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segunda-feira, 17 de junho de 2013

Entrevista a Mathias Énard (Diário Digital)


http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=636351



Mathias Énard (n. 1972), professor de Árabe na Universidade de Barcelona, estudou Persa, além de Árabe, nas suas longas estadias no Médio Oriente.
É autor de várias obras, das quais 2 estão traduzidas para português “Zona” (Prémio “Le Livre Inter 2009” e “Décembre 2008”) e “Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes” (Prémio “Goncourt des Lycéens 2010” e “Prix du livre en Poitou-Charentes” 2010).
O autor esteve em Portugal para apresentar “Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes” na “Feira do Livro de Lisboa” e na “Noite de Literatura Europeia”.
O leitor que aceite o desafio de ler “Zona” (D. Quixote) e “Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes” (D. Quixote) percebe, imediatamente, a riqueza de recursos narrativos do autor francês.
Os dois livros de Énard são completamente distintos. Enquanto “Zona” é um “stream of consciousness”, com poucas possibilidades de o leitor repousar num ponto final, e onde o tempo narrativo é tudo menos linear, “Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes” é composto por capítulos curtos, com leitura mais pousada, e muito mais rígido temporalmente.
Foi devido a estes dois livros que o Diário Digital teve a oportunidade de, numa curta conversa, confirmar a inteligência e conhecer a simpatia de Mathias Énard.







“Zona” tem um ritmo e estilo completamente diferentes de “ Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes”. Por que escolheu contar estas duas histórias de forma tão diferente?

O estilo de “Zona” está ligado à essência da viagem de comboio. Como a viagem não tem paragem, a frase também não. Tem também muito a ver com “Epos”, algo que é épico.
Por outro lado, “ Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes” foi pensado como um “sketchbook” (livro de esboços), como de desenhos do próprio Michelangelo. Simplesmente, vê-se um capítulo curto, de 2 páginas ou 3, como um desenho. Depois, muda-se para outro tal qual num “sketchbook”.
Essa era a ideia que tinha para este livro. O ritmo totalmente diferente tem também a ver com a própria personalidade de Michelangelo.

Fez alguma investigação para este livro?

- Muita, muita… Primeiro, quando descobri esta história comecei a investigar como era Istambul, como era a situação económica, quem esteve lá, quem Michelangelo poderia conhecer, naquela altura, como seria a cidade até aos mais pequenos detalhes. Depois, que mercadorias eram importadas de Itália para o império Otomano? Quais os objectos? O que é que eles comiam? O que é que vestiam?
Foi um enorme trabalho durante um ano ou dois. Foi terrível. Eu não conseguia escrever devido à quantidade de detalhes que tinha na minha cabeça. Eu tinha cinco páginas e não conseguia avançar mais. Tive de esperar mais 1 ano para “esquecer” tudo aquilo. Era demasiada informação.
A personagem de Michelangelo pesava-me imenso devido a tudo o que sabia dele, tudo o que tinha lido sobre ele, todo o seu trabalho. Era difícil fazer dele um personagem real. Então tive de esquecer tudo isso e trabalhar com a minha memória, trabalhar com o que me lembrava acerca de tudo. Isso levou-me algum tempo. No global, “ Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes” foi um trabalho de 2 a 3 anos.

Qual era a importância histórica daquela ponte? Hoje existem 4 pontes…

Estamos a falar do “Corno de Ouro”. Existiu uma ponte romana do tempo de Constantino, mas foi destruída nessa altura.

Foi a ponte destruída no terramoto em “ Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes”?

Não. A ponte destruída, no livro, pelo terramoto era minha. [risos] É ficção. Hoje, existe a Ponte de Gálata, que é uma ponte basculante e situa-se, mais ou menos, onde a ponte de Bayazid teria ficado se tivesse sido construída. Existem agora uma, duas, três, quatro pontes. Exacto. Entre a ideia de Bayazid e a Ponte de Gálata existem 400 anos de diferença. Ninguém tentou construir uma nova ponte.

O que é que o motiva a misturar realidade com a ficção?

Michelangelo zanga-se com o Papa, vai para França, e então recebe um convite do Sultão de Istambul para construir uma ponte em Constantinopla. Eu disse: “Oh! Incrível! Não sabia disto! É maravilhoso!” Depois descobri que era quase impossível ele ter aceitado. Perguntei a historiadores e académicos sobre se ele teria estado lá, e eles responderam que não, não tinha estado. Perguntei “Porquê?” Eles responderam “Nós saberíamos!” [risos] Eu percebi que tinha de enviar-me para lá. Foi como corrigir um “erro” histórico. Eu “vi” Michelangelo lá.


A relação entre Michelangelo e Mesihi é uma metáfora sobre a relação entre Este e Oeste?

Sim, de certa forma. O que me fascinou foi a oposição entre estas duas personagens. Nós sabemos tudo sobre Michelangelo. Existem centenas de páginas escritas sobre a sua vida, sobre a sua arte. Mas não sabemos quase nada sobre Mesihi. O trabalho de Michelangelo é imenso. Nós temos esculturas, pinturas… O trabalho que conhecemos de Mesihi resume-se a 20 páginas.
Michelangelo morre rico e famoso. Mesihi morre pobre e esquecido. Tudo os opunha. Um gosta de álcool e drogas. Michelangelo, não.

A única personagem que tem voz própria é a dançarina exótica. Temos personagens como o Papa, Michelangelo, Da Vinci, Mesihi mas a escolha foi a de uma dançarina. Por que razão?

Ela é uma personagem que vem directamente da Poesia. Ela veio do poema clássico persa. Nós não sabemos se as personagens nesses poemas eram raparigas ou rapazes. Na Pérsia, ou na Turquia, não existe a diferença, na língua, entre ele/ela. Na poesia não se consegue saber se estão a falar de rapazes ou raparigas. Muitos eram rapazes, mas os tradutores, no século XIX, escreveram “ela”. Tinha conotação homossexual. Era realmente complexo. Por isso é que esta personagem é tão incerta.

Li uma entrevista com Charlotte Mandell [conversationalreading.com], sua tradutora de “Zona”, onde ela afirma que o livro “Zona” tem exactamente o mesmo número de quilómetros da viagem de comboio entre Milão e Roma. Foi com esse objectivo que escreveu 517 páginas?

[risos] Sim, foi com esse objectivo. O número de quilómetros de comboio é mais longo do que por estrada. Uma página é um quilómetro.

Em português não podemos fazer isso, são 467 páginas.

Em francês e em inglês conseguimos…

“Zona” é mais espacial do que temporal? A narrativa segue os lugares por quais o comboio passa. Não segue uma linha temporal rígida.

Tem duas linhas temporais: a real linha temporal da viagem de comboio e outra não linear que são as histórias que conto na viagem.

Em “Fala-lhes de Batalhas, de Reis e de Elefantes” lemos, na página 119, “É verdade, Nós todos macaqueamos Deus na sua ausência”.
Somos sombras platónicas? Sombras imperfeitas?

Sim! Isso é o que Michelangelo pensa. Ele tem uma educação neoplatónica. No século XV, os últimos dos filósofos platónicos vão para Florença, Itália. [A educação de Michelangelo foi feita, em grande parte, em Florença]. A sua educação é baseada em ideias neoplatónicas. É ele dizendo isso.

No período da Renascença, escritores e pintores criaram muitas obras de arte porque eram contratados para isso. Neste caso, por exemplo, Michelangelo foi contratado por Bayazid. Eles estavam dependentes do mercado. Hoje mantém-se essa dependência?

Sim, os escritores mantêm-se dependentes, mas os patronos são menos…políticos. Continuamos com patronos: as Editoras e o mercado.
Michelangelo foi um dos primeiros artistas europeus a conseguir ser um artista livre. Ele ganha a sua liberdade, no fim da sua vida. Mas a sua vida é uma luta por isso. Michelangelo ama duas coisas: dinheiro e liberdade. E ele consegue-os no fim. Ele podia dizer “Não” às pessoas.

Necessita, como escritor, da aceitação que Michelangelo necessita no seu romance?

 Provavelmente, provavelmente…
Não sou só eu… Se vamos entrar nesta arte ou criação, todos necessitamos de público. De alguma forma, nós dependemos dele, também.



Mariorufino.textos@gmail.com

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