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terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Quando as Correntes d´Escritas «grandolaram»


http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=617677


Crónica
22 De Fevereiro de 2013
Correntes d´Escritas

Gostava de tratar as palavras e os silêncios como Carmen Dolores, a actriz portuguesa, o consegue fazer.
Quando a vi, pela primeira vez e ainda no hotel, temi por ela devido à sua aparente fragilidade. Carmen Dolores é actriz de gerações. No meu caso, vem desde a minha avó até mim.
No auditório, apertou-se-me o peito quando ela começou a falar. Percebi, claramente, que as palavras lhe pertenciam assim que ela as assoprou. O melhor que eu podia fazer era manter o silêncio para a ouvir. Compreendi então que o meu silêncio é diferente. O meu silêncio anula o som. Limita ou elimina a comunicação. É uma ausência.
O silêncio de Carmen Dolores tem com o som da palavra uma relação íntima de intensificação mútua. Faz parte da palavra. Não a anula.
Estava simplesmente sentada. Não se levantou para falar. Ligou o microfone. E leu. Só isso. Leu. Aquela senhora frágil e pequena encheu a sala com a sua alma e, apesar da imensa qualidade emprestada por Zimler, Hélder Macedo, Manuel Jorge Marmelo, Manuel Rui e Rubens Figueiredo, os sons seguintes pareciam curvar-se perante a voz da actriz.
“e eu já nada sei soprar sobre as palavras” era o título dessa mesa. O silêncio é indispensável para a fruição desses pequenos universos, cheios de planetas e de vida, que são as palavras. São um sopro que vem do nosso interior.
Pensei nisto durante algum tempo. Por isso, quando entrei para assistir à mesa seguinte (5ª), já depois de jantar e cerca de 4 horas mais tarde, fi-lo com receio. Estava perante um mais-que-provável anticlímax. Não por desconfiar da valia dos intervenientes. Ignacio Martínez de Pisón (escritor espanhol), Luís Carlos Patraquim (escritor moçambicano), Maria do Rosário Pedreira (escritora portuguesa), Nuno Camarneiro (escritor português), e Rui Zink (escritor português) são garantia de qualidade. Mas por pensar que nada poderia igualar a excelência que eu presenciara na mesa anterior.
Enganei-me.
Carlos Quiroga moderou a discussão entre autores com realidades e formas de comunicação distintas.
A qualidade e o discurso politizado foram património comum entre todos os intervenientes. Luís Carlos Patraquim referiu-se aos tempos em que vivemos como tempos em que existe a “usurpação da dignidade da palavra e da verdade da palavra”
Tal não aconteceu em “ desse país arranquei todos os cravos”, tema desta mesa.
Depois…bem…depois Maria do Rosário Pedreira deu-me um dos momentos mais emocionantes das Correntes. Sem consciência disso, entrei numa família que não era a minha, mas pela qual me senti seduzido. O texto de Maria do Rosário Pedreira obriga a releitura. A simplicidade da prosa é enganadora. Dentro daquelas frases a alegria não elimina a tristeza, nem a tristeza elimina a alegria. Uma incorpora a outra. Mais nenhum texto, dos que ouvi e não foram todos, conseguiu tirar-me o chão. Deixei de estar na Póvoa. Saí dali e receio não conseguir dizer onde estive. Mas sei com quem estive.
Maria do Rosário Pedreira deu muito de si ao auditório.
Rui Zink foi o último a tomar a palavra. Dentro do estilo que se reconhece, o autor português oficializou um neologismo que se tem ouvido na voz de Sara Figueiredo Costa e lido nos respectivos textos da autora: o verbo Grandolar. E foi assim que terminou a sessão: a grandolar (cantar “Grândola, Vila Morena” de Zeca Afonso).
Rui Zink ameaçou não se calar enquanto não lhe grandolassem. O povo fez-lhe imediatamente a vontade. Leitores e escritores partilharam as palavras de Zeca Afonso.

Mário Rufino
Mariorufino.textos@gmail.com

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