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segunda-feira, 30 de junho de 2014

"Vou Emigrar para o Meu País", de Nuno Costa Santos



“Marginal Ameno”, disse Drummond de Andrade referindo-se ao papel do cronista, não tem responsabilidade na instrução do público. O aborrecimento de seguir os factos é para os outros que não o “Marginal Ameno”.E assim o poeta brasileiro definiu o cronista.
Nuno Costa Santos (1974), o “Marginal Ameno” do Canal Q, reuniu em “Vou Emigrar para o Meu País” (Escritório Editora) algumas das suas crónicas.
O livro é dividido em 3 partes ( “Por aqui”, “O meu bairro”, “A minha pessoa”) compostas, no total, por 151 textos escritos para os jornais “A Capital”, “Diário de Notícias”, para a revista Atlântico e para as rubricas televisivas do Canal Q «Falar para dentro».
Nuno Costa Santos aborda desde o “amiguismo” na crítica sobre arte à decadência do uso do pijama; desde o Medo à mudança de casa ou aos interruptores nas casas de banho. A sua perspectiva não é a de quem avalia um “Eles”, um corpo colectivo exterior à sua personalidade. Antes pelo contrário. Ele avalia-se contextualizado num “Nós”, com quem se identifica. Desta forma, procura a necessária distância/exterioridade para diagnosticar também em si aquilo que vê nos outros. Nuno Costa Santos é “marginal” e “ameno”; é exterior ao tema, quando diagnostica, mas também intrínseco quando se analisa.
“Os portugueses? Estão a ver os portugueses? Tipo «nós»”
O autor observa o pormenor, tenta captar a essência presente nos costumes da nossa sociedade cada vez mais globalizada, cada vez menos característica; ele percorre as ruelas de Lisboa “caçando” singularidades nos bairrismos cada vez mais exóticos, diagnosticando virtudes e defeitos na psique de um povo tão pouco amado por si mesmo. “A crítica por aqui” e “Follow the leader” são bons exemplos dessa acidez crítica e destrutiva que temos para connosco.
Dotados de pertinência, humor e actualidade, os textos de “Vou Emigrar para o Meu País” captam, também, a coloquialidade das expressões e palavras utilizadas no quotidiano.
“A paneleirice é um vício português que nada tem a ver com a orientação em matéria de sexo. Pode atingir todo o heterossexual, homossexual e bissexual. É um sinónimo de mesquinhez. (...) soa melhor do que mariquice, merdice, picuinhice ou à demasiado gráfica pintelhice. Deve-se dizer que não se percebe porque é que José Gil preferiu, no seu ensaio best-seller, a palavra «inveja». Os portugueses são mais dados à paneleirice do que à inveja. Tinha de ser dito há muito tempo.” Pág. 44
 “Vou Emigrar para o meu País” (um dos títulos mais bem conseguidos de que me lembro) reflecte os vícios dos portugueses. A asseptização comportamental não tem lugar nas narrativas que formam o livro. Isso mesmo é demonstrado em “Impecavelmente iludidos”:
“Estranho quem nega a dor. Quem nega a dúvida. Quem nega a hesitação e o desconforto.”
Já em “Escritor manso não é escritor” é fundamentada a opção pelo cinismo como abordagem à realidade.


A literatura, segundo Nuno Costa Santos, consagra “o caos de existir”. A inexistência desse caos na escrita desrespeita a própria literatura.
A autenticidade na escrita implica a assunção de riscos por parte do escritor.
O país para o qual Nuno Costa Santos quer emigrar é um Portugal que desaparece todos os dias. A globalização, a ditadura dos mercados, a produtividade versus a dignidade exercem o seu poder predatório sobre as singularidades que, como o autor escreve, nos faz mais humanos e mais…portugueses.



Mariorufino.textos@gmail.com

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=712253

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