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quinta-feira, 12 de setembro de 2013

“Emigrantes”, de Ferreira de Castro (Diário Digital)



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“Emigrantes”, de Ferreira de Castro

A literatura não tem obrigação de lutar nem de salvar ninguém. A literatura não tem de estar vinculada a qualquer “ – ismo”. Não tem, mas pode.
Ferreira de Castro (n. Oliveira de Azeméis; 1898-1974), escritor e jornalista, é considerado um dos precursores do neo-realismo. A sua produção literária é declaradamente combativa e “engagé”.
“Emigrantes” marca o início da edição de toda a obra ficcional de Ferreira de Castro, pela Editora Cavalo de Ferro.
A ideologia subjacente à prosa de “Emigrantes” é motivo e assunto na construção do respectivo romance. O autor declara-os no Pórtico (prefácio):
“O problema da emigração não é, porém, um problema-causa, mas consequência de outro mais vasto e mais profundo. Assim, sob a forma do primeiro, o nosso romance pretende dar a essência do segundo”. Pág.10
A ambição e a necessidade motivam o Homem a abandonar a sua zona de conforto para aceder a novas oportunidades. A Migração sempre foi característica intrínseca ao Ser Humano. O abandono de território para procurar novos terrenos de caça era uma constante nos primórdios da nossa existência. A evangelização, o “espalhar a palavra”, implicava, também, a peregrinação para terras desconhecidas. Podemos observar estes aspectos em livros (ou documentos) como “Carta de Pêro Vaz de Caminha” “Peregrinação”, de Fernão Mendes Pinto, ou “Tratados da Terra e Gente do Brasil“, de Fernão Cardim, entre muitos outros nas ricas e plurais “Literaturas de Expressão Portuguesa”.

O que viria a ser França, Luxemburgo e Suíça, anos mais tarde, era então Brasil e os Estados Unidos da América: terra de oportunidades e abundância.
O Portugal do início do século XX é um país rural, pouco desenvolvido. O analfabetismo impera. Dentro destas condições, as pessoas de baixas habilitações têm a ambição de serem ricas, ou de, pelo menos, não passarem dificuldades. É o caso de Manuel da Bouça, personagem que acompanhamos do princípio ao fim do romance. Ele é um homem movido pela curiosidade, mas não só. A necessidade e a ambição empurram-no para uma aventura com objectivos precisos, mas de consequências imprevisíveis. Ele representa a escassez de escolaridade e posses.
Manuel da Bouça hipoteca, no presente, o que tem em Portugal (courelas) e separa-se da sua família (mulher e filha) para, em terras estrangeiras, entregar-se a uma quimera com o objectivo de alcançar uma vida melhor, no futuro. Não era o único. Uma palavra aparece recorrentemente no texto para caracterizar o fluxo migratório (portugueses, italianos, russos…): “Rebanho”.
 “ (...) lares inteiros que se deslocavam, famintos de pão e de futuro” Pág.79
O escritor, emigrante durante muito tempo no Brasil, faz da sua própria experiência, enquanto empregado em diversos trabalhos precários, matéria literária. As “dores” de Manuel da Bouça são, em parte, as do autor.
Também ele sofreu com a divisão de classes que fechava ao pobre as possibilidades de conquistar uma vida melhor. Talvez por isso, a pobreza seja apresentada de forma romântica e honrada.
“Manuel da Bouça pensou: «O urso trabalha para o dono. É o dono que lhe dá de comer, mas dá-lhe de comer com o resultado do trabalho que o próprio urso faz. Se não tivessem preso o urso, ele podia comer sem precisar do dono. Quando eu trabalho para os outros, eu sou, salvo seja, como o urso. Mas, com certeza, no Brasil e na América, os homens não são como ursos, pois lá eles enriquecem em pouco tempo.” Pág. 40

“Emigrantes” mantém, em 2013, a contemporaneidade e a pertinência temática, apesar da sua primeira publicação ter sido em 1928.
Ferreira de Castro construiu uma obra com uma riqueza lexical pouco vista em autores surgidos no primeiro decénio do século XXI. A prosa de “Emigrantes” é densa; nela abunda a adjectivação, os diminutivos e a metáfora. Os diálogos estão próximos da oralidade. As combinações semânticas deste nível “Como de costume, despenhadas as doze na igreja na matriz…” enriquecem o texto literário.
Quanto a Manuel da Bouça, ele é um homem em trânsito. É o pobre, o último do rebanho.
O autor parece amplificar, com “Emigrantes”, a voz do “Velho do Restelo”, no Canto IV dos “Lusíadas”:
"A que novos desastres determinas/ De levar estes reinos e esta gente?/ Que perigos, que mortes lhe destinas / Debaixo dalgum nome preminente?/ Que promessas de reinos, e de minas/ D'ouro, que lhe farás tão facilmente? / Que famas lhe prometerás? que histórias?/ Que triunfos, que palmas, que vitórias?

Mas quem seríamos nós, povo português, se optássemos por não procurar?

Mário Rufino
Mariorufino.textos@gmail.com
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