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quarta-feira, 12 de junho de 2013

Bipolaridade



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“Tudo o que vejo está, por princípio, ao meu alcance, pelo menos aos alcance do meu olhar, edificado sobre o plano do «eu posso». Cada um destes planos está completo. O mundo visível e o dos meus projectos motores são partes totais do meu ser”[i]

Concebe-se a inter-relação com o mundo a partir do que se consegue alcançar.
O olhar, o toque, alimenta a expectativa; esta relaciona-se com a visão, com o movimento.
A noção de possibilidade, de “eu posso”, encontra-se vinculada a esta relação.
Uma criança, quando quer jogar “às escondidas”, tapa os olhos, julgando assim estar invisível para o que o rodeia.
Ela pode ver logo de seguida, quando o seu corpo é tocado, que a relação com o mundo não se limita ao que ela vê e toca, mas, também, a ela como matéria vista e tocada.
Ela pode ser solicitada porque está presente, porque a sua presença se manifesta nesta interacção.
A realidade (pelo menos a realidade imediata) é conceptualizada pelos binómios ver e ser visto, tocar (ou poder tocar) e ser tocado (ou poder ser tocado).
No entanto, tudo sofre alterações quando a percepção se diferencia.
Uma pessoa que não vê cria estratégias para interagir.
E um bipolar, por exemplo?
Que ideia do mundo ele recriou e que ideia o meio em que está envolvido criou acerca dele?
A matéria é a mesma, as pessoas são as mesmas, mas a forma de ver não é a mesma.
As cores são mais ou menos intensas, carregadas; as vozes são demasiado audíveis ou, pelo contrário, pouco perceptíveis.
O mundo é o mesmo: amigos, família; mas, afinal, não é bem o mesmo mundo.
Tudo se transformou, pensa-se, e, no entanto, fomos nós que mudámos para o mundo.
A interacção torna-se problemática.
Eu sou eu e as minhas circunstâncias, disse Ortega Y Gasset.
O equilíbrio entre adaptar a vida à doença e não deixar que a doença nos domine é ténue e difícil de manter. Somar-se e adaptar-se às circunstâncias…
Talvez seja um dos objectivos mais difíceis nesta doença: a manutenção.
Ser conservador quando se está equilibrado, entre quedas e subidas.
Alcançar mais do que um período de repouso antes de se ser ocupado por esse inquilino misterioso, esse estranho que cá dentro vive.
E anseia-se (doentiamente) em se manter entre os pólos opostos. O chão que nos suporta move-se, tornando-nos receosos de subidas e descidas que aparecem sem pré-aviso.
Nesta época em que realmente somos nós que dominamos a doença e não o contrário, a consciência marca uma presença aguda, quase física, demonstrando quem fôramos anteriormente.
É a altura de mirarmos as consequências:
A intensidade com que nós vivemos as palavras, os gestos e os acontecimentos; perceber que fomos colonizados por um outro ser, um outro eu, que de mim é componente, que falou pela nossa boca aquilo que não queremos pensar, não queremos sentir e muito menos dizer.
Através das acções exorcizámos o pensamento plural e contraditório e, assim, vertemos para o domínio público o que em nós se passou.
Como se pode explicar que a boca que fala não é a minha, mas a da doença? Como se pode apelar a essa interpretação quando é a nós que vêem, e que nada da doença nós temos de tangível para mostrar?
Apetece ter uma radiografia e mostrar que é aquele ponto, aquele tumor (ou o que seja) que nos faz isto, que é o nosso inimigo.
Esta doença é um líder informal; debita as suas posições, opina pela nossa boca, mas não se assume.

Em qualquer das fases em que se está, a manutenção (ou criação) de rotinas é imprescindível para a higiene mental.
Numa situação de absoluto desregramento, o ritual disciplina o comportamento.
Certamente já ouviram isto muitas vezes e nada de novo vos apresento, mas o apoio da família e amigos é essencial.
As ocorrências irão garimpar os amigos; ficam aqueles que são mais valiosos.
Dói (muito), mas se nada é nosso, então muito menos tivemos aquilo que nunca o foi. Há que perceber porque vão; não é uma situação fácil para quem junto de nós não fica, mas, não se esqueçam, também nos perdem; também ficam sem nós.
Na fase depressiva, suporta-se os dias nos ombros e (quase) se sucumbe a um peso, hipoteticamente, maior do que a força.
“A minha alma está descosida e dela tudo cai. /Estou cheia de nada, tudo o que cai a meus pés é pisado/ [sem pena. Porque me custa sofrer.”[ii]
Sentimos que não partilhamos a mesma linguagem, nem nos baseamos nos mesmos protocolos de conduta.
Tudo se escurece e a negrura cola-se-nos à pele, às mãos, à cara impedindo-nos de respirar.
Somos um ambiente hostil, que criámos e nele vivemos.
A ausência de partilha isola-nos; ninguém lá fora sabe o que cá dentro chove.
A alegria alheia é ofensiva, contra-natura e o sol sublinha a noite que em nós se instalou.
Este inquilino, este estranho em mim, mostra os dentes quando menos se espera.
Esta tristeza minha é irmã dessa tristeza vossa.
É, tal como a morte, igual para todos, mas cada um tem a sua morte pessoal, individual e solitária.
O raciocínio ausenta-se, as mãos demitem-se do movimento e o corpo quer que o deixem em paz.
É-se impermeável aos outros; a emoção é estéril.
Não há objectivo na tristeza.
Lêem-se os artigos académicos sobre a bipolaridade; entende-se a engrenagem do sentimento, mas nenhum, ninguém, consegue demonstrar cientificamente o desespero nos olhos das pessoas que gostam de nós.
O objectivo da vida é a continuação, o adiar o inevitável, o términus que acabará por acontecer.
A morte tem algo de glórico, de pragmático. Existe para se consumar; o seu objectivo mora em si mesmo e atinge-se na sua concretização.
(mas continuamos a respirar)
Os dias colam-se uns aos outros, tornando-se indistintos.
Os medicamentos são o Norte e orientam-nos através das horas.
Somos o que estamos e em nós nos consumimos.

Na fase de mania, provoca-se acontecimentos e é-se agente (demasiado) activo sobre o meio que o rodeia.
Absorve-se tudo, é-se tudo em todo o lado.
“ Lá das alturas ela viu e fez muitas coisas maravilhosas e algumas grotescas mas sentia-se tão forte que nada lhe faria mal pois ela tinha O Poder para fazer O Bem.
(…) Encarnou poderes muito superiores a qualquer outro ser humano.”[iii]
Tudo aumenta e, por ser maioritariamente (muito) bom, considera-se o oposto do mal-estar, da doença; no entanto, é um sintoma.
Accionam-se acontecimentos sem se ter acabado os anteriores e tudo, mas tudo, o que não nos acompanha nos agride; quem não partilha a alegria e a energia que nos motiva, não nos compreende.
É-se um tsunami que arrasta tudo e todos.
O corpo é uma máquina infalível e insaciável. E o homem moderno, bipolar ou não, é plural e pleno de incoerências. 
A produção laboral aumenta consideravelmente, sendo, no entanto, errónea e precipitada.
O sexo torna-se uma (quase) obsessão animal, visceral.
A verdade é-nos subserviente e tornamo-nos amorais, aquém e além do bem e do mal. A razão é uma média aritmética e além de (só) se aplicar aos outros, somos nós que a instituímos.
Deixamos de ser quem somos para outrem, alguém que também sendo eu ou vocês, tomar de nós posse.
Na subida, deixamos para baixo aqueles que gostam de nós (sublinhe-se este alguém que para mim tem determinados rostos; para si outros, mas com denominador comum: gostam e ficam) e tornamo-nos viciados em estar bem, em estar doentiamente bem.
Estando livres da razão e da moral, o âmbito da acção torna-se brutalmente vasto.

Queria, antes de terminar este texto, de vos dizer o seguinte:

A aceitação da doença por nós tem que ser feita.
“Tornou-se mais fácil para mim aceitar-me a mim mesmo como um indivíduo irremediavelmente imperfeito e que, com toda a certeza, nem sempre actua como eu gostaria que actuasse. (…) quando me aceito a mim mesmo como sou, estou a modificar-me”[iv]
Não ocorrendo, hipotecamos a qualidade de vida, condenamos a tolerância alheia perante nós e, principalmente, não conseguimos ajudar porque continuamos, incessantemente, a precisar de ajuda e a consumir todos os recursos afectivos que nos rodeiam.
“ Não podemos mudar, não nos podemos afastar do que somos enquanto não aceitarmos profundamente o que somos. Então a mudança parece operar-se mesmo sem termos consciência disso”[v]
A psicoterapia é uma ajuda preciosa.
Acontece muitas vezes quando entro para uma sessão lembrar-me da condição de Dante na “Divina Comédia”:
Ele desceu aos círculos do inferno acompanhado por Virgílio e, posteriormente, por Beatriz
Há, nestas companhias, um companheirismo que me diz para ir, para descer, para descobrir-me, tendo medo, certamente, mas sem solidão, pois alguém está ali comigo.


A serenidade, no que me diz respeito, atinge-se quando nos transformamos em palavras, acções que dão… simplesmente dão.
A bondade é isso mesmo: dar, subordinar as nossas necessidades ao acto de dar.
Talvez seja a melhor forma de derrotar a doença; sairmos de dentro de nós e dizermos “estou aqui virado para ti e disponível para dar”.



Mário Rufino
Mário.coelhorufino@gmail.com

http://www.healthline.com/health/bipolar-disorder/caregiver-support?toptoctest=expand


[i] Merleau-Ponty, “O olho e o espírito”; Vega, 2000
[ii] Egéria, “A espiral do amor” in Bipolar- Revista da Associação de apoio aos doentes depressivos e bipolares Nº 37; pp. 21
[iii] Joana Plácido, “Transmutações” in Bipolar- Revista da Associação de apoio aos doentes depressivos e bipolares Nº 37; pp. 17
[iv] Carl Rogers, “Tornar-se pessoa”; Moraes editores, 1985
[v] Idem

1 comentário:

kassie disse...

Obrigada Mário.
Fiquei de "coração cheio" ao ler este texto.
Felicidades

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