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domingo, 14 de setembro de 2014

"Alguma Esperança/Leite Materno", de Edward St Aubyn



Procurando a verdade.

É raro encontrar um escritor com esta qualidade.
Edward St Aubyn (n.Londres; 1960) transformou a sua miséria pessoal em “A Família Melrose”, um quinteto de romances que segue a perspectiva de/sobre Patrick Melrose.
O personagem principal é o alter-ego de Edward St Aubyn. Ambos foram vítimas de abusos sexuais perpetrados pelo pai; ambos foram toxicodependentes; e os dois almejam a saída de uma sociedade podre, oca, baseada na herança de estatuto e na falsidade presente nas relações sociais.
Edward St Aubyn encontrou a sua saída ao criar literatura a partir das suas dores: “Deixa Lá/Más Novas” (Sextante), “Alguma Esperança/Leite Materno” (Sextante) e “Por Fim” (a editar também pela Sextante) são a sua terapia.
A impossibilidade de alcançar a totalidade de perspectivas do ser humano é omnipresente na obra de que aqui se trata: “Alguma Esperança/Leite Materno”.
Durante uma vida, a composição da personalidade começa no nascimento, continua com a infância (com todos os seus traumas) até ao fim da existência. Patrick tem a noção desse caminho ser uma deriva, apesar de todo o esforço em se demarcar uma partida e uma chegada. (O desdobramento em vários papéis sociais e personagens permite pensar sobre as diferentes formas assumidas pelo dilentantismo.)
Durante o curto tempo cronológico de “Alguma Esperança”, St Aubyn demonstra como o vazio pessoal pode motivar a fuga através do álcool, cocaína e heroína.
Nesta sociedade hipócrita em que se movimenta Patrick Melrose, agora com 30 anos, a sexualidade é reduzida à banalidade através da promiscuidade e da leviandade com que (não) se fomenta as ligações sentimentais. O sexo é mais uma e poderosa demonstração de hedonismo. Esta podridão esconde-se atrás do estatuto inerente ao nome de família.
Já em “Leite Materno”, a narrativa começa com o nascimento de Robert (1º filho de Patrick e Mary Melrose). A perspectiva é a de Robert, já adulto, enquanto recorda a sua infância.
Essas suas recordações (memórias vividas ou mesmo inventadas) remetem a formação do ser humano, como ser gregário e indivíduo consciente, para o vínculo com a progenitora. É disso exemplo a confusão, pelo irmão Thomas (2º filho de Patrick), quando bebé, dos pronomes “tu” e “eu” (a troca é constante) e a belíssima frase sobre a ligação de Robert com a sua mãe:
“Orientou a cabeça do bebé em direcção ao seu mamilo e ele começou a mamar. Um fino veio do seu velho lar inundou-lhe a boca e eis que estavam de novo juntos. Conseguia perceber o bater do seu coração. A paz envolveu-os como um ventre renovado.”
A mãe, ainda na maternidade, reconforta-se ao dizer que se iriam adaptar e vencer as incertezas da maternidade/paternidade e o medo de que os traumas de infância os formem como maus pais. Patrick, pai de Robert, tem uma postura mais cínica.

“Vamos safar-nos – disse a sua mãe- Já não somos filhos, somos pais.
- Somos ambas as coisas – disse o seu pai – é esse o problema”
A possível manutenção de comportamentos, por assimilação ou herança genética, tornou-se uma obsessão para Patrick. A sua ligação aos pais é tudo menos pacífica. A mãe usa-o, desde sempre, para concretizar as suas vontades. O pai abusou dele.
A ligação entre filhos e pais tem eco nas constantes menções a “King Lear”, tragédia de Shakespeare, e a Mrs Jellyby, personagem de “Bleak House” (Dickens), que, tal qual Eleanor Melrose (mãe de Patrick), “dedicaria a sua vida em prol dos outros, desde que não fossem da sua família”.
Em suma, as principais personagens das duas novelas deste volume lidam com as fundações das respectivas personalidades. Os papeis de irmão/ã, filho/a, pai/mãe, marido/mulher são partes de um todo multifacetado, modernistas na incoerência, e sintomas de indivíduos perdidos, diletantes, à procura de um caminho.
A escolha de uma avaliação psicanalítica (tão freudiana) da família e dos seus constituintes, em “Alguma Esperança/Leite Materno” é fulcral, mas não deixa, mesmo assim, de ser interrogada pelo próprio autor.
“Quando é que um charuto era apenas um charuto?”
Há sempre o risco de algo ou alguém não ser mais do que se vê.
Seja através do drama ou da comédia, a análise do escritor britânico, que incide tanto na macroestrutura social como no aspecto individual dos elementos que a constituem, tem como objectivo desmontar a mentira e encontrar a verdade, por mais dolorosa que ela seja.
A capacidade demonstrada por St Aubyn na construção da narrativa é impressionante. A complexidade da estrutura dos romances impede a linearidade da história, mas manifesta o domínio de técnicas narrativas de uma forma pouco vista. Em “Alguma Esperança”, a plasticidade dada ao momento do jantar em Cheatley, antes da festa com a princesa Margarida, é demonstrativo.
Se em “Alguma Esperança” o tempo cronológico é sucinto, já em “Leite Materno” o tempo é mais extenso, apesar de dividido em várias partes e sempre no mês de Agosto.
O autor inglês alcança a excelência na composição dos diálogos, na utilização de diferentes técnicas narrativas, na inteligência e subtileza com que usa a ironia na crítica social e na análise psicológica das personagens.

“Alguma Esperança” e “Leite Materno” são muito mais do que uma primeira leitura pode apreender. As camadas a interpretar sucedem-se. Edward St Aubyn construiu um extraordinário labirinto emocional, onde Patrick Melrose luta para se encontrar.

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=726994

Alguma Esperança | Leite MaternoAlguma Esperança | Leite Materno by Edward St. Aubyn
My rating: 4 of 5 stars

O meu texto sobre estas duas obras de Edward St Aubyn.

http://oplanetalivro.blogspot.pt/2014...


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