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domingo, 28 de julho de 2013

"Maldito Seja o Rio do Tempo", de Per Petterson (Diário Digital)



http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=646559



«Maldito seja o Rio do Tempo»: o silêncio das palavras de Per Petterson

Por Mário Rufino
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Per Petterson (1952, n. Oslo), autor do aclamado «Cavalos Roubados» (Independent Foreign Fiction Prize,em 2006, e International IMPAC Dublin Literary Award, em 2007), editado pela Casa das Letras, vê lançado em Portugal o seu romance «Maldito seja o Rio do Tempo» pela Dom Quixote. No seu segundo romance editado em português, Petterson conjuga a fluência da sua prosa com uma relevante corrente interior, que faz deste seu livro algo mais do que uma simples história entre mãe e filho.

Ao enfrentar o possível fim da sua vida, pois sofre de cancro, a mãe de Arvid parte numa viagem para a Dinamarca. Apesar de viver há 40 anos na Noruega, ela sente-se dinamarquesa. As suas viagens de Ferry desde a Noruega até à Dinamarca haviam sido frequentes. É no seu país natal que ela quer ser internada. Prestes a divorciar-se da sua mulher, Arvid decide acompanhar a mãe.
Baseando-se numa história simples, Per Petterson construiu uma narrativa com diversos planos temporais. Arvid, o nosso narrador, desconstrói a sua memória em procura de compreensão e absolvição. A culpa que o inibe prende-se com a relação nada empática com os seus pais, principalmente com a sua mãe.
A demanda emocional da mãe e do filho é complexa e com vários pontos de contacto. Enquanto eles se tentam reencontrar com eles próprios, procuram eliminar ou limitar o espaço emocional que os separa. O diálogo entre mãe e filho é dominado pelo silêncio, pelo que fica por dizer. As palavras não saem e o contacto físico é mínimo devido à incapacidade de ambos demonstrarem o que sentem um pelo outro. Aliás, nem os próprios conseguem reconhecer os sentimentos que os unem. Mãe e filho assistem, em margens opostas, ao decorrer do rio do tempo.
Um ponto essencial do livro de Per Petterson é a perspectiva edipiana de Arvid.
A ausência física do pai é sufocante... mas nunca deixa de estar presente nos diálogos e nos silêncios tanto do filho como da esposa.
O aspecto mais forte de «Maldito seja o Rio do Tempo» é a construção psicológica do personagem Arvid.
Analisando através da perspectiva freudiana, o recalcamento da relação de Arvid com os pais é responsável pela respectiva formação reactiva.
A ansiedade do filho em relação à mãe influencia decisivamente as escolhas sociais e emocionais. O Arvid adulto não renunciou a ser substituto do pai.
«Ela [mãe] iria olhar pela janela e ver de imediato aquilo que mudara enquanto ela dormia, e depois iria perceber que eu fora capaz de fazer aquilo que o meu pai não conseguira» (pág. 58)
A inconsequência dos actos deste filho, irmão de dois ainda vivos e um já falecido, é interpretada com maior ou menor condescendência por parte da mãe. A perspectiva dela sobre o seu casamento e sobre o filho não é definida pelo autor.
A relação dela com o seu amigo de infância que, ao contrário do marido, a acompanha – por vontade dela nos últimos dias antes do internamento - é aberta a várias interpretações.
Já quanto ao filho, a mãe parece não permitir que ele se emancipe.
«O problema foi quando vesti aquelas roupas com movimentos tímidos e embaraçados porque daquela vez a minha mãe não me virou as costas, elas serviam-me como uma luva, como se tivessem sido feitas especialmente para mim. Mas não o tinham sido. Pertenciam ao meu pai e tinham sido especialmente compradas para ele há vinte anos ou mais. (...) -Foi o que me pareceu - disse a minha mãe. - Que a roupa te iria servir» (pág. 124)
Entre a notícia da desistência da faculdade, contada por ele à mãe enquanto estão no café, e a notícia do divórcio, contada por ele em circunstâncias idênticas, passaram 15 anos. No entanto, Arvid precisa, em ambos os casos, da aceitação e compreensão da mãe. E nas duas situações ele apresenta-se como o derrotado.
A contextualização histórica da narração, que compreende (essencialmente) o período entre a divulgação do comunismo pós-guerra e a sua queda com o desmantelamento do muro de Berlim, a Perestroika de Gorbatchev e a revolta de Tiananmen, é mais do que um enquadramento temporal do desenvolvimento do enredo. A evolução de Arvid, tanto no aspecto racional como emocional, acompanha as mudanças políticas.
As suas escolhas reflectem a sua personalidade. Ele procura, através do comunismo, a subordinação do individual ao colectivo, mas não como procura do bem comum. O seu caminho é o da diluição do “eu” num grupo.
«Fiz aquilo que os outros faziam, porque me faltava a força para me destacar na multidão com o meu medo e a minha liberdade» (pág. 61)
Até neste aspecto, o filho não sai da sombra dos pai. O respeito que merece advém, em grande parte, do que foi conquistado pelo labor do pai na divulgação dos ideais comunistas, quando mais novo.
Ao ser chamado a intervir individualmente (na propaganda, por exemplo), Arvid confronta-se com as suas limitações.
Outrora influenciado por Mao, de quem tinha um poster na cabeceira da cama, ele deixa, passivamente, esmorecer as suas ideias com o declínio do comunismo.
Per Petterson sugere e não define. A concretização, ou motivo, das acções é deixada à responsabilidade do leitor. É a este que cabe completar as acções interrompidas, os caminhos por trilhar, as frases que ficaram por acabar.
Os silêncios terão de ser preenchidos pelo leitor.
Só assim as correntes visíveis ou interiores da prosa de «Maldito seja o Rio do Tempo» chegam à foz do sentido. Ou sentidos.
mariorufino.textos@gmail.com

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