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segunda-feira, 24 de março de 2014

Entrevista a Adriana Calcanhoto (P3/Público)

O tempo pousou nas escarpas madeirenses

http://p3.publico.pt/cultura/livros/11349/o-tempo-pousou-nas-escarpas-madeirenses


Adriana Calcanhoto tem a candura na sua voz. O supérfluo não cabe na sua musicalidade. Ela é feita de poesia. E a poesia é o paraíso da palavra

No Festival Literário da Madeira (FLM), durante o showcase dado pela autora a bordo do Cruzeiro MSC Armonia, o tempo pousou nas escarpas madeirenses, e a água atlântica vibrou com os acordes do violão brasileiro. A primeira música, “Olhos de onda”, dá o nome ao concerto do próximo dia 21 no Centro de Congressos – Casino da Madeira, e, devido às circunstâncias da sua criação, inicia um novo ciclo musical. Tudo começa com uma mão magoada, como explica Adriana Calcanhotto: 

“Eu sou um pouco assim, de limões fazer limonadas. Precisei de operar e de fazer a tournée inteira do 'Micróbio do samba' com o Davi Moraes no meu posto de violonista. Nesse processo todo de terminar a tournée, operar e fazer a fisioterapia passou-se um ano e meio sem que eu tocasse violão. Depois, voltei a tocar devagar, tudo muito leve.Recebi um convite da Culturgest, no aniversário da sala, para fazer a mesma coisa que eu havia feito há 20 anos, que era um show a solo de voz e guitarra, como na primeira vez que eu me apresentei em Lisboa. Eu não tinha um concerto preparado, mas achei óptimo. Isso era uma meta. E nos exercícios já de guitarra eu compus essa música.”
Adriana Calcanhoto tem a candura na sua voz. O supérfluo não cabe na sua musicalidade. Ela é feita de poesia. E a poesia é o paraíso da palavra. Há muito de evangelizador ou de pregador num intérprete musical. Ele espalha a mensagem, mas Adriana não se limita a essa característica.

“A minha ideia é mais a transmissão da língua portuguesa do que de uma mensagem. Não persigo uma mensagem. Gosto de transmitir poetas e poemas. E isso existia na Grécia – a poesia era transmitida através de música- depois isso se deu no sec XII, a partir dos trovadores provençais, e deu-se no Brasil de uma forma única, que é a transmissão de uma poesia de alta qualidade através da música popular.”

A poesia é terra de toda a gente, não sendo detida por ninguém. É território literário, oral ou escrito.

A autora brasileira lançou em 2013, no Brasil, uma antologia de autores brasileiros destinada a um público mais jovem. Numa época dominada pela internet, Adriana Calcanhotto fala em “abrir uma porta para o amor aos livros. A escrita tem muitas coisas, principalmente na língua portuguesa, ( você vê muito através da poesia concreta) em que se ouve de uma maneira, mas lendo ela tem um sentido duplo ou triplo.”

Sobre “Antologia ilustrada da poesia brasileira: para crianças de qualquer idade” (Casa da Palavra), a sua preocupação foi com “a ordem cronológica para sentir as influências de geração em geração, de um poeta no outro, as rupturas e a volta”.

“Eu procurava esse livro. Talvez para dar de presente para as crianças ou aos filhos dos amigos, e eu como criança entrava nas livrarias e procurava uma antologia dos nossos poetas em poesias acessíveis às crianças, não necessariamente escritos para as crianças. Fernando Pessoa dizia 'todo o poema escrito para crianças não deveria ser escrito por adultos'.

Eu sentia falta disso. Nas poucas antologias que eu encontrei, a selecção era feita por assunto. Como a poesia não tem assunto, eu entendi que a ordem cronológica ajudava mais a qualquer pessoa que leia a antologia.

Em relação aos desenhos, os desenhos me relaxam do mundo dos sons, tanto da música como da palavra.”

A autora tem a esperança de que seja possível ensinar estética literária/musical.

“Se eu achar que não, nada do que eu faço tem motivo. Eu vivo para isso. Se uma única pessoa, se uma única criança, for atingida pela literatura através de mim, a minha missão está cumprida.”

Ao ouvi-la cantar em português do Brasil, num navio internacional atracado na Madeira, lembrei-me dos versos de Mário Quintana: “O poema é uma garrafa de náufrago jogada ao mar. Quem a encontra salva-se a si mesmo”. E a Adriana procura salvação na poesia que lê? “Diariamente”, respondeu.

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