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quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Entrevista com Valter Hugo Mãe (Diário Digital)





Um dos autores mais emblemáticos da nova geração, Valter Hugo Mãe está de regresso com «A Desumanização», editado pela Porto Editora, uma obra onde a sensibilidade encontra-se ao virar de cada página. Para o escritor nortenho, «no lugar de Deus deve-se colocar a Arte».
Valter Hugo Mãe é um escritor diferente. E isso nota-se na sua escrita, onde as frases ganham um relevo poético. O autor garante que os os livros não o correspondem, mas é impossível não «vermos» VHM nas páginas das suas obras. Como afirma nesta entrevista, Valter Hugo Mãe pretende apenas «proporcionar a felicidade possível aos que amo». Os leitores agradecem tanto amor…

O que é desumanizar?
No contexto do meu novo romance, trata-se de perder sensibilidade, robustecer, não permitir a vulnerabilidade para persistir sendo gente. Para não perecer.

No seu novo livro, mudou de contexto, viajou para a Islândia, mas levou os seus demónios. O que seria diferente se o tivesse escrito em Portugal?

Devo ter levado parte dos meus demónios mas a Islândia é um reduto de fantasias. Um espaço de tradições esdrúxulas, histórias macabras e encantadoras que nunca abdicaram, sobretudo, da permissividade e da intensa imaginação. Vejo a Islândia como uma terra na qual os sonhos e os pesadelos, a euforia e o medo convivem numa inusitada mistura. Sem a Islândia creio que poderia falar dos temas mas nunca chegaria à mesma plasticidade. A Islândia confere um imaginário distinto, como se a estética fosse necessariamente afinada a partir do seu ambiente.

A razão da minha pergunta deve-se à inquietação que o leitor sente ao ver que o autor se expõe imenso no texto; o Valter põe o coração no texto. É possível falar dos seus livros sem estar a falar do mais intrínseco que há em si?

Não estou certo de que isso seja assim. Acho que os meus livros são intensos e sempre aproximam o leitor do que vai escrito. Sugerem uma intimidade. Mas, ainda que incluam parte das minhas mais sinceras preocupações ou desejos, os livros não me correspondem. Eles não contam exactamente a minha ida.
Freud denomina “forças impulsionadoras da arte” aos conflitos do escritor. Quais são os seus conflitos?
Sobretudo uma violenta relação entre a razão e a inteligência emocional. Também uma dificuldade constante em encontrar motivos para a vida e, ao mesmo tempo, precisar de encontrar pontos de esperança e, mais do que tudo, manter quem me ama motivado e feliz. Quero muito proporcionar a felicidade possível aos que amo.

Apesar de toda a sua [autor] exposição, há uma forte carga simbólica no texto (espelho, flores, morte, deus, boca, sangue, fogo) de “A Desumanização”. É uma forma de se proteger?

Creio que é um modo de fazer ver. O texto deste livro é muito feito da carga visual dos fiordes. As imagens são nítidas, ou pretendem sê-lo. Foi-me muito importante investir tudo na força das expressões, porque o estar ali não é nada menos do que avassalador. Um relato qualquer não faz ver a Islândia. Apenas os símbolos e a propensão para um certo absolutismo ou tremendismo.
Crisóstomo e pais de Sigridur. Para eles há a ausência, diferente conforme o caso, de um filho. Há um tipo de amor que tem urgência em se dar, mas não a quem. O Valter escreve sobre o tema para superar essa ausência [filial, paternal, amorosa] que sente?
Não escrevo para superar essa ausência. Escrevo para a entender. Entender a ausência e entender a potencial presença.

A morte é uma presença constante nos seus livros. Não é - para diversas personagens em diferentes livros seus - necessariamente o fim. O que o motiva a falar da morte? Medo? Curiosidade?

Não existem assuntos para além dos da morte e dos da vida. Tudo se divide entre uma coisa e outra. Não há nada mais escondido do que a morte e mais complexo do que a vida. Os livros fazem-se desses temas. É inevitável que me proponha pensar sobre eles. O sentido de todas as coisas, inclusive da literatura, só pode estar na utopia de cumprirmos em esplendor a vida e redimirmos tanto quanto possível a morte.

Qual a relação entre Halla e Valter Hugo Mãe? E entre Sigridur e Casimiro, seu irmão?

Há um paralelo ténue. Tive de crescer respeitando, e de certo modo amando, um irmão que nunca vi. Crescemos com a percepção da ausência, do lugar vazio de alguém. Fiz muitas conjecturas acerca da semelhança ou diferença que haveria de existir entre mim e esse irmão. As semelhanças e diferenças entre a minha vida e a morte dele. A Sigridur e a Halla acabam por ter uma questão assim estabelecida. Que é insanável. Não tem resposta. Nunca tem.

A perspectiva da irmã, pai e mãe sobre a morte de Sigridur é o Valter a colocar-se no papel de irmão e dos pais [em relação ao seu irmão]?

Não. Isso não. Não me coloco no lugar das personagens. Sei sempre que um romance é um percurso pela ficção. No máximo, as personagens coincidem comigo em algum sentimento, mas nunca me iludo ao ponto de achar que me retrato. Na verdade, nunca me retrato, apenas me sirvo do património de estar vivo e sentir para melhor entender o que sentiria uma personagem se vivesse também.

Há ligação entre o Sr. Silva de “A Máquina de Fazer Espanhóis” e o pai de Sigridur? Estamos perante a continuação da homenagem ao seu pai?

Não pensei nisso. Creio que não. O senhor Silva também não será o meu pai, apenas me permitiu reflectir acerca da terceira idade, algo que me propus fazer depois de perceber que não teria o meu pai como exemplo. O pai da Sigridur e da Halla prossegue algumas das minhas fixações relativas à validade dos textos, à capacidade que eles terão de mudar o mundo.

A mãe de Sigridur é o contraponto da ideia que tem da mulher? Parece-me ser uma mulher mais fraca, que cede perante a dor.

Nada. As mulheres são muito mais pragmáticas e resistentes do que os homens. Ao menos genericamente parece ser assim. Quis que a mãe das gémeas fosse como é no livro para criar uma força oposta entre as personagens femininas. A mãe encrudescendo e a Halla urgindo numa redenção. Como se fossem polos distintos, apartando-se, como se uma fizesse a morte e a outra tivesse de fazer a vida.

Na FLIP, 2011, afirma o seguinte: «Não sei se a Arte nos deve salvar, mas tenho a certeza de que pode conduzir ao melhor que há em nós para que não nos desperdicemos na vida». É um assunto presente em “A Desumanização”. A Arte é a melhor forma de comunicar connosco e com o divino? É dádiva em vez de prece?

É a única prece em que acredito. A arte é o melhor que podemos fazer, no sentido em que ela nos conduz ao extremo e mais genuíno de nós próprios. É a construção mais profunda de que somos capazes. Acredito nisso. Sim. No lugar de Deus colocar a Arte.

Em entrevista a Sílvia Souto Cunha (Visão; 22/01/2010), a propósito de “A Máquina de Fazer Espanhóis” afirma: «Há idosos que definham depois de se reformar, outros depois de tratarem de um filho ou neto, ou de perderem o companheiro… é como se a vida deles se justificasse através daquela relação». Halla encontra Einar, mas os pais de Halla vão desistindo de tudo ao perder Sigridur. Ainda é possível, nesta sociedade, morrer por amor? Ou viver para o amor em detrimento do sucesso?

Eu espero que sim. Sou um indivíduo eminentemente afectivo. Preciso de confiar que ainda somos capazes de colocar aqueles a quem amamos no centro das nossas ocupações e cuidados. Só interessa termos arte, e a arte ser divina, se o dividirmos com alguém. Os outros são o resultado de todo o esforço. No romance também se diz isso. Diz-se: “A beleza da lagoa é alguém”. Significa que a lagoa só é bela porque o podemos apreciar com alguém. Porque existe quem connosco possa discutir e partilhar o deslumbre.

Que evolução (temática, estilística…) encontra na sua obra, desde “O Nosso Reino” até “A Desumanização”?
Não serei o melhor juiz, mas tendo a ver uma depuração nas expressões que não sendo simples o parecem. Essa simplificação que melhora os sentidos, clarifica as ideias agrada-me muito e é resultado de muita escrita e reescrita. “A Desumanização”, por exemplo, tem um intenso trabalho de linguagem mas mantém alguma candura, como se as energias do texto fossem conseguindo um equilíbrio entre a aspereza do que se conta e a beleza como tudo quer ser contado. Quero muito a beleza dos textos. Muito.

A obrigatoriedade de publicar regularmente, própria de quem vive da escrita, não fatiga emocionalmente o escritor? Esgotará rapidamente a temática?

É ao contrário. Quero sempre escrever mais e mais. Escrevo coisas que guardo porque não faz sentido publicar mais. É fundamental deixar ao leitor o tempo suficiente para ler, sentir vontade de ler. O autor, por norma, respira pelos textos. Não pensa senão em textos. Quer textos. Viver da escrita, ao menos em Portugal, talvez seja possível apenas para quem tenha essa obstinação. Não sei. Na verdade, não há receitas. Tudo pode acontecer e todos os modos são legítimos. Eu escrevo muito. Passo os meus dias viciado em encontrar palavras que me ajudem a traduzir cada instante.

Mariorufino.textos@gmail.com



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