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terça-feira, 23 de outubro de 2012

Caro aluno e leitor...


Caro aluno e leitor,
Permite-me, antes de tudo, tratar informalmente o meu amigo. Somos da mesma família e partilhamos as mesmas preocupações.
Hesitei em escrever-te devido à minha incapacidade em ser sucinto. A minha ideia era adaptar a mensagem à forma vigente de comunicação, mas não consegui. Tentei enviar um SMS, mas não deu resultado. "Não leias" pareceu-me muito redutor. Tentei uma mensagem electrónica, mas mesmo assim não fiquei satisfeito. "Não leias. Não percas tempo a ler só por ler. Pratica desporto. Tens mais sorte com as raparigas" pareceu-me melhor, mas insuficiente. Perdoa-me, mas tem de ser por carta.
Aflige-me perceber que estragas o teu tempo a fazer autópsias. A barriga rebela-se e agiganta-se durante o tempo em que estás sentado. Não te admires que ela te tape a visão.
Diz-me..porque perdes tempo a autopsiar um cadáver quando podes saber como foi a sua vida? Não és tu aborrecente? Ou já não passaste tu pela adolescência? Puxa pelo pouco de positivo que tem essa fase e insurge-te. Há direitos adquiridos. Tu não tens de ser torturado.

Ouve o que te vou dizer:
Estuda. Deves estudar Literatura. Não sei muito bem o que é Literatura, mas deixemos isso para depois. Tens de estudar, lamento, mas terás oportunidade de te vingares.
Quando acabares os testes, agradece à professora ou professor o facto de te ter ensinado tanto sobre economia doméstica. E explica-lhe, pois certamente ela/ele não vai entender. De tanto ouvires falar de narrador omnisciente, discurso directo, indirecto ou diabo-a-sete, de fazeres um levantamento do vestuário que as personagens usavam em "Os Maias", por exemplo, de caçares interjeições na "Odisseia" de Homero tu juras por tudo que não vais cometer a ousadia de gastares dinheiro com um livro! Afirma com todas as tuas células que jamais te passará pela cabeça tentares perceber, após aquela tortura medieval, o que é a Literatura. Deus te valha! Que te sirva de lição! Olha bem para a figura dos professores!!!
Certamente fazem parte da elite que começou a ler "Guerra e Paz" antes de provar alimentos sólidos e já sabia ler, escrever e compor poesia antes de andar. Diz-lhes isso e lamenta, do fundo do coração, a sua sorte.
Aprende!
Felizes são aqueles que começam a ver o Patinhas quando são crianças e ainda não sabem ler.
Observa!
Se te disserem que nasceram entre livros, repara bem se não sofrem de asma devido ao pó! É o único efeito que os livros têm naquela idade. Os pais deviam ser denunciados à Segurança Social por deixarem uma criança pequena, desprotegida, pegar em "A Divina Comédia".
Deixa-me dar-te um conselho, dentro dos meus limitados conhecimentos:
Chateia quem pensa que estabelece as regras. Eu sei que já o fazes, mas aprende a fazer melhor. Quando te derem um livro para ler, pergunta "Porquê este e não outro?"; quando te pedirem para dissecares o conteúdo, pergunta "Porquê assim e não assado?» E não fiques por aqui! Espera o contra-ataque. Eles vão ripostar. Convém estares preparado. Vai a uma biblioteca e lê o livro que os professores te disseram para ler e mais uns quantos que pensares serem apropriados. O critério de escolha depende de ti. Escolhe por peso, tamanho ou proximidade. Mas pega neles e lê. Depois, quando te disserem que tal livro pertence ao programa da escola, insiste  «Porquê?». Vão ficar furiosos contigo. Acredita. O meu filho faz-me isto e resulta sempre. Não baixes as defesas! Não te deixes surpreender quando te perguntarem "Então...diz-me lá...o que é que tu lerias?" Na realidade, eles não querem saber o que tu queres ler. E pensam que tu não sabes responder. Sorri e questiona-os sobre o que acham deste ou daquele livro. Olha para a face e repara na mudança de pigmentação na pele. Faz-lhes perguntas... Não sobre o narrador, por amor a Deus!!! "Que tipo de relação é que determinado livro tem com outro livro?" "E o autor? Que influências é que teve?" "Poderá dizer-se que a interpretação do texto é plural ou está consolidada nos manuais?"
Por esta altura mandam-te embora, mas tu já tiveste a tua vingança. Olha...faz isto só no fim do ano lectivo. Por muito que batalhes, vais ter sempre de escrever sobre a omnisciência do narrador desde o primeiro teste até ao último. Vais aprender uma lição muito triste. As pessoas não gostam de que lhes façam perguntas para as quais não sabem as respostas. É como os políticos. Antes de irem para os debates precisam de saber, mais ou menos, quais são as perguntas que estão estabelecidas.

A carta já vai longa. Não prometo que não te volte a escrever. Se precisares de ajuda...

Abraço e força!!!! Tem paciência!

Mário

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