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sábado, 7 de junho de 2014

Espalhar a palavra



Estudava literatura e não havia internet, Tablet ou mesmo telemóvel.
Era inevitável ir a uma biblioteca, ou a uma sala de aula, ou visualizar os programas da Universidade Aberta, na RTP 2 ou em VHS.
Recortava os artigos do Jornal de Letras, do Mil Folhas, guardava as revistas Ler, as Colóquio-Letras, tirava fotocópias de livros emprestados por amigos.
O acesso à literatura fazia-se de fora de casa, pois poucos livros havia nas prateleiras do meu quarto.
Eu tinha de me deslocar. Procurar implicava ir ao encontro de.
A capacidade de leitura era formada por quem se havia constituído especialista em literatura. E quando digo formada, penso em exponenciada e, simultaneamente, limitada. Uma não elimina a outra.
A informação era estrangulada em tão estreita comunidade.
Hoje, continuo a estudar literatura. Há internet e, em consequência, blogues, "sites" para "download", acesso imediato a informação. Não preciso de ir à biblioteca da faculdade, ou do concelho. A senha “download” abre a biblioteca de Alexandria. Não recorto; faço copy-paste. Não vou a uma sala-de-aula; vou ao youtube.

A mudança no acesso à informação deslocou a importância do crítico especializado para a comunidade virtual, composta por leitores formados em leituras viciadas em actualidade.
A diferença é enorme. Com a mudança de entidades negociadoras, o significado- produto de negociação entre duas entidades- altera-se.
Quem não concorda com este deslocamento, seja o despojado de importância ou o conhecedor (podem coincidir), diagnostica a cegueira do leitor. Mas quando uma pessoa não conhece o caminho, por não conseguir vislumbrar mais do que à frente se lhe apresenta, a responsabilidade também é – e muita – de quem sabe e não ensina.
O conhecedor faz do conhecimento a base da sua soberba. Não entende a mudança de paradigma. A responsabilidade continua: O conhecedor ensina quem não conhece; não escarnece nem se eleva, pois tem a capacidade de perceber que o seu conhecimento depende da área em que é exercido. Fora dele, é um inculto a precisar de quem o ensine.
Há mais fontes, há maior pluralidade e há mais ruído.

No interior de mais possibilidades, há o referido e sublinhado conhecedor. É tempo de ele assumir que tem de ir espalhar a palavra, procurar quem precisa dele, abdicando do que já dele abdicou: o estatuto.

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