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quinta-feira, 21 de junho de 2012

Tânia Ganho sobre o seu livro "A Mulher-Casa" (entrevista)

A minha entrevista com Tânia Ganho, sobre " A Mulher-Casa", para o Diário Digital.

Tânia Ganho sobre «A Mulher-Casa»: «Este livro é uma homenagem às mulheres»


DIÁRIO DIGITAL: http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=578666


Christos Tsiolkas apresentou-me, em “A Bofetada”, a tradutora Tânia Ganho. Foi devido a este livro que conversámos pela primeira vez. Algum tempo depois, saiu “O Filho do Desconhecido”, de Alan Hollinghurst, com outra excelente tradução da mesma tradutora. Antes destes dois livros, já Tânia Ganho havia traduzido John Banville, David Lodge, Ali Smith, Nicholas Shakespeare, entre outros…No entanto, é a sua própria produção ficcional que aproxima ainda mais Tânia Ganho dos leitores. É pela sua própria voz, pelos mundos que cria, que se dá a conhecer.
Vencedora, em 2011, do Concurso Internacional de Contos Cidade de Araçatuba, a escritora lançou, em 2012, “A Mulher-Casa” (Porto Editora).
Tânia Ganho propõe-nos, no seu 4º romance, um exercício de interpretação literária sobre o problema da libertação do indivíduo.
Neste livro, a atenção recai sobre o papel da mulher na sociedade. A Moral, o Hedonismo, a Fidelidade são temas sobre os quais a autora propõe a reflexão.
Todos nos identificamos, em algum aspecto, com a família de Mara, mesmo que sigamos caminhos diferentes dos que os seus elementos seguiram. Daí a inquietação que “A Mulher-Casa” provoca.

Quem é a mulher-casa? Qual é a origem deste título?  

A “mulher-casa” é o título de uma série de desenhos e pinturas que a artista plástica Louise Bourgeois (1911-2010) fez em 1946-7 e cujo tema – a casa como refúgio ou prisão – desenvolveu até ao final da sua vida, nomeadamente na série de instalações “Células/Celas” que criou nos anos 90. Estas obras de Louise Bourgeois interpelaram-me em especial pela sua ambiguidade e vejo nelas a expressão inquietante do conflito identitário de tantas mulheres actuais, divididas entre os papéis de mãe e de mulher que, infelizmente, continuam, em muitos casos, a ser difíceis de conciliar.


Tânia Ganho, a tradutora, segue o Acordo Ortográfico [“A Bofetada” de Tsiolkas; “O Filho do Desconhecido” de Hollinghurst], mas Tânia Ganho, a escritora, não segue. Qual a razão dessa diferença?

Eu, que na vida sigo o lema da constante mudança, tenho muita dificuldade em adaptar-me a uma nova forma de escrita, por isso continuo a escrever à moda antiga, quer como tradutora, quer como escritora, até porque não concordo com algumas das alterações que o Acordo impôs. As editoras que publicam as minhas traduções é que se encarregam – na fase de paginação e revisão – de fazer a adaptação dos textos, poupando-me a muitas dores de cabeça.


Mais do que a cronologia, são os momentos que marcam o tempo na vida de Mara. Refiro-me aos botões de madrepérola e, principalmente, aos chapéus. Os livros funcionam para a autora como os chapéus para Mara?

Não. Os chapéus da Mara são traduções imediatas dos estados de espírito dela, são transposições criativas das emoções que a assolam no presente, são projectos imediatistas. Os meus livros são projectos de fundo que reflectem a minha noção da vida como uma colecção fluida de momentos que não obedecem necessariamente à cronologia. Não gosto de datas, baralho as datas da minha própria existência, mas tenho uma memória incrível para preservar imagens, gestos, cheiros e momentos, sobretudo os momentos felizes, porque são esses que servem de balizas na minha vida. 


Até que ponto a escrita deste romance a interrogou a si própria enquanto mulher e mãe?

A escrita do romance não me suscitou interrogações, foram as interrogações já existentes na minha mente sobre a condição da mulher e a maternidade que deram origem ao romance.

O enredo tem o eixo em Mara, nas necessidades de Mara, nos problemas de Mara… É uma visão feminista sobre a individualidade e o casamento?

Este livro é uma homenagem às mulheres. A minha intenção foi trazer as mulheres – os seus problemas, necessidades, desejos e sexualidade – para a escrita, como defenderam as feministas francesas Hélène Cixous, Luce Irigaray e Julia Kristeva, nos anos 70, quando apresentaram o conceito de écriture feminine, que infelizmente foi completamente deturpado.

Porque optou por uma narração tão próxima à visão de Mara?

Foi um mecanismo literário premeditado para criar uma maior relação de identificação do leitor com a personagem. Eu queria que as pessoas se identificassem com a Mara, ou pelo menos que conseguissem entrar na cabeça dela e perceber as suas motivações, mesmo não concordando com elas. A Mara tem suscitado reacções fortíssimas nos leitores e é essa é a maior alegria que este livro me tem dado.


Qual é a razão de haver uma diferença de ritmo entre o período antes de Mara conhecer Matthéo e o período depois de Mara se envolver com Matthéo?

Imprimi um ritmo mais pausado à primeira parte do romance de modo a reflectir a lenta degradação do casal e da estrutura familiar, o desgaste gradual da relação e o ruir das expectativas da Mara. A partir do momento em que Matthéo entra em cena, o livro assume o ritmo da paixão, que é por natureza acelerada, irracional, impulsiva.


O leitor é confrontado com vários egos, várias individualidades, que se afastam entre si para satisfazer as próprias necessidades. Estamos perante o “culto do Eu”?

A sociedade actual é pautada pelo culto do eu, pelo individualismo, o egocentrismo, e o livro é a expressão disso mesmo, mas o meu objectivo era mostrar o oposto: tem de haver valores superiores às necessidades mesquinhas do indivíduo.


Na verdade, ela não chega a tomar nenhuma decisão. É levada pelos acontecimentos. Mara é uma personagem reactiva?

Mara é uma pessoa como tantas que eu conheço, que assumem o papel de vítimas passivas dos acontecimentos e ficam sentadas à espera que Deus, o destino ou simplesmente os outros lhes dêem as respostas e as mudanças de que necessitam para serem felizes. A Mara é o oposto de mim, nesse sentido: eu sou uma pessoa que age, a Mara reage.


A personagem Mara segue a doutrina do Hedonismo?

Uma doutrina implica um sistema estruturado de ideias, uma filosofia subjacente ao comportamento. A Mara não tem essa sofisticação mental, limita-se a reagir a encontros e desencontros, sem reflectir. E é demasiado afectada pela noção de culpa para a podermos considerar hedonista.


Na construção das personagens teve algum modelo real/alguns modelos reais?

A Mara é a soma de muitas mulheres com que me tenho cruzado na vida, é uma amálgama de sentimentos e pensamentos que fui coleccionando ao longo dos últimos seis anos. Para a criar, roubei frases a algumas amigas (“eu não durmo, faço sestas”) e utilizei emoções que eu própria senti quando tive o meu filho (a dificuldade em encontrar espaço para a escrita numa vida regida pelo horário dos biberões). O Thomas tem muito de mim, no sentido em que vive no seu mundinho feito de palavras e às vezes tem dificuldade em desligar do trabalho e concentrar-se nos aspectos mais domésticos da vida. O Ministro é uma espécie de Dominique Strauss-Kahn. O Matthéo é um rapaz como tantos outros, mas é uma personagem por quem tenho muito carinho. 


As imagens proporcionadas pela relação sexual entre Mara e Matthéo são muito sugestivas. É difícil escrever sobre sexo?

Dizem que sim. No meu caso, sinceramente nem pensei nisso. Para mim, escrever sobre sexo é muito mais natural do que descrever a Mara a moldar um chapéu de feltro ou o Matthéo a preparar um magret de pato com mel. Cresci numa família de médicos, ainda por cima com um pai urologista, por isso o corpo sempre foi um tema natural e constante à mesa do jantar, sem tabus. Acho que isso ajuda a falar da intimidade de uma maneira espontânea e descontraída.

Há uma simbiose entre Thomas (marido de Mara) e o ministro. Ele, como ghostwriter, é ou influencia a “voz” do poder. Por outro lado, começa a comportar-se, socialmente, como o ministro. Em algum momento, sentiu que estava a suceder a mesma situação entre personagem (ns) e autora?

Não, a fase de simbiose entre a autora e a personagem precede o livro. É antes de escrever o livro que me meto na pele da personagem e vejo o mundo através dos olhos dela. Ou seja, antes de começar a escrever, andei meses a olhar para as coisas à minha volta como se fosse a Mara: escolhi as exposições que fui ver em Paris em função dos gostos da Mara-modista de chapéus, interessei-me pela moda francesa, passei horas a mexer em plumas e feltros e palhas, a analisar os motivos arquitectónicos do 7º bairro e a observar a vida no Campo de Marte. A partir do momento em que senti que a Mara já existia de facto na minha cabeça, já era uma “pessoa” de carne e osso, voltei a ser apenas a Tânia Ganho.


E com que olhos vê o mundo, neste momento?

Com os olhos da personagem do meu próximo romance: um homem na faixa dos 40, com uma profissão ligada ao mar.


Mário Rufino



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