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sábado, 18 de outubro de 2014

"Autobiografia", de Thomas Bernhard

A vida de Thomas Bernhard (n.Herleen;1931-1989) teve tudo para dar mau resultado. O autor austríaco fundamenta a sua produção ficcional na intensa e prolífica cadeia de acontecimentos da sua existência. A realidade une-se à ficção no surgimento de um novo plano: uma realidade ficcionada. “Autobiografia” (Sistema Solar), livro assim denominado após a sua morte, reúne cinco textos que abrangem cerca de 20 anos da vida do autor (infância e juventude): “A Causa” (1975), “A Cave” (1976), “A Respiração” (1978), “O Frio” (1981) e “Uma Criança” (1982).

Esta obra é a pedra angular entre ficções como “Perturbação” ou “O Náufrago” e a vida do autor. A perspectiva é sempre dominada pelo pessimismo, sarcasmo, niilismo e pela ideia de morte.
No autor, a formação do cinismo perante a vida e a falta de sentido em tudo o que o rodeia é intrínseca à sua proveniência, ao contexto social, educação e à sua própria saúde. É necessário entender a sua infância e juventude para aprofundar o conhecimento da sua obra.
A relação de Thomas Bernhard com os pais foi tudo menos pacífica. Filho ilegítimo de Herta Fabjan e de um carpinteiro, que o rejeitou, o autor conviveu com o avô materno, desde que se mudou para Salzburgo por volta dos 12 anos. Seria o seu avô, apesar da pobreza, a incentivá-lo e a providenciar-lhe aulas de música. É ele a referência de Thomas Bernhard, quando nada de positivo encontra na mãe.
“O novo ser humano é sempre lançado no mundo pela mãe como um animal e como um animal é para sempre tratado e arruinado por essa mãe, nós só lidamos com animais, não seres humanos, lançado no mundo por essas mães e que logo nos primeiros meses e depois nos primeiros anos são por essas suas mães, com toda a sua ignorância, destruídos e aniquilados (...) ”

O contexto social contribuiu, também, para a presença do cepticismo, rancor, desprezo e cinismo no seu carácter.
Salzburgo era, para si, uma doença mortal e, como tal, “uma inesgotável fonte de receitas para toda a espécie de médicos e agências funerárias”
A ideia de suicídio foi fortalecendo a sua presença. Tudo se complicou com a presença alemã, na II Guerra Mundial. Ainda criança, foi obrigado a presenciar e a vivenciar os horrores de uma guerra esmagadora da dignidade humana. O espírito de sobrevivência imperou sobre a conduta moral. Os bombardeamentos, a escassez de comida, as corridas da escola para os abrigos estão presentes na memória do adulto que, muitos anos depois, voltou aos bairros da sua infância. “Autobiografia” é, também, uma tentativa de resgatar ao esquecimento tudo o que já não existe: os prédios destruídos pela guerra, as pessoas mortas, a vida nas ruas dos bairros por onde andava. Thomas Bernhard foi um homem amaldiçoado pela sua vívida memória. No dia em que revisita o bairro, ele recorda quando, contra tudo o que era expectável, tomou o caminho oposto da escola.
Esse caminho viria a afastá-lo de um ensino “estatal-sádico-fascista”, no tempo do nazismo, e do mesmo tipo de ensino sob uma nova imagética católica no pós-guerra. Em consequência, ele aproximou-se de uma outra figura essencial na sua vida: O senhor Podlaha, dono da mercearia onde Thomas Bernhard viria a trabalhar.
“O Podlaha preencheu, como professor as lacunas que o meu avô tinha deixado em aberto”
Aos 16 anos,  troca o liceu pela cave do senhor Podlaha.
A experiência do contacto com os clientes tem grande importância na formação do seu carácter. A realidade da sua pobreza, em casa, encontra outras realidades de pessoas tão ou mais miseráveis. Ele aproveitou a oportunidade para aprimorar a capacidade de observação sobre as pessoas, e respectivas naturezas, enquanto as servia atrás do balcão da mercearia, no miserável bairro de Scherzhauserfeld .
O bairro Scherzhauserfeld, a que apelidava de “câmara do inferno”, e a pobreza material da sua casa contrastavam com a música e a Pfeifergasse. Este antagonismo “alimentava” a inquietude do jovem Bernhard.
Será nessa altura que a doença irá mudar a sua vida
O internamento dura quatro anos. Durante esse período passado entre hospitais e sanatórios, a decadência física e o desmoronamento moral do ser humano era para ele visível e constante. A morte apareceu-lhe como arbitrária e até individual.
“Cada um é diferente dos outros, cada um vive de maneira diferente, cada um morre de maneira diferente”.
Nesse período, o avô também adoece e acaba mesmo por falecer. Tudo parece fazer sentido.
“Uma vida sem ele foi para mim, durante muito tempo, inimaginável. Foi uma consequência lógica segui-lo mesmo para o hospital”.
Thomas Bernhard, apesar de todo o seu cepticismo, “escolhe” lutar pela vida, quando todos o davam como entregue à morte.
Será durante o longo período de internamento, ora devido a uma pleurisia purulenta ora devido à tuberculose, que Thomas Bernhard irá “abrir-se à literatura mundial”.
“Com a leitura venci eu os abismos que aí se abriam a todo o momento e pude salvar-me dos estados de espírito que só visavam a destruição.”

“Autobiografia” é um penoso exercício de memória de Thomas Bernhard na tentativa de resgatar ao esquecimento as bases formadoras da sua existência como autor e como homem. A sua obra é um espelho do que aconteceu na sua juventude. “Autobiografia” é obra literária com profunda qualidade autónoma e importante instrumento de descodificação de toda a obra do autor. A dialéctica entre ficção e realidade encontra em “Autobiografia” uma declarada miscigenação entre os dois planos. A análise do passado é influenciada pelas condicionantes emocionais e intelectuais existentes no presente. A visão do autor sobre a sua infância é, sobretudo, interpretação. E interpretar é, em certo grau, ficcionar.
Cabe ao leitor juntar o mosaico de imagens para perspectivar a possível unidade.
“Autobiografia” são fragmentos recordados por um homem que se define como um “desmancha-prazeres”.
“Toda a minha vida enquanto existência não é senão incómodo e irritação permanentes (...) Uns deixam as pessoas em paz e outros, eu pertenço a esses outros, incomodam e irritam. Eu não sou pessoa para deixar em paz e não quero ter um carácter desses.”
Thomas Bernhard é exímio na “arte” de irritar e de incomodar.


http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=731733

AutobiografiaAutobiografia by Thomas Bernhard
My rating: 5 of 5 stars

O meu texto sobre "Autobiografia", de Thomas Bernhard, para o Diário Digital.

http://oplanetalivro.blogspot.pt/2014...




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