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segunda-feira, 11 de junho de 2012

“Deste lado da Luz”, de Colum McCann (Pnet Literatura)


“Deste lado da Luz”, de Colum McCann



Colum McCann é um autor irlandês, premiado em sete ocasiões (cinco romances e duas colecções de contos). O romance anterior “ Deixa o Grande Mundo Girar” foi premiado com o “National Book Award” de 2009, entre outros prémios e nomeações. Os seus livros estão traduzidos em trinta línguas. “Deste Lado da Luz” chega a Portugal através da Editora Civilização

“Toda a luz verdadeira regride com a memória da luz” pag.255

I Em “Deste lado da luz”, Colum McCann estabelece uma relação tanto intrínseca como extrínseca com a pintura. As construções das comoventes e poderosas imagens baseiam-se numa dialéctica entre luminosidade e sombras. A caracterização emocional das personagens, a construção de todo o ambiente onde se inserem, a própria contextualização social é sugerida ao leitor através de uma luz que se concentra em aspectos particulares. O que fica na sombra enfatiza o facto desnudado pela luz. A memória e o tempo estão dependentes entre si e a constante referência ao “Melting Clock” de Salvador Dali, grafitado na parede do túnel, simboliza a relatividade do tempo perante a persistência da memória.
A conjugação entre luz e sombra presente no aspecto emocional, social e espacial define os principais elementos ao longo da narrativa, deixando os outros elementos presentes na penumbra, prontos a emergir da escuridão. A construção de imagens é muito forte em “Deste lado da Luz”. O autor consegue ser incisivo e eliminar ou suavizar o possível afastamento do leitor. A procura de Treefrog, na sua pequena caverna dentro do túnel, dos seus objectos pessoais através do acender e apagar de um isqueiro constrói uma incisiva oposição entre o claro e o escuro A luz focal vai desvendando, conforme a vontade do autor, o que podemos ver ou onde devemos pousar a nossa atenção. Outro exemplo que suporta esta técnica narrativa tão ligada à pintura, mais propriamente ao chiaroscuro, é a iluminação dos mapas, desenhados por Treefrog, através da luz de uma vela.
A dialéctica entre a luz e a sombra é a chave de leitura proposta pelo Colum McCann. O tenebrismo está presente nos locais, nas emoções, no conhecimento e na ignorância, no recalcamento de acontecimentos traumáticos e na recordação dura e violenta de actos insuportáveis. Existe na solidariedade e no racismo, no desprezo e no companheirismo. A Luz e a escuridão estão presentes em cada personagem, em cada ser humano.
II
O realismo da prosa de Colum McCann aborda vários temas que, no seu conjunto, resultam numa reflexão sobre a condição humana, os seus valores e construção ética, e sobre a arbitrariedade dos acontecimentos que, de forma irremediável, afecta o desenvolvimento da sociedade e de cada indivíduo. A narrativa é contextualizada pela II Grande Guerra, pelo Racismo dos anos 20 e anos consequentes, pela hipotética libertação do indivíduo nos anos 60, e pelo tempo decorrido até chegar à actualidade. Estamos em duas épocas em simultâneo: acompanhamos Treefrog desde 1991 e Walker desde 1916. A distância temporal das duas narrativas paralelas vai diminuindo com o decorrer da narração, aumentando a pressão dramática e emocional, até chegar à fusão da narração num tempo único. A partilha do local e da temática permite ao autor manter a coerência do texto. Em nenhuma fase o leitor se confunde, ou se “perde”. Em dois tempos paralelos, as personagens repetem-se tendo como ponto comum o túnel (no aspecto físico), o rompimento de limitações (no aspecto emocional) e o possível renascimento (individual e social). É constante a focagem nas margens da sociedade, nas pessoas que nela não encontram o seu espaço, ou, de uma forma mais crua, nos despojos humanos do darwinismo social. A luz destaca as figuras principais do texto, sempre abaixo da linha do horizonte, abaixo do que é socialmente aceitável:
“Meu Deus, estou tão baixo, amor, que afirmo que para olhar para baixo tenho de levantar os olhos” pag. 93)
No plano temporal mais próximo (com início em 1991), a sociedade existe como uma entidade alheia, que caminha e vive por cima dos miseráveis depositados num túnel brevemente visitado pela luz do dia. Em paralelo e numa outra época (a partir de 1916), as diferenças sociais existem através do racismo e da negação de direitos fundamentais. A dificuldade em ultrapassar fenómenos malignos como o álcool e as drogas, a luta contra a miséria e a convivência entre classes são temas basilares das duas narrativas.
A rejeição social, através do racismo, é determinante na vida de Walker que, por ser negro, é uma vítima constante de acções racistas. Estamos no período de 1916-1932:
“Por vezes, na rua, os polícias revistam-no e ele não reage, não se arriscando a dizer coisa alguma; se abrir a boca, eles desfazem-no com pancada. Põe o seu dinheiro de parte num banco de negros – tem menos lucro, mas pelo menos está com os seus e ele sente que está em segurança” pag.53
Ainda neste período, a problemática relação entre trabalhadores e patronato faz-se sentir. Na inauguração do túnel, apesar de todos os esforços do patrão em ser ele a cortar a fita e em ser o primeiro a atravessa-lo, o grupo de trabalhadores antecipa-se e faz questão de partilhar aquele momento histórico com as esposas, os filhos e os netos. O grupo funciona como uma personagem independente, constituída pelos trabalhadores, sem nunca privar os seus elementos de individualidade. O trajecto é uma procissão em honra dos mortos e uma passagem cultural às novas gerações.
“Algumas mulheres colocam flores na beira dos carris, e acendem-se mais velas ao lado dos ramos. A meio do túnel os homens apertam a mão uns aos outros, os soldadores à procura de outros soldadores, os waterboys a conversarem com outros waterboys. (…) O sobrinho de Power corre pelo túnel para lançar a bola de baseball com os outros rapazes” Pag. 49
A estrutura moral ou de valores éticos são divergentes nas duas linhas de narração. Treefrog, Ângela, Elijah e restantes habitantes do túnel, subvalorizados pela sociedade, fazem tudo para sobreviver. Naquela existência afastada da sociedade estão entregues à escuridão e têm uma outra escala de valores. Se na construção do túnel e no seu interior, em 1961, Walker não sente a rejeição social,
“ Mas Walker não se ofende. Sabe que, debaixo do rio existe uma democracia. No meio da escuridão, o sangue que corre nas veias é da mesma cor para qualquer homem – um latino, um negro, um polaco, um irlandês, é tudo a mesma coisa – pelo que Walker apensa se ri” pag 11.
já Treefrog, no mesmo local mas na década de 90, vive como um bicho, isolado, comercializando somente o indispensável e desprovido de qualquer solidariedade. A rejeição social acontece de forma diferente nos dois planos. Enquanto Walker sofre o racismo, Treefrog sofre a miséria.
O desenvolvimento da narração é, também, diferente nos dois casos.
Por um lado, e numa perspectiva diacrónica, acompanhamos a juventude de Walter até ser avô de Clarence Nathan (personagem chave), observando, desta forma, a construção e decadência da sua família ao longo dos anos; por outro, temos uma visão mais sincrónica, menos linear e mais dependente da luz que desvenda a memória de Treefrog e nos permite ir descobrindo a ligação dele com Walker e a sua família. Através das pistas deixadas pelo autor, conseguimos perceber que em tempos ouve uma ruptura insanável na vida de Treefrog. A partir daqui, o seu comportamento tornou-se errante até se transformar em obsessivo-compulsivo. Destruído emocionalmente, começa a agredir-se. Treefrog entra no outro lado da luz, no outro lado da lucidez e dentro da escuridão.
A narração é, muitas vezes, emocionalmente violenta. A verdade interior dos personagens tanto é derrotada como sai, por vezes mas não definitivamente, vencedora.
“- A sério, é uma bela ideia, gostaria de morrer, faz-me lembrar morangos, parece delicioso” pag. 67, disse Ângela a Treefrog.
É com esta personagem que Treefrog vai evoluindo e ensaiando alguns actos de solidariedade e compaixão. É a ela que conta o começo da auto-agressão (clips em brasa, tesouras, alicates, cigarros, fósforos, lâminas…). Colum McCann mostra-nos que há possibilidade de salvação para Treefrog, uma hipótese de ele passar para a luz. E aqui existe uma clara referência a Dante e aos seus círculos do inferno em “Divina Comédia”:  “Ele sabe muito bem que homens e mulheres vivem aqui em baixo e tem de ser cauteloso. A sua aparição no meio deles é falsa, é um homem que ainda vive em algum mínimo de luz. Ele viu-os, aos verdadeiramente condenados. (…) Homens e mulheres feridos vivendo no seu lazareto de desespero. Há sete andares de túneis ao todo- e ele ouviu falar de homicídios e esfaqueamentos aqui em baixo” pag 106
Paralelamente, Clarence Nathan, neto de Walker, conhece o inferno do avô. O racismo atravessa gerações:
“Todos os insultos são rabiscados num caderno da escola: mestiço, mulato, escurinho, tostado, tição, escarumba, esturro, copinho de leite, branquela, carvão, preto” pag. 181
Devido à cor da sua pele, oriunda de avó branca (Eleanor) e avô negro (Walker), Clarence Nathan sofre o racismo dos brancos e dos negros.
O tempo das duas narrações vão-se aproximando, o cruzamento de personagens é mais visível, e as acções e consequências tornam-se mais claras. Colum McCann demonstra-o de forma sublime, através de Treefrog:
“ Debaixo da grade, olhando para cima, a observar as estrelas irrelevantes, Treefrog sabe que a luz a bater nos olhos desapareceu há anos; não existe nada lá em cima a não ser o movimento do passado, coisas há muito implodidas e explodidas e desaparecidas para sempre” pag. 198
Apesar de toda a negrura, decadência, podridão, o autor mostra sempre o outro lado, o lado da salvação, da iluminação. Walker e Clarence Nathan sentam-se na igreja e ouvem as palavras de um novo Pastor, jovem, sobre um antigo rei de Judá, Ezequias. O sermão é sobre a tolerância, a necessidade de fé e da permanência da luta. Na construção de um túnel entre dois reservatórios de água, uma equipa começou a escavar junto à fonte de Siloé e a outra equipa junto à fonte de Giom. Contavam encontrar-se a meio, mas erraram os cálculos e os túneis perderam-se um do outro. Os homens gritaram de raiva e desespero. Quando, em vez de somente gritar, quiseram também ouvir, distinguiram as vozes presentes em cada túnel. Mudaram de direcção e guiados pelas vozes escavaram até se encontrarem:  “Os homens escavaram o resto da rocha e olharam de perto para os rostos cansados uns dos outros. Depois, estenderam a mão e tocaram-se para terem a certeza de que eram reais.” Pag. 163,164
Este é o caminho da luz, onde os dois opostos se unem e onde as duas narrações paralelas se aproximam e se tornam numa só. No fim, num só tempo e narrativa, percebemos que entre Treefrog e Clarence Nathan só um pode sobreviver.
“ Ele esvaziou a si próprio de história, e tudo o que Clarence Nathan conheceu alguma vez na sua vida está entre o momento presente e um túnel” pag. 245
III
Colum McCann manipula com mestria as necessárias técnicas narrativas para manter a coerência do texto, cria imagens pungentes, constrói personagens inquietantes, e elimina a leitura passiva desta história. E consegue-o de forma convincente. O mundo representado é o nosso e depressa reconhecemos contemporaneidade em “Deste Lado da Luz”. A violência emocional é tremenda, mas nunca gratuita. Apesar de alguma falta de fluidez nas analepses, ou flashbacks, o leitor não se perde na inerente complexidade de uma narração a dois tempos paralelos.
Em suma, é um bom livro, composto por várias camadas interpretativas, pleno de significação e que, provavelmente, pede uma releitura. E se o solicita, não é por dificuldade de seguir ou compreender o enredo, mas pela riqueza simbólica das imagens criadas.
Mário Rufino

Para mais detalhes sobre o autor: http://www.colummccann.com/

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