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sábado, 29 de março de 2014

Entrevista com Valério Romão (Diário Digital)

Valério Romão, o lúcido


Valério Romão (n.1974, França) ilumina os lugares onde escondemos os nossos terrores. Ele dá-nos a oportunidade, através da sua criação literária, de observarmos os medos até então recalcados. A dor, não sendo um objectivo, é uma consequência da leitura.

Um dos aspectos mais interessantes da prosa de Valério Romão é o equilíbrio. Em momento algum, o autor cai num lirismo oco e inócuo. Com três livros publicados, “Facas” (Companhia das Ilhas), “Autismo” (Abysmo) e “O da Joana” (Abysmo), Valério Romão conquistou o respeito dos seus muitos leitores.

O Diário Digital teve a oportunidade de acompanhar o escritor durante a sua primeira participação nas “Correntes d`Escritas”, conforme os leitores do Diário Digital puderam constatar.

A entrevista ao autor impõe-se como imprescindível na descodificação do pensamento “valeriano”

DD- “Autismo” e “O da Joana” fazem parte de um conjunto intitulado “Paternidades Falhadas”. Onde é que elas falharam, se é que falharam?
VR- A noção de paternidades falhadas não tem tanto a ver com a falha no sentido de ser mau pai, ou má mãe, mas sim com uma incompletude na assunção de maternidade ou paternidade. No caso do “Autismo”, não se chega a ser pai ou mãe por completo. Então, a falha não está no lado da execução diária da paternidade, mas está no facto de, no caso do “Autismo”, a paternidade ser incompleta porque a criança não é igual às outras. A paternidade não se desenvolve da mesma forma, não é exactamente a mesma coisa do que a paternidade normal. No caso de “O da Joana”, a maternidade da Joana começa muito antes da gravidez- é uma ideia, um projecto, uma razão de vida- e não sobrevive ao choque com a realidade, que é a morte do filho e da ideia que orienta a vida dela. Neste caso, a falha da maternidade não é uma falha que se lhe possa ser imputada, mas é uma coisa que ao ser amputada também acaba por provocar uma derrocada na própria existência dela porque é uma ideia reguladora e fundamental da sua existência.

“Autismo” nasce de uma experiência pessoal. Serviste-te do teu blogue [http://trabalhodecasa.wordpress.com/], onde relatas a tua experiência, como base para “Autismo”?
Não. Servi-me da minha experiência, mas … ainda que de certo modo, na verdade, um escritor se sirva sempre da sua experiência pessoal, mesmo quando o livro é menos pessoal e a sua presença enquanto pessoa está mais diluída; ou seja, a escrita é o resultado de uma experiência no encontro com qualquer coisa. E é o resultado catalisado de várias experiências nessa experiência da escrita. O “Autismo”, claro, tem essa componente de autobiografia em que o que acontece é como se tu pegasses num calendário, onde tivesses uma agenda, umas datas, uns acontecimentos, e aquilo fosse uma estrutura objectiva com poucas anotações e depois construísses tudo o resto à volta do que era importante. A parte biográfica, sendo muito forte,  não é muito presente. São ideias de experiências que ia tendo que depois são catalisadas em estruturas radicalmente diferentes.

Apesar de haver conexões, uma situação é a tua experiência pessoal, outra situação é a ficção. São dois mundos diferentes?
Sim, sim… Claro que há pontos de ligação em “O da Joana”, em “Facas”, onde quer que eu escreva, porque a escrita tem um cunho da pessoa que o faz; é subjectivista e intensamente pessoal. Mesmo que isso se note mais ou menos, mesmo que seja uma escrita mais borgeana, mais para o lado do intelecto e do jogo mental, nota-se que há exposição.

Em “Autismo” há várias perspectivas narrativas, mas em “O da Joana” focaste essencialmente o papel dela. Como é que foi essa passagem de algo pessoal para o papel da mulher?
Quando eu comecei a escrever “O da Joana”, eu sabia que [o livro] ia ser uma mulher e que iria ser aquela experiência. A minha primeira preocupação era que não falhasse demasiado e que conseguisse entrar na personagem, ainda que “a roupa ficasse curta”, pois temos estruturas diferentes: eu sou homem, ela é mulher. Que não fosse grotesco. Nesse sentido, ia dando o texto a ler a mulheres amigas que me asseguravam que não estava a descambar.

De forma a ser credível…
Sim, sim, se era credível. Eu ia relatar uma experiência muito intensa de um universo que ainda hoje, nesta altura da contemporaneidade com a igualdade de géneros e direitos, é muito feminino e que os homens não percebem. O corpo masculino é o limite da possibilidade da sua experiência. Não tem aquele órgão.  Pode perceber de uma forma mediada, mas não pode perceber como a mulher percebe. Este era um jogo arriscado: entrar nesse corpo, fingir que se tem esse órgão e, no fundo, ser guiado por essa voz.
Por que te interessas tanto pelo “mecanismo da dor”?
A dor é uma consequência; não é a parte que me interessa mais. A parte que me interessa mais é a parte imediatamente anterior à dor. É a parte em que existe conflito, choque, sonho. É verdade que nos meus livros as coisas têm corrido mal às personagens. Isso provoca dor nas personagens e também no leitor, provavelmente, mas não é o leitmotiv. Eu vou à procura de outra coisa; vou à procura de uma experiência que possa ser reconduzida com honestidade, justiça e inteireza. Por ser como sou, como sou constituído, é mais empática uma experiência que tenha um registo trágico do que uma experiência que tenha um registo cómico, ou positivo. Acho que há histórias que merecem ser contadas, em primeiro lugar, e sobretudo que há sítios da casa que não estão iluminados. Se eu já passei por eles, se já os vi, não posso ignorar que os vi.

Pões as personagens numa experiência radical para ver como elas se comportam?
Gosto de pensar que posso ter uma espécie de quarto, onde  intensifico a pressão e depois vejo qual é o resultado. O que vem acima, normalmente, é o melhor ou pior de cada um de nós. Interessa-me escrever nessa amplitude, nessa frequência de onda, nos extremos. É que os extremos podem ser o prazer, a dor, a mortalidade, a fragilidade, o êxtase. Há um humor discreto dentro dos meus livros, ainda que isso não os tenha povoado ou respirado muito. Há um bocado de toda a vida dentro dos meus livros. Isso interessa-me.

Vai ser uma trilogia, certo?
Sim.

Deu-me a sensação nestes dois livros [“Autismo” e “O da Joana”] -talvez errada- de que há uma espécie de niilismo, de destruição. O 3º será uma parte de reconstrução? Será no mesmo registo?
Eu não concordo com a tua leitura... São experiências de vida, por mais duras que sejam. Eu não superei a realidade; a realidade supera-nos sempre. São experiências que merecem ser contadas. Nós estamos numa altura da nossa vida enquanto pessoas neste planeta e neste tempo presente em que os registos, normalmente, oscilam- com uma galeria de honrosas excepções- entre a “superficialidade banal”, que tem a ver com aquilo a que se chama momento de entretenimento, e a “violência gratuita”, que tem a ver com aquilo a que se chama também entretenimento, mas que é um horror que tem mais a ver com a paranóia do que com a neurose. Não te mostra para tu inventares os teus próprios medos. E os meus livros não são isso. Não são nem gratuitos nem feitos para provocar essa sensação. São reconduções de experiências que são absolutamente reais, no sentido de que podem ter acontecido, ou são passíveis de acontecer. As experiências traumáticas não podem ser anestesiadas, amputadas, contadas de outra forma, mas não me interessa o choque. Não é para isso que eu escrevo.

Foges do que é inócuo...
Sim, porque não está na minha natureza. Há coisas que não me interessam por natureza, por eu ser assim.
O que é o inferno? A Sala de Espera, tanto num como noutro romance, ou o diagnóstico, o conhecimento? 
Em “Autismo”, o inferno é a espera. Não só a espera antes do diagnóstico. O livro tem a parte do diagnóstico, que é feita de forma surrealista porque o médico é “sui generis”, mas acontece que o diagnóstico em “Autismo” não é apaziguador. E porquê? Porque subsiste a dúvida de o autismo ser aquele guarda-chuva sob o qual cabem imensas condições, variabilidades, pessoas que falam, pessoas que não falam, pessoas que precisam de assistência para o resto da vida, outras que se desenrascam bem e arranjam emprego… O que subsiste depois do diagnóstico continua a ser a dúvida porque não há uma máquina do tempo que permita a estes dois pais acelerarem, chegarem aos 20 anos [do filho], e perceberem se ele se vai desenrascar. O inferno é sempre a espera. Aliás, eles estão sempre na sala de espera. E é também por isso que a consulta é ridícula. Não acrescenta nada. Dá um nome à coisa, mas esse nome não tem uma qualidade positiva. Não é uma baliza, não é um conceito, apesar de ele fazer aquele traçado entre o Asperger e o autista. É ridículo, mas é mesmo assim. É ridículo.

Há medicina e charlatanismo de algumas medicinas alternativas, mas quase nada de religião em Rogério e na sua mulher, quando é uma via pela qual muita gente opta. A que se deve esta ausência? 
É porque neste caso estas personagens não têm esse apelo. Se tivessem tido, provavelmente haveria qualquer coisa no livro em que isso se notava. Mas, de facto, não têm. São muito contemporâneos, são muito irónicos, cínicos, não acreditam em nada.
Por falar em Charlatanismo e medicina, o capítulo com mais ironia é o do “Fabuloso Dr. Miguel Relvas”. O fabuloso falava com os pacientes, que estavam “enterrados” em pufes. Esta personagem simboliza a falência da medicina?
No fundo, penso que simboliza a incapacidade de a ciência, apesar de a reverenciarmos, resolver alguns problemas. Ainda não tem essa capacidade.  Poderá vir a ter. No caso do autismo, não tem essa capacidade de resolvê-lo. Por outra parte, o facto de estarmos formatados para acreditar que a ciência resolve tudo faz com que a ciência, ou a medicina, quando encontra qualquer coisa que não possa resolver tenha de se comportar como se pudesse resolver. Então, o que acontece é que essa figura é trágica e cómica, ao mesmo tempo, porque é portadora de um curso de não-sei-quantos anos… o internato, depois a especialidade… anda a estudar  vida toda para começar a estudar, depois estuda mais 10 anos, começa a praticar, e vai para um emprego numa área e, basicamente, não pode fazer grande coisa. Isso é trágico!

Não pode admitir que, na verdade, não está ali para fazer grande coisa porque o desenvolvimento da criança não depende, em última análise, de si, porque por mais livros que leia não sabe prever como é que aquela criança se vai desenvolver, etc. As ideias acerca do assunto mudam e são revistas constantemente, o diagnóstico em sim não é clínico, mas comportamental. Há um mundo de incertezas num curso que te prepara para a certeza. Isto é trágico. A personagem em si é trágica.
E o nome: Miguel Relvas [político do PSD]? Foi propositado?
Não foi propositado. [risos] A sério…

Faço-te a mesma pergunta que fiz a José Ovejero, pois parece-me pertinente: A escrita é psicanálise?
Serve-me sobretudo de válvula de escape numa bomba de pressão. Serve-me para apaziguar. Não tem o efeito de autoconhecimento. Se bem que os leitores e os críticos interessados podem… diagnosticar-me pelos meus textos. Não sei qual seria o resultado disso… É apenas mais um jogo que resulta do universo da literatura.

Um pormenor: Porquê “Urgê cias”?
Quando estava a imaginar o sítio, estava a imaginar a placa e na placa apareceu sem o “N” e acabei por escrever assim.

Em “Autismo”, a relação do pai com o filho é diferente da relação da mãe com o filho. Pensas que a relação maternal é mais vinculativa do que a paternal?
Na minha opinião, sim. Sobretudo se for um filho, e não uma filha.

Qual a diferença?
A diferença sexual.

Complexo de Édipo?
As famílias que eu encontro têm a noção de que as mães têm uma relação diferente com os filhos. Primeiro porque educam as filhas no sentido de prepará-las para a função de serem mulheres e não fazem isso com os filhos porque não estão dentro desse território como os homens estão e vice-versa. Há, obviamente, uma relação sexual, que não tem a ver com a sexualidade explícita, mas de sexualidade implícita, e, se calhar, aí sim, mais no território freudiano, entre as mães e os filhos e entre os pais e as filhas. Parece mais ou menos aceite e óbvio, se bem que não falado.

Há uma situação paralela com os sogros de Rogério, em “Autismo”. É uma relação também nada saudável. O marido despreza a mulher. Não acreditas no vínculo entre casal?
Claro que sim! Este casal é que correu muito mal! Aliás, sobre o casal desta história, a minha sensação como escritor que acaba um livro é: “se eles não tivessem tido este filho, se calhar ainda estavam juntos”. Essa é a minha sensação, mas no caso dos pais dela, aquela relação já tinha começado e acabado há muito tempo. O que se mantinha ali era uma coexistência nem sempre pacífica. Um modo de ser casal que não tem que ver com o amor, mas com o hábito; não tem a ver com o gosto, mas com o interesse. Simbolizam, no fundo, uma geração - duas gerações anteriores à nossa- em que as pessoas não se podiam separar porque eram mal vistas, em que as pessoas não podiam fazer uma série de coisas porque havia um peso muito grande de repressão a nível moral, a nível do que era o costume, ou habitual. É como se obrigasses duas pessoas a estar num quarto o resto da vida mesmo sem elas quererem. As coisas mais angustiantes acontecem.
Aqueles 3 - pais mais o filho - acabaram por ser 3 ilhas. Vão se separando…
Sim, porque uma relação familiar triangular com um filho constrói-se com setas bidireccionais entre três polos. Naquele caso, a relação dos pais era mediada pelo filho. Sempre. O filho era o polo à volta do qual tudo gravitava. Obviamente que isto vai fazendo com que a relação deixe de existir. Chega-se a um ponto a partir do qual o superior interesse do filho põe em causa o fundamento da relação do casal, dado exercer uma gravidade que esmaga ou nulifica tudo o resto. Deste modo, um diz "temos de fazer tudo pelo miúdo" e o outro não pode em causa alguma pôr em causa esse credo, sob pena de ser considerado egoísta. Não há saída. Basicamente, é uma questão de culpa moral. Estão ainda num processo em que não se querem dar ao luxo de perder qualquer coisa que possa mudar a vida daquela criança. Nesse sentido, a atenção tem de ser total e não pode haver espaço para mais nada. Qualquer distracção é encarada como culpa pelo próprio que se distrai e culpabilizado pelo outro que percebe a distracção. E claro que uma relação assim não sobrevive.
Rogério tenta socorrer-se através do pai. É a ele a quem recorre. Há alguma avaliação Bem/Mal, por ti, à derradeira postura de Rogério?
Não, não gosto de ver as coisas assim. Se virmos as coisas assim, limitamos a história. Teríamos que reavaliá-lo sob uma perspectiva moral. Acho que as pessoas chegam aos limites e podem fazer coisas de incontável maldade que não fariam noutro contexto. Sob pressão, as coisas podem ser muito violentas. Não quer dizer que as pessoas sejam assim. Há aqueles casos em que caem os aviões e as pessoas ficam duas semanas ou dois meses num sítio qualquer onde um morre e depois os outros começam a comê-lo.
O espaço em que o leitor é “fechado” é no da cabeça do/a personagem. Por que escolhes a acção interior em detrimento da acção diacrónica, a acção exterior?
Penso que com o tempo vou começar a fazer o inverso. É mais fácil explicar o que se está a passar do que montar o cenário para acontecer coisas a partir das quais tu percebas o que se está a passar. O cinema é um bom exemplo. Tu não tens uma câmara na cabeça das pessoas. Tens de construir coisas que explicam o que essas pessoas estão a sentir. A literatura é mais fácil, pois podes ir directamente à cabeça das pessoas. Não precisas de montar nada. Mas eu acho que o mecanismo do cinema é mais avançado porque podes continuar a dizer a mesma coisa, a mostrar a cabeça das pessoas, mas adensas o mistério e deixas mais oportunidades.
Como resolves o assunto na composição das tuas peças de teatro? Dás mais dados cenográficos?
Sou muito minimalista. Não percebo muito de cenografia, nem de direcção. Não me meto muito nessas competências, a não ser que tenha uma imagem muito clara na minha cabeça de qualquer coisa fundamental. Normalmente, não tenho esse tipo de visualização, nem tenho noção da idade, da cor do cabelo. Não me interessa muito.
A Peça de teatro “ A Mala” assenta também mais na psicologia do que no enredo?
“A Mala” é uma peça que não é só teatro; também tem dança. É uma bailarina com quem trabalhei que interpreta. Não é uma dança clássica. Enquanto ela fala vai fazendo vários gestos repetitivos e a própria cadência do texto tem a ver com a cadência do movimento dela. São coisas que se completam.

“A Mala” não é uma peça de teatro clássica. É uma espécie de monólogo em vários registos.
É uma série de discursos à volta do próprio conceito de fazer arte, de fazer arte em palco; é sobre a dificuldade, a frustração e o que é que se tem de fazer para que a arte aconteça.
“Facas” surge depois de “O da Joana”, mas foi escrito muito antes, não foi?
Antes, sim.
“Facas” é o escritor a “fazer a mão”?
Riço Direitinho chamou-lhe isso. Eu acho que vale um bocadinho mais do que isso. No fundo, são coisas que eu gosto de fazer. Gosto de unidades temáticas: “Facas”, “Paternidades Falhadas”, “Gatos”… Nesse sentido, “Facas” é: tenho uma motivação, tenho uma imagem e escrevo à volta disto. Gosto depois dos números: 10 histórias sobre facas; 3 histórias sobre…
Parece organizado; parece orgânico.
Um pai cria expectativas ao ter um filho. Achas que o amor incondicional, seja como pai, mãe, ou como indivíduo, simplesmente, é saber ultrapassar essas expectativas e aceitar uma outra pessoa como ela é sem tentar mudá-la?
Acho que isso não existe. A não ser em santos e em pessoas como uma capacidade talvez até não-humana de aceitação.
O amor incondicional de mãe para filho é para mim uma das poucas realidades nas quais eu continuo a acreditar que são realmente meritórias da maior devoção. É um milagre. É uma coisa tão bela, tão indescritível…

Fotografia de Alfredo Cunha

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