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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

CRÓNICA: Correntes d Escritas: A morte mil vezes repetida




Falamos de encontro entre escritores e leitores e esquecemo-nos, muitas vezes, de que os papeis não estão tão definidos assim. O escritor é leitor. Não é raro ver autores pedirem a outros autores para assinar livros. Percebe-se a ansiedade dos leitores em mostrar que são escritores quando falam com os já aceites pelo mercado e pelos seus pares. O escritor é um leitor. O leitor pode não ser um escritor. Ambos são recriadores.

No acto de leitura, o leitor aproxima-se do escritor através do livro. Na Póvoa, uma vez por ano, o livro não é a única forma de aproximação, mas continua a ser a mais radical. O livro é um meio de transporte para a alma de um homem e para a essência de uma época.
Estou a ser cobarde. Estou a fugir do que me preocupa.
Ontem, vi Eduardo Lourenço fragilizado. Almeida Faria passou por mim, mesmo agora. Não vejo Rentes de Carvalho. Normalmente, eu e Rentes de Carvalho chegamos quase ao mesmo tempo à sala para tomar o pequeno-almoço. Somos os primeiros. Não o vejo. Terá ido embora, certamente. 
Por mais vezes que repita a verdade última custa-me aceitá-la. O abismo de Eduardo Lourenço é o abismo de todos nós, mas individual por impossibilidade de partilha.
Quando estou nas Correntes, sou guiado pelos horários das mesas e das entrevistas. Esqueço-me dos dias da semana. Apesar de continuar amarrado às horas, suspendo a decadência do tempo. Os livros, elementos divinatórios e potencialmente eternos, enganam-me. Eles continuarão cá, numa ironia sempiterna perante a caducidade do corpo. Nós não.
O leitor terá noção da máquina do tempo que tem nas mãos? 
No interior da maior revolução tecnológica da História da Humanidade, a palavra escrita - forma imperfeita parida pela materna sonoridade - continua a ser a mais radical, poderosa e temível criação humana.
Repito mil vezes a verdade de todos nós, desejando a morte dessa verdade, a vida de uma mentira, a aniquilação da efemeridade do corpo.
É dia de festa, mas acordei cobarde, medroso, revoltado e ansioso. Gostava que o tempo fosse suspenso para algumas pessoas. Precisamos de Bergoglio, Steiner, Lourenço nas nossas vidas.
Teremos, enquanto quisermos, esse mecanismo complexo que nos permite desrespeitar o tempo: O livro.

Fotografia de Alfredo Cunha: https://www.facebook.com/photo.php?fbid=222362467969897&set=a.219476911591786.1073741828.217520445120766&type=1&theater

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