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sábado, 18 de outubro de 2014

"As Leis da Fronteira", de Javier Cercas



Javier Cercas (n.1962; Cáceres), na apresentação de “As Leis da Fronteira” (Assírio e Alvim), em Lisboa, afirmou que, nas novelas, há uma pergunta e uma intenção de responder, ou de, pelo menos, de se aproximar de uma resposta.
Às interrogações provocadas pelo surgimento da delinquência juvenil, no período de transição para a democracia após anos de domínio franquista, o escritor espanhol responde com “As Leis da Fronteira”, um exercício de desmontagem do mito e idealização do marginal tipo “Robin Hood”. Essa idealização é representada, nesta obra, por Zarco, um adolescente cabecilha de um gangue que viria a recrutar, com a ajuda de Tere, um tímido rapaz de classe média a quem chamaram de Gafitas.
Em Girona, Ignacio Cañas, conhecido por Gafitas, vivia na margem oposta do rio que fazia fronteira com os miseráveis albergues. Aqui viviam Tere, rapariga por quem é apaixonado, e Zarco. Essa fronteira é mais do que uma divisão física; o rio simboliza a diferenciação dos conceitos de moral, justiça, de estatuto social e entre adolescência e idade adulta.
No breve período passado com o gangue (férias de Verão), Gafitas envolve-se em roubos e drogas até, um dia, tudo terminar de forma abrupta.
Trinta anos depois, um escritor decide aproveitar a ideia de Cañas: contar a verdadeira história de Zarco com o objectivo de acabar com as patranhas e a mitificação.
“Leis da Fronteira” é composto pelas várias entrevistas feitas pelo escritor. Durante essas conversas com Cañas, o inspector Cuenca e o director da prisão de Girona, é contada com grande mestria a história das relações entre as pessoas que circulavam em redor desse estranho e magnético indivíduo que, à sua maneira, “anunciava a quantidade de delinquentes juvenis que, nos anos oitenta encheram as prisões, as notícias dos jornais, da rádio, da televisão e dos ecrãs de cinema”.
A comunicação social é fundamental tanto na génese como no términus do “romantismo” na delinquência.
Nessa época – fins dos anos 70-a série “Liang Shan Po” (“A Fronteira Azul”), versão oriental de Robin Hood, viria a alimentar, entre os adolescentes, a mistificação dos gangues.
Quando Zarco aparece, Gafitas, então um adolescente impressionável e em disputa com o pai, já vem influenciado pela comunicação social. Essa influência na formação do mito viria a durar, com muitas oscilações, até desaparecer na totalidade.
Apesar da cobertura mediática e dos testemunhos de quem conheceu Zarco, há sempre algo impossível de ver na mentalidade delinquente e na mistificação social.
Javier Cercas tenta tornar visível esse “punto ciego” através da amplitude do texto literário quando em oposição com o não literário. O contraste entre o que é dito nas entrevistas permite esclarecer ou ampliar as possibilidades de interpretação de cada acontecimento.
É nessa encruzilhada de possibilidades que Ignacio Cañas procura perceber o seu passado e alcançar a sua própria redenção.

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=736032

As Leis da FronteiraAs Leis da Fronteira by Javier Cercas
My rating: 4 of 5 stars

O meu texto sobre "As Leis da Fronteira", de Javier Cercas, para o Diário Digital

http://oplanetalivro.blogspot.pt/2014...




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