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quinta-feira, 12 de junho de 2014

Mal Nascer (Casa das Letras), de Carlos Campaniço

E assim nasce um excelente escritor.

“Mal Nascer” (Casa das Letras) confirma a capacidade de Carlos Campaniço (Safara; 1973) em criar personagens marcantes e ambientes envolventes. A possibilidade de “Os Demónios de Álvaro Cobra” ser um sucesso irrepetível é negada por “Mal Nascer”. Não há realismo mágico, nesta obra, mas existe o mesmo labor na escrita, igual complexidade psicológica das personagens, um ambiente sugestivo e um enredo capaz de seduzir o leitor.

Em tempos de contenda entre liberais e absolutistas, o Doutor Santiago Barcelos regressa à aldeia onde passou a sua dura infância. Vindo de Lisboa, o médico foge de ameaças de morte e da obsessão de uma mulher. Na aldeia, onde lhe semearam ódios, não há espaço para nada além da sobrevivência. O pouco de dignidade existente é património dos mais abastados, personificados por Albano Chagas, e da igreja. Os outros sofrem devido à fome e obedecem aos que ostentam riqueza.
Com início no regresso do médico Santiago Barcelos, que substituiu o apelido paterno de Bento por o apelido do padrinho Barcelos, Carlos Campaniço constrói a narrativa em dois tempos intercalados (infância/juventude e idade adulta). O passado mais remoto é um afluente da acção principal. O autor alentejano conta a causa para exponenciar os efeitos dramáticos da consequência. A razão de Bento em se manter escondido noutro nome reside em acontecimentos dramáticos acontecidos na sua infância. O todo-poderoso Albano Chagas impõe que  Santiago e os seus amigos assumam uma culpa inexistente devido a um acidente que vitimou o seu primogénito.
O leitor assiste tanto à evolução do problema (passado) como da resolução (presente).
Apesar de já terem passado muitos anos após a sua partida, Santiago reconhece o ambiente inabitável da sua infância, onde a inocência morreu perante a violência doméstica. A sua ingenuidade infantil deu lugar às dores dos dias de trabalho, e o riso das brincadeiras foi trocado pelos seus lamentos de criança num hostil mundo de adultos embrutecidos.
“Não posso impedi-lo, nem sei se a minha mãe sobreviverá a mais esta bestialidade. A última vez que lhe supliquei para que não lhe batesse arriou-me como nunca, com mais força ainda com que lhe batia a ela. Levo as lágrimas postas num rosto de infortúnio e parece não ser curiosidade para ninguém, porque não há um único que me pergunte sobre o sucedido” Pág. 61
Ele foi obrigado a crescer demasiado depressa. O ódio foi aumentando dentro do seu peito. Mas, ao contrário de Álvaro Cobra, personagem do anterior romance de Carlos Campaniço, o protagonista suplanta a pobreza e a miséria moral. Ao tornar-se médico, é aceite pela mesma classe social que mantém a maioria da população na pobreza.
Os habitantes não reconhecem no médico a criança pobre que ele fora. É tempo de ajustar contas com o passado. Mas apesar de tudo o que não fizeram por ele e pela sua mãe, Santiago cura as pessoas das respectivas doenças. E se não o fizeram é porque a dor de muitos deles não era menor. A culpa pesa como uma cruz nas costas de um povo condenado a viver com a perda e a solidão.



O enredo montado possibilita diversos desenvolvimentos da acção e aprofundamentos na caracterização psicológica das personagens secundárias. No entanto, Carlos Campaniço opta por não desenvolver tanto quanto poderia. A narração numa primeira pessoa possibilita o conhecimento mais aprofundado da psique dos intervenientes principais, mas impõe limitações no progresso dos “subenredos”. Em consequência, a perspectiva do leitor é mantida no essencial à condição de logro e de dominado pelo ódio em que se encontra o Dr. Santiago Barcelos.
De certa forma, Santiago é cativo daquela aldeia: o ódio prende-o ao passado e o amor por Sebastiana, sua assistente no consultório, prende-o ao presente. Ele terá de escolher um caminho.

Carlos Campaniço continua a demonstrar a qualidade já presente em “Os Demónios de Álvaro Cobra”. A sua temática tem-se construído, até agora, assente em assuntos como a luta entre classes sociais, a pobreza como influência decisiva na formação do ser humano e sobre o poder do Clero na Moral e nos costumes.
A prosa de “Mal Nascer” e de “Os Demónios de Álvaro Cobra” tem o humanismo de Ferreira de Castro.
“Mal Nascer” , finalista do Prémio Leya, é mais uma importante obra no surgimento de um autor com muita qualidade na Literatura Portuguesa: Carlos Campaniço.

Mário Rufino


http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=708196

My rating: 4 of 5 stars
O meu texto sobre "Mal Nascer" para o Diário Digital:
“Mal Nascer” (Casa das Letras) confirma a capacidade de Carlos Campaniço (Safara; 1973) em criar personagens marcantes e ambientes envolventes. A possibilidade de “Os Demónios de Álvaro Cobra” ser um sucesso irrepetível é negada por “Mal Nascer”. Não há realismo mágico, nesta obra, mas existe o mesmo labor na escrita, igual complexidade psicológica das personagens, um ambiente sugestivo e um enredo capaz de seduzir o leitor.

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp...

Texto sobre apresentação do livro:

O Planeta Livro esteve presente, findava a tarde do dia 09 de Maio, na Livraria Ler Devagar para assistir à apresentação de “Mal Nascer” (Casa das Letras), o mais recente romance de Carlos Campaniço (n.Moura; 1973).
A apresentação ficou entregue a Maria do Rosário Pedreira (editora) e Afonso Cruz, escritor recentemente premiado com o prémio Sociedade Portuguesa de Autores, devido ao seu livro “Para onde Vão os Guarda-Chuvas”.
http://oplanetalivro.blogspot.pt/2014...







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