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quinta-feira, 27 de março de 2014

"A Tela da Dama - Ensaios de Literatura", de Teresa Cerdeira (Diário Digital)


http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=691361

Estará a crítica literária condenada, actualmente, ao livro e à revista especializada? Em época de banalização da crítica literária, Teresa Cerdeira (n.1949) presenteia o leitor com “A Tela da Dama - Ensaios de literatura” (Editorial Presença).


Num conjunto de ensaios sobre autores como Fernando Pessoa, Herberto Hélder, Saramago, Sophia Mello Breyner Andresen, Jorge de Sena, Torga, Mourão-Ferreira, Estêvão Coelho e Hélder Macedo, a autora e professora na Universidade Federal do Rio de Janeiro dá ao leitor mais avisado instrumentos de descodificação textual importantes para o aprofundamento da leitura.
A sua prosa é clara, subtraída de termos obscuros, sem cair em facilitismos e banalização.
Os dados biográficos dos autores existem em proporção para iluminar aspectos das obras, e a sinopse contextualiza, de forma objectiva
Os ensaios são elucidativos, objectivos e didácticos.
O leitor encontra descodificação do texto literário em detrimento do texto homogeneizado e superficial que substitui, hoje, a crítica literária. É um outro universo.
A capacidade analítica da autora é bem demonstrada - principalmente- em “Os abismos da arte na escrita de Hélder Macedo” ou em “Do labirinto textual ou da escrita como lugar de memória” (sobre Saramago).
As ligações de Macedo com o cinema, a música e a pintura são identificadas e fundamentadas. A dialéctica do autor português com Camões está muito presente tanto na prosa como na poesia.
Já em Saramago, a autora brasileira abordou o “primeiro grande ciclo narrativo” da obra do Nobel Português: - Desde “Levantado do chão” (1980) até “O Evangelho segundo Jesus Cristo” (1994). Neste período, identificou a presença -tal como em Hélder Macedo- da intertextualidade camoniana. Além disso, a mesma intertextualidade é constante com os Evangelhos.
A dialéctica entre Saramago e a tradição é parte essencial da obra do Nobel: “seja para a reverenciar ou a ler na contracorrente da canonização, o texto novo exerce sobre o passado a função regeneradora de o eleger para sair de si próprio e ganhar, deste modo, enquadramentos inesperados.”
Tanto Saramago como Macedo -e esta característica é extensível aos outros autores presentes no livro- têm uma relação de possibilidade com a Literatura. O campo da literatura é o da possibilidade; não é o do dogma.
Após a leitura destes dois ensaios, as obras de Macedo e Saramago poderão ser lidas com outra profundidade.
Teresa Cerdeira diagnostica e analisa as leituras e influências formadoras dos autores estudados no seu livro.
A pergunta é inevitável:
E que leituras ou autores formam a perspectiva de Teresa Cerdeira?
Em “A Tela da Dama” ecoam as vozes de Eco, Barthes, Scholes e Benjamin.
Os conceitos de “Obra Aberta” e de “Textualidade” são denunciados logo em “Brevíssima apresentação”, quando a ensaísta afirma que a sua obra é “produtora de significações que geram opções interpretativas sempre múltiplas e cambiantes.”
Reparemos: “opções”, “múltiplas” e “cambiantes”.
A vivência de cada leitor é transportada para o acto de leitura, originando opções múltiplas e cambiantes.
A Tela “serve de lugar de intersecção de saberes”. É um lugar de contaminações, onde a tradição literária e outras artes confluem num sentido renovado e plural.
A crítica literária tem uma relação de dependência com a literatura. Raramente se emancipa, mas pode- e este é o caso- intensificar a fruição do texto por parte do leitor, pois este entra nos livros dotado de outras “armas”, de forma a descodificar a significância com outro aproveitamento.
Este livro de ensaios, apesar do seu enorme valor intrínseco, é uma chave de leitura, uma porta para outros textos. Não se esgota em si mesmo e merece releitura.
“As leituras fundamentais nunca são anódinas e são elas que constituem a biblioteca pessoal de quem escreve e de quem lê”
Que o leitor se veja como o que é - inteligente -  e “tome para si” crítica literária com esta claridade e substância, numa apropriação mútua de quem no roubo entrega mais do que leva.

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