Latest News

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

«Engano» de Philip Roth (Diário Digital)




Philip Roth, eterno candidato ao Nobel da literatura, é um dos mais importantes escritores norte-americanos da segunda metade do século XX. «Engano», publicado recentemente pela D. Quixote, é uma verdade fingida por Roth…

A narrativa decorre através de várias conversas, ou partes de conversas, em que Philip dialoga com a sua amante sobre diversos assuntos que vão desde o adultério à questão judaica. 
O que, no princípio, serve de fuga ao quotidiano evolui para a normalização e rotina. É um labirinto emocional. A fuga à moralidade não dá, ao contrário do suposto, mais liberdade. Os amantes mantêm-se enclausurados.
A verdadeira liberdade de Philip é exercida na ficção. Como ficcionista, ele movimenta-se numa zona cinzenta. A manipulação dos factos na construção de um outro universo permite-lhe manter-se num limbo entre a verdade e a ficção.
De outra forma, também se pode dizer que existem duas verdades: a da realidade e a do livro.
Essa manipulação acontece desde a estrutura do romance até a nada inocente atribuição do seu próprio nome de autor, Philip (Roth), ao personagem.
O autor desafia o leitor a separar a realidade da ficção ao criar um simulacro de si próprio, Philip Roth, para se poder imaginar a ter um “affair” no livro.
O leitor mais incauto facilmente confunde esse personagem com o autor.
A colagem da ficção à biografia, por parte dos críticos, é alvo de sarcasmo:
«Eu escrevo ficção e dizem-me que é autobiografia, escrevo autobiografia e dizem-me que é ficção, por isso, já que sou tão burro e eles tão espertos, deixá-los a eles decidir o que é ou não é» (pág. 181)
Philip  é um predador de comportamentos, histórias e palavras.
A narrativa, em grande parte construída em discurso directo, concentra a tensão existencial dos seus actores em cenas (maioritariamente) curtas. Numa mise-en-scène minimalista os diálogos são intensos, sem superficialidades, e desconcertantes.
Durante esses diálogos, que antecedem ou sucedem o acto sexual, as próprias personagens ficcionam-se através de role-playing. O fingimento é a base de toda a ficção.
A estrutura do romance é um bom exemplo da plasticidade deste género literário. A fragmentação, a ausência de descrições e a caracterização emocional das personagens entregue (maioritariamente) à acção obrigam o leitor a abandonar a sua passividade. Roth exige que o leitor participe activamente na construção do sentido.
Os capítulos aproximam-se, em alguns casos, da encenação teatral. A própria construção do romance (caderno de notas, por exemplo) é o romance na sua vertente mais visível e interpretável.
Nos últimos capítulos, que iluminam tudo o que foi escrito/interpretado anteriormente, o leitor percebe que também ele próprio foi envolvido numa teia de enganos.
Essa comédia de enganos não acaba na já referida questão biográfica. Roth vai mais longe. Várias personagens criadas em livros anteriores habitam «Engano». Elas aparecem, ainda que fugazmente, para diluir ainda mais a fronteira entre facto e imaginação.
Além disso, o role-playing ganha outra dimensão.
Através do seu simulacro, Roth ensaia um debate entre ele e um júri. A matéria de análise é as facetas mais polémicas da sua obra: a questão judaica e o sexo. O júri existente tanto pode ser a representação dos leitores, dos críticos ou mesmo das mulheres.
À adjectivação de misoginia, por parte de feministas, o autor responde assim:
«O senhor faz parte da massa de homens que vêm infligindo às mulheres grande sofrimento e extrema humilhação... humilhação de que só agora começam a ser libertadas, graças à ação incansável de tribunais como este. Porque é que publicou livros que infligem sofrimento às mulheres? Não pensou que esses livros podiam ser usados contra nós pelos nossos inimigos?
- A única coisa que posso dizer é que essa vossa suposta democracia de igualdade de direitos tem propósitos e objetivos que não são os meus como escritor.» (pág. 109)
A literatura não se rege pelos princípios morais da sociedade.
Novamente, Roth pega na realidade, molda-a como matéria-prima, e cria uma realidade paralela, ficcionada.
Em «Engano», Roth junta aos temas chave da sua obra (a questão judaica, o sexo, a traição) elementos tão importantes como são a confrontação do romance com os seus próprios limites e a dialéctica do escritor com a ficção e realidade.
Mais do que um livro sobre a traição e adultério, «Engano» é um livro sobre o fingimento e a pérfida relação entre realidade e ficção.
«Engano», publicado em 1990 nos EUA, é uma soberba construção literária.

Sem comentários:

Recent

Random