona procuro escrever sobre ele. Se algo é muito mau, o melhor é ignorá-lo.

Mário Rufino
mariorufino.textos@gmail.com




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