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segunda-feira, 28 de abril de 2014

Génio - os 100 autores mais criativos da história da literatura, de Harold Bloom (Diário Digital)


http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=697237


Harold Bloom apresenta os 100 autores mais criativos da história da Literatura


A Crítica Literária, sendo uma área com regras próprias, é dependente da existência da Literatura. O crítico literário existe por existir um escritor. No entanto, a força da crítica literária pode ser tanta que obrigue o corpus canónico da literatura a abrir para a receber. Poucos autores têm a capacidade de construir um texto cujas características providenciem a sua própria emancipação e existam como Literatura. Refiro-me a Steiner, a Eduardo Lourenço e a Harold Bloom. As respectivas abordagens críticas são, elas mesmas, literatura.

Harold Bloom (n. Nova Iorque, 1930) é um dos mais prestigiados críticos literários da actualidade. Obras como “O Cânone Ocidental” e a “A Angústia da Influência” depressa se transformaram em bibliografia de teses, objecto de estudo e fonte de polémica. Harold Bloom não se limita a diagnosticar e expor. O autor tem capacidade para ser influente e mudar o pensamento. Ele é um elemento da História da Literatura.
Em “Génio - os 100 autores mais criativos da história da literatura” (Temas & Debates/Círculo de Leitores), Harold Bloom continua a delinear o mapa do cânone idealizado, quase 10 anos antes, em “O Cânone Ocidental”. Apesar de afirmar que “claro que não são «os cem mais» no julgamento de ninguém, incluindo o meu. Queria escrever sobre estes”, as afirmações presentes no julgamento sobre diversos autores contrariam esta declaração inicial. Os 26 autores presentes em “Cânone Ocidental” passam a 100 em “Génio”. Mantém-se a mesma metodologia de trabalho. O estudo concentra-se na procura e isolamento das características que tornam os autores em canónicos.
A entrada no corpus canónico acontece através de forças como a Estética, o domínio da linguagem figurativa, originalidade, poder cognitivo e saber.
A obra nova é julgada em comparação com os padrões do passado. Há uma ordem preestabelecida e institucionalizada.
A organização do livro demonstra a intertextualidade presente nas análises do crítico norte-americano. Bloom organizou o livro “em forma de mosaico, por acreditar que é fonte de contrastes significativos e inspiradores.”
Na concepção de “Génio”, o crítico norte-americano afirma que “a imagem das Sefirot cabalísticas permaneceu na minha mente. Os meus dez conjuntos levam os nomes mais comuns para as Sefirot (...) Como os cabalistas defendiam que Deus criou o mundo a partir de si mesmo, sendo ele o Ayin (nada), as Sefirot traçam o caminho do processo da criação”. As Sefirot são fases da criatividade. A análise dos 100 autores assenta nesta estrutura e tem, como paradigma, a Cabala e o gnosticismo, pois de acordo com o autor, após ter passado uma vida em meditação sobre o gnosticismo, o gnosticismo é a religião da literatura.
“Génio” está dividido em dez capítulos, cada um com dois Lustros compostos por cinco autores cada um. A composição dos capítulos e Lustros demonstram várias qualidades dentro de uma hierarquia.
O objectivo de “Génio”, é simples: “despertar o génio da apreciação nos meus leitores, se puder”.
Para despertar esse génio de apreciação, foram escolhidos somente escritores já falecidos. Entre autores como Cervantes, Montaigne, Dante, Virgílio, São Paulo, Maomé, Shakespeare (o autor mais amado por Bloom) existem Luís Vaz de Camões (VII Nezah-Lustro 13), Fernando Pessoa (VIII Hod- Lustro 15) e José Maria Eça de Queirós (IX Yesod - Lustro 17). Note-se a necessidade de justificação por parte de Bloom sobre a ausência de Saramago: o autor português estava vivo (o livro foi escrito em 2002). Sintomático da qualidade e importância da Literatura Portuguesa, quando se pensa na densidade demográfica em Portugal.
Apesar de divididos em capítulos, o autor de “Génio” faz questão de sublinhar as muitas e prolíficas dependências entre vários autores.
A interacção entre escritores implica um processo de interpretação gerador de valor estético. Essa “arte de pedir emprestado” existe e obriga a que, na apreensão do significado, se avalie um autor em contraste e comparação com outros.
Esse processo de influência pode deslizar para a já mencionada angústia. É curioso perceber que o próprio Bloom sente o peso dessa influência:
“O meu herói particular entre estes cem é o doutor Samuel Johnson, o deus da crítica literária, mas não tenho coragem de enfrentar o seu julgamento.”
A grande escrita, segundo Bloom, é sempre reescrita que abre as obras antigas aos sofrimentos recentes. A ansiedade da influência elimina os mais fracos, mas motiva aqueles que se inscrevem no cânone.
A obra canónica sobrevive independentemente da época em que foi escrita. Se há necessidade de contextualizar a obra de um autor para confirmar qualidade, então essa obra está ultrapassada. Daí, a avaliação do historicismo ser, por Bloom, negativa. De acordo com o seu pensamento, o historicismo deve existir na sua forma mais minimalista, pois é quase irrelevante.
Harold Bloom é um autor indispensável na crítica literária. Será lido, arrisco a pensar, durante muitos e muitos anos. Talvez tantos como o seu mestre Samuel Johnson.
“Génio - os 100 autores mais criativos da história da literatura” é um livro indispensável para os estudiosos do milagre da linguagem: a Literatura.

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