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quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

10 sugestões de leitura 2013



http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=673738

O fim de 2013 traz as inevitáveis listas de livros. Num ano de óptima colheita para a Literatura Portuguesa, tivemos o prazer de descobrir Valério Romão («Autismo» e «O-Da-Joana», ambos da Abysmo), Raquel Ribeiro («Este Samba no Escuro» da Tinta-da-China), Carlos Campaniço e de ver Carla Maia de Almeida arriscar e ganhar num campo literário um pouco diferente do habitual. Presenciámos o aparecimento da revista Granta portuguesa (Tinta-da-China), com novos valores literários entre consagrados. Valter Hugo Mãe voltou ao seu melhor, Afonso Cruz deu-nos um livro magnífico, e Gonçalo M. Tavares ainda consegue acrescentar qualidade à sua Obra ímpar. E houve mais…

«10 sugestões de leitura» é uma lista pessoal e transmissível.
Os critérios seguidos para a escolha desta lista são simples:
Escolhi 10 livros lidos (por mim) durante o ano de 2013. Depois, o critério optado foi o de só seleccionar livros sobre os quais escrevi. Como só escrevo sobre livros de que gosto, a tarefa ficou bem mais simplificada. O último filtro foi o de só escolher livros de ficção. E aqui foi bem mais difícil, pois obras como «Judeus Errantes» (Sistema Solar), de Joseph Roth, «Uma Coisa Supostamente Divertida que Nunca Mais Vou Fazer» (Quetzal), de David Foster Wallace e essa Obra Maior de Gonçalo M. Tavares intitulada «Atlas do Corpo e da Imaginação» (Caminho) tiveram de ser excluídas.

De entre os 10 escolhidos, há uma obra merecedora de todo o destaque: «Para Onde Vão os Guarda-Chuvas» (Alfaguara), de Afonso Cruz. É o Livro do Ano.
A responsabilidade da ausência, nesta lista, de autores como Thomas Mann, Soljenitsin e Hamsun deve-se a Afonso Cruz. A culpa é dele. A história de Fazal Elahi, Salim, Isa e Badini espalhou uma grande sombra sobre todas as outras histórias lidas. Inconscientemente, procurei estas personagens em «Contos» (Bertrand), do escritor alemão, em «A Casa de Matriona» (Porto Editora), do escritor russo, e em «Mistérios» (Cavalo de Ferro), do escritor norueguês. Não habitavam esses livros, claro. Tivessem estas obras sido lidas antes de «Para Onde Vão os Guarda-Chuvas», e talvez tivessem sido escolhidas.
Aqui ficam as sugestões.
Boas leituras!


«40 Histórias» (ANTÍGONA), de Donald Barthelme
Donald Barthelme (n.1931, Filadélfia), em «40 Histórias», explora o indefinível da literatura. O autor norte-americano, fundador do «Creative Writing Program» na Universidade de Houston, é considerado um dos escritores mais importantes do pós-modernismo. E ao iniciar-se a leitura de «40 Histórias» rapidamente se percebe a razão. A ousadia do autor na manipulação dos constituintes da narrativa breve, desde a estrutura ao recurso estilístico, é rara e consegue atingir a excelência. Barthelme parece fruir da decomposição do primado da estrutura. O autor contraria a viciada expectativa do leitor. Nos seus textos, ele surpreende-o com o imprevisível.

«A Desumanização» (PORTO EDITORA), de Valter Hugo Mãe
Valter Hugo Mãe (n. 1971; Saurimo, Angola) tem a coragem de se desnudar perante o leitor. As palavras são o espelho das suas emoções, das suas fundações psíquicas. O escritor põe o coração no texto. Em «A Desumanização, Halla, “a menos morta”, é uma menina islandesa cuja irmã gémea (Sigridur) faleceu muito nova. É pela sua voz que o leitor vai acompanhando a acção passada nos fiordes islandeses. Será ela a narrar, durante os dois a três anos após a morte da sua irmã, a decadência da família, as transformações do seu corpo, a ruptura com a infância, a luta pela individualidade, o desaparecimento da ingenuidade, e a dor, principalmente a dor causada pela perda. (…) Este livro mostra o autor no seu melhor. O leitor está perante uma das ficções mais intensas da obra ficcional de Valter Hugo Mãe.



«A Casa com Alpendre de Vidro Cego» (ARKHEION), de Herbjorg Wassmo
«Ela não sabia ao certo quando se apercebera daquilo: do perigo.» (pág. 5) E assim começam as aventuras e desventuras de Tora. A Trilogia de Tora inicia-se com «A Casa com Alpendre de Vidro Cego», da escritora norueguesa Herbjorg Wassmo (1942; Vesteralen, Noruega). A trilogia é continuada com «O Quarto Silencioso» (1983) e finalizada com «Céu Doloroso» (1986). Apesar de ser a primeira parte desta trilogia, «A Casa com Alpendre de Vidro Cego», traduzido por João Reis, tem qualidade suficiente para subsistir como criação literária independente dos consequentes livros. Herbjorg Wassmo consegue seduzir o leitor a conhecer o destino de Tora, uma complexa e bem construída personagem literária.

«A Luz é mais Antiga que o Amor» (ASSÍRIO & ALVIM), de Ricardo Menéndez Salmón
Ricardo Menéndez Salmón (n.1971, Gijon), autor de «A Ofensa», «Derrocada» e «O Revisor» (conhecida como a «Trilogia do Mal»), surpreende o leitor com uma obra que interroga as fronteiras dos géneros literários. «A luz é mais antiga que o amor» procura a simbiose entre o ensaio e a ficção. O autor dividiu o texto em duas situações ficcionadas e uma real. Em 1350, a Europa é dizimada pela Peste Negra. Beaufort, futuro Papa Gregório XI, obriga Adriano de Robertis a destruir a blasfema «Virgem Barbuda». Em 1970, Mark Rothko corta os pulsos. O seu suicídio é o culminar de dramáticos acontecimentos na sua vida pessoal. A sua obra, principalmente o domínio da ausência, a tentativa de capturar o vazio, através da inexistência de luz nas suas pinturas, é a revelação do interior do pintor. Em 2001, Vsévold Semiasin escreve uma carta explicando a sua loucura. O leitor está perante a ruptura com a normalidade. A homogeneização entre os textos é entregue à geografia (Sansepolcro), a uma obra de arte («Virgem Barbuda») e, principalmente, ao tema. O que mais importa salientar não é o binómio realidade/ficcionalidade. «A luz é mais antiga que o amor» é um texto especulativo, pois baseia-se na possibilidade. Umas situações são reais, outras são fictícias, mas todas são possíveis.



«Emigrantes» (CAVALO DE FERRO), de Ferreira de Castro
«Emigrantes» mantém, em 2013, a contemporaneidade e a pertinência temática, apesar da sua primeira publicação ter sido em 1928. (…)
A literatura não tem obrigação de lutar nem de salvar ninguém. A literatura não tem de estar vinculada a qualquer «– ismo». Não tem, mas pode. Ferreira de Castro (n. Oliveira de Azeméis; 1898-1974), escritor e jornalista, é considerado um dos precursores do neo-realismo. A sua produção literária é declaradamente combativa e«engagé». «Emigrantes» marca o início da edição de toda a obra ficcional de Ferreira de Castro, pela Editora Cavalo de Ferro. A ideologia subjacente à prosa de «Emigrantes» é motivo e assunto na construção do respectivo romance. O autor declara-os no Pórtico (prefácio): «O problema da emigração não é, porém, um problema-causa, mas consequência de outro mais vasto e mais profundo. Assim, sob a forma do primeiro, o nosso romance pretende dar a essência do segundo». Pág.10

«Homer & Langley» (PORTO EDITORA), de E. L. Doctorow
Homer e Langley, personagens do romance de E. L. Doctorow (n.1931, Bronx), são motivo de interesse desde há décadas devido às peculiaridades das suas existências (e desistências).
O autor norte-americano, vencedor do National Book Award com «World’s Fair», do PEN/Faulkner prize e do National Book Critics Circle Award com «Billy Bathgate» e «The March», ficcionou a extraordinária existência dos irmãos Collyer. A vida de Homer Lusk Collyer (n.1881) e a de Langley Wakeman Collyer (n.1885), irmãos criados numa família abastada, acompanharam importantes alterações sociais, económicas e políticas nos Estados Unidos da América na passagem do século XIX para o século XX. As suas vidas viriam a terminar de forma tão bizarra quanto foram vividas.


«Irmão Lobo» (PLANETA TANGERINA), de Carla Maia de Almeida 

A falência de uma família, sobrecarregada com dívidas e castigada pelo desemprego, é dramática. Quando a mesma família é composta por um filho adolescente, uma filha quase adolescente e uma menina ainda criança, além do pai e da mãe, então o dramatismo intensifica-se.
Carla Maia de Almeida (n. 1969, Matosinhos), no seu 6º livro, utiliza este cenário tão contemporâneo na construção de uma narrativa que incomoda e contraria o comodismo do leitor. Ao contrário do que se possa supor, «Irmão Lobo», editado pela Editora Planeta Tangerina, não é um livro infantil. «Irmão Lobo» é um livro sobre o amargo mundo dos adultos visto através da perspectiva fantasista e doce de uma criança. «Bolota», a filha mais nova, conta a lenta destruição da sua família, utilizando, para tal, dois tempos paralelos (passado próximo e passado mais distante) que virão, perto do fim do livro, a juntar-se. Os diferentes tempos são bem geridos pela autora, pois esta estratégia clarifica acções e intensifica os aspectos emocionais. Se tal não bastasse, a produção gráfica do livro denota o cuidado em ajudar o leitor na descodificação do enredo: páginas azuis para o passado mais recente; páginas brancas para o passado mais distante.



«Mais um Dia de Vida - Angola 1975» (TINTA-DA-CHINA), de Ryszard Kapuœciñski 
Ryszard Kapuœciñski (1932, Pinsk-2007, Varsóvia), escritor e jornalista polaco, testemunhou diversas revoluções e momentos decisivos da história contemporânea (queda dos impérios coloniais, por exemplo) de diversos países (Bolívia, Chile, Angola…). No entanto, a sua obra não se resume às reportagens de guerra; ele foi, também, um ficcionista. Kapuœciñski era um jornalista com imaginação de escritor. Foi com obras como «The Emperor: Downfall of an Autocrat», «Shah of Shahs», ou «Imperium» que se tornou célebre como jornalista e ficcionista. Uma das questões que uma obra como «mais um dia de vida - angola 1975» (Tinta-da-China) impõe é, precisamente, sobre a fronteira entre o facto e o fingimento.


«Os Demónios de Álvaro Cobra» (TEOREMA), de Carlos Campaniço

Carlos Campaniço (n. 1973, Moura) construiu um extraordinário universo literário, onde cintilam personagens memoráveis. «Os demónios de Álvaro Cobra», editado pela Teorema, é um livro que merece toda a atenção dos leitores e da crítica literária. Medinas, a fictícia aldeia alentejana onde habita a família Cobra, só tem uma porta de entrada e outra de saída. Nela se entra pela primeira página do livro, dela se sai pela última página. Não há mapa que a indique. Dentro dessa aldeia de pagãos, novos cristãos e judeus, o importante peso da igreja católica na moral é inferior à superstição, aos costumes e aos mitos ancestrais. Por lá passam um anarquista que ensina a escrever e a ler, uma prostituta, dona de um bordel, que deseja casar as suas «meninas» com os homens mais ricos, uma cadela que adivinha o tempo, um pássaro que canta, sem nunca errar, em sincronia com a hora exacta e grifos e mais grifos… Enquanto visita esse maravilhoso ambiente criado por Carlos Campaniço, o leitor vai conhecendo as estranhas peculiaridades de cada membro da família Cobra, principalmente de Álvaro.



«Para Onde Vão os Guarda-chuvas» (ALFAGUARA), de Afonso Cruz (LIVRO DO ANO)
Por vezes, somos deslumbrados por um livro que nos faz sentir pequenos. «Para onde vão os guarda-chuvas» (Alfaguara) é um dos mais belos livros que li nos últimos anos. Baseando-se num episódio passado com Gandhi, Afonso Cruz (1971; Figueira da Foz) recria uma história tão pura quanto isto: um muçulmano (Fazal Elahi) vê o seu filho (Salim) ser assassinado por soldados americanos. Ele não consegue suportar a dor pela perda do filho. Decide oferecer a sua fortuna (fábrica de tapetes) a quem o ajudar a acabar com esse sofrimento. A solução é apresentada por um hindu (Nachiketa Mudaliar): adoptar uma criança americana. Fazal Elahi parte à procura de pacificação. Ele precisa de se completar. São 620 páginas de procura da bondade pela bondade, do perdão pelo perdão, sem recompensa nem retribuição além do acto em si. Desta forma, a ligação entre tudo e todos poderá ser o mais pura possível.


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