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segunda-feira, 2 de abril de 2012

"Glória" de Nabokov


“Glória”

Vladimir Nabokov
Teorema


Vladimir Nabokov expõe em “Glória”, um dos primeiros romances do autor, a sua própria tragédia pessoal provocada pelas mudanças políticas que haveriam de mudar drasticamente o rumo social e político da “sua” Rússia. A revolução bolchevique obrigou-o e à sua família a sair da União Soviética. Posteriormente, ele viria a estudar em Cambridge e viver em Berlim, cidade onde haveria de escrever algumas das suas obras.
Estas experiências foram aproveitadas e transformadas em condições essenciais na caracterização biográfica e emocional do personagem principal, Martin.
O leitor está perante um romance de personagens, psicológico, e (deliberadamente?) escasso em dinâmica. A narrativa é habitada por personalidades (Sónia, Darwin…) que não intensificam, por contraste, as particularidades emocionais do personagem principal.
A evolução das características psicológicas de Martin poderia ganhar outro relevo caso fosse contrariada por acções ou personagens capazes de rivalizar na atenção que lhe é dirigida por parte do narrador. No entanto, esta situação é atenuada com a presença de Sónia, que vai ganhando relevo na “segunda metade” do romance.
Martin sonha com ela quando está longe, mas quando se aproxima, quando entra em contacto com Sónia, sente-se diminuído. No sentido inverso, rejuvenesce quando dela se afasta. O romantismo não se compatibiliza com a realidade.
Estruturalmente, a narrativa é dotada de uma constante mudança temporal, devido às persistentes analepses; suporta suspensões da realidade através do sonho, e assenta na irrequietude e cíclica movimentação física de Martin, que viaja de comboio para diferentes cidades e países. É nessa suspensão da realidade que as características de um certo romantismo se notam mais.
“Por vezes, quando contamos um sonho, amaciamo-lo, arredondamo-lo, embelezamo-lo aqui e além para o elevar, pelo menos ao nível do absurdo plausível (…)” Pág. 33
Um dos aspectos mais interessantes de “Glória” é a possibilidade dada ao leitor de se aproximar da percepção que Nabokov tem do mundo. Se pensarmos na língua russa como a sua língua materna, mas na língua inglesa como “matéria-prima” dos seus principais romances, deparamo-nos com diferentes perspectivas do mundo onde o próprio se debate. Se virmos a língua como um hábito imprescindível ao comportamento social, uma forma de representar o mundo e de moldar o pensamento, ou mesmo uma articulação de princípios cognitivos, podemos captar neste livro uma profundidade psicológica que irá ganhar ainda mais importância nas obras seguintes. E, de facto, a uniformidade é uma característica da ficção de Nabokov. O autor, sobre a homogeneidade temática, afirma que alguns autores são adjectivados de versáteis porque imitam diferentes autores. A originalidade artística só tem a si própria para se copiar[i].
Na verdade, há em “Glória” uma abordagem psicológica e uma deslocação física do tipo de personagens que voltaremos a ver, com maior complexidade e aprofundamento, no incontornável “Lolita”.

Mário Rufino
mariorufino.textos@gmail.com



[i] In “The Art of Fiction” Nº 40

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