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sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

O crítico literário é um vendedor?

“Apologia do Espanto”, rubrica iniciada hoje, tem como objectivo a defesa do assombro e da surpresa. A dúvida, seja consciente ou inconsciente, está na essência do alumbramento. É sintoma inconformismo. Perguntar é pôr em causa o adquirido. Sejamos interrogados. É condição essencial ao espanto.

O CRÍTICO LITERÁRIO É UM VENDEDOR?
Há características interessantes numa elite; uma é a de estar dependente da maioria, de que tanto escarnece.
A elite não existe sem a maioria de onde se destaca. A maioria, no entanto, mantém a sua existência, mesmo não havendo nenhum grupo destacável.
A adaptação da forma e do conteúdo de um texto crítico tem vindo a acontecer segundo alguns critérios exógenos à fruição estética do próprio texto. O crítico literário, adaptando-se à cultura mercantilista, abriu o corpus lexical à maioria dos leitores/consumidores de suplementos, jornais e revistas com espaços dedicados à literatura.
A elite adaptou-se à maioria, pela força da quantidade; foi forçada a negociar a forma, e sempre dependerá – numa relação mútua – da negociação do sentido.
A literatura é uma metáfora; é a luta do ser humano contra a impossibilidade da palavra em ser o objecto. Nessa impossibilidade reside a imperativa negociação entre quem escreve e quem lê.
Ao adoptar o critério “o maior número” não estará o crítico a submeter-se, como parte mais fraca, nessa negociação? – “Sem leitores, não publico; sem consumidores, não vendo; sem vender, não tenho trabalho”.
Assim, o crítico literário é um vendedor?
Torna-se um, quando cede a sua perspectiva literária a algo (ou alguém) além da construção Estética do seu texto.
O compromisso de quem escreve é com o texto. Se só está com o texto, então oscila. A obrigação de escrever crítica literária pode ter efeitos tão perversos como a obrigação de escrever, sistematicamente, obras literárias. Aplica-se o mesmo princípio: “se preciso de comer, preciso de escrever”.
A escrita não está dependente nem do conteúdo nem da forma, ou seja não está obrigatoriamente vinculada à edificação do sentido estético do texto; está, isso sim, ligada à criação de um produto vendável.
É certo que vender não é antónimo de qualidade, mas a obrigação de criar para vender pode ser prejudicial. A pressão – em última instância vem da maioria (consumidores/Leitores) - assenta nos ombros de quem escreve. Se influencia a qualidade do texto, ou não, cabe ao leitor decidir. E esta característica é essencial para quem adapta o texto ao leitor: - a avaliação do elemento pertencente à maioria.
24/12/2013, Seixal

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=677640


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