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domingo, 16 de junho de 2013

A Luz é mais Antiga que o Amor, de Ricardo Menéndez Salmón (Diário Digital)



http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=637437




Ricardo Menéndez Salmón (n.1971, Gijon), autor de “A Ofensa”, “Derrocada” e “O Revisor” (conhecida como a “Trilogia do Mal”), surpreende o leitor com uma obra que interroga as fronteiras dos géneros literários.
“A luz é mais antiga que o amor” (Assírio & Alvim) procura a simbiose entre o ensaio e a ficção.
O autor dividiu o texto em duas situações ficcionadas e uma real. Em 1350, a Europa é dizimada pela Peste Negra. Beaufort, futuro Papa Gregório XI, obriga Adriano de Robertis a destruir a blasfema “Virgem Barbuda”. Em 1970, Mark Rothko corta os pulsos. O seu suicídio é o culminar de dramáticos acontecimentos na sua vida pessoal. A sua obra, principalmente o domínio da ausência, a tentativa de capturar o vazio, através da inexistência de luz nas suas pinturas, é a revelação do interior do pintor. Em 2001, Vsévold Semiasin escreve uma carta explicando a sua loucura.
O leitor está perante a ruptura com a normalidade.
A homogeneização entre os textos é entregue à geografia (Sansepolcro), a uma obra de arte (“ Virgem Barbuda”) e, principalmente, ao tema.
 O que mais importa salientar não é o binómio realidade/ficcionalidade. “A luz é mais antiga que o amor” é um texto especulativo, pois baseia-se na possibilidade. Umas situações são reais, outras são fictícias, mas todas são possíveis.

Salmón debate a dialéctica entre o ser humano, a natureza e a criação. A relação da Arte com a Vida é o tema deste livro. A partir daqui, o tema é desenvolvido através de vários assuntos.
O escritor espanhol interroga-se sobre a relação entre a obra e o criador quando, nos três textos, existe a preocupação em ligar, quase como causa-efeito, a obra às vicissitudes da vida do criador, como individuo. A morte do filho de Adriano de Robertis, o abandono de Mark Rothko pela mulher, e a incompatibilidade de Semiasin com a época em que vive são factores fundadores das respectivas obras.
E vai mais longe. A vertente ensaística tenta iluminar, e a luz é essencial neste livro, a problemática da recepção da obra, das condições sociais em que ela é produzida, e da relação, sempre presente, entre Estética e Ética.
Menéndez Salmón transmuda-se para o texto (Bocanegra é o exemplo mais visível), enquanto se interroga sobre a verdade dessa mesma transferência.
A demanda do autor espanhol é património intelectual da História da Teoria da Literatura. Dentro ou fora do texto, o Autor, universal, procura a Verdade; tenta descobrir o objectivo – se é que há- da Criação; entender os processos mentais que contribuem para a produção de textualidade; descobrir até onde a textualidade (pintura, texto literário) criada é autónoma; ou perceber se a criação da arte é uma forma de experiência moral.
“A luz é mais antiga que o amor” é uma demanda que semeia perguntas na mente do leitor.
A complexidade do raciocínio do autor encontra a simplicidade de processos na escrita. O texto é iluminado por essa simplicidade, e o leitor poderá, assim, usufruir da luz que Salmón empresta a temas intrínsecos da Arte.

Mário Rufino
Mariorufino.textos@gmail.com

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