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sábado, 17 de novembro de 2012

"O Rei do Monte Brasil" de Ana Cristina Silva (Diário Digital)


http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=601306

«O Rei do Monte Brasil», nono romance de Ana Cristina Silva, é o sucessor de «Cartas Vermelhas», obra nomeada para o «Prémio Fernando Namora». A edição é da Oficina do Livro.


A linguagem tem sido explorada pela autora, como matéria-prima, em diversas áreas. A sua produção científica, contextualizada pela profissão de docente universitária no ISPA na área de aquisições precoces da linguagem escrita, ortografia e produção textual, tem evoluído a par com a escrita de ficção.
Ao nono romance, a escritora apresenta visível coerência temática. Dos oito romances anteriores, destaque-se «A Mulher Transparente» pela diferente contextualização. Todos os outros romances, incluindo «O Rei do Monte Brasil», abordam diferentes épocas e figuras da História de Portugal. A guerra colonial está presente em «Meia-Luz», Florbela Espanca é a figura central de «Bela» e Mariana Alcoforado de «Mariana, todas as cartas». A ficção aborda o século XVI nos romances «As Fogueiras da Inquisição» e «A Dama Negra da Ilha dos Escravos». Al-Mu`tamid é o eixo de «Crónica do Rei-poeta Al-Mu`tamid» e, em «Cartas Vermelhas», a abordagem volta ser mais política, pois a história coloca-nos na sociedade portuguesa sob o antigo regime.

Neste seu último romance, o leitor tem a possibilidade de participar no histórico confronto entre Portugal, potência colonizadora, e Moçambique, antiga Colónia.
«O Rei do Monte Brasil» é um livro sobre confrontos. Mouzinho de Albuquerque e Gungunhana representam, além das respectivas figuras históricas, dois lados opostos que se combatem. Eles são as civilizações que não se entendem, as crenças que não se toleram, os egos que não se suportam.
No entanto, a incompatibilidade de egos deve-se, essencialmente, à partilha de características que os levará a perder o que os sustenta: poder.
O ego, tanto de Mouzinho como de Gungunhana, é a principal razão da queda de ambos. Mouzinho enfrenta as chefias e paga um preço muito alto; Gungunhana refugia-se no álcool, devido à perda das pessoas que mais amava, e toma decisões baseadas na soberba. O declínio é mútuo e paralelo.

Os rostos dos mortos, o sangue e a violência nunca deixaram de estar presentes na vida e na memória do militar português e do chefe dos Vátuas.

São dois homens construídos de passado que não conseguem aceitar a condição que têm na actualidade em que vivem e contam as suas histórias. Com as suas palavras, pensamentos e actos vêm as sombras de acções praticadas num pretérito que não se conjuga com o momento presente. Eles não aceitam a história.

No fim, de uma forma ou de outra, a decadência, a efemeridade do poder e a morte acabam por uni-los.

A autora optou por uma narração polifónica, entregando a dinâmica da narrativa a um jogo de poder entre as vozes, intercaladas, dos dois personagens principais. A pluralidade de vozes permite a avaliação de determinado acontecimento por vários prismas. Além de ter optado por um «eu» narrativo, permitindo aprofundar as características psicológicas de cada um, a autora escolheu uma terceira pessoa indefinida para mostrar ao leitor a ascensão e queda do chefe dos Vátuas.
Ana Cristina Silva escreveu uma obra onde procura aprofundar as características psicológicas das personagens e desenvolver, em simultâneo, a narrativa de forma a abranger um período importante da História de Portugal e de Gungunhana, em particular.
«O Rei do Monte Brasil» é uma peça importante na já significativa obra de Ana Cristina Silva.

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