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sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Entrevista com José Rui Martins, sobre "A Viagem do Elefante"



«O elefante Salomão não morre, tal qual acontece com Saramago. Não morre»

A manhã trouxe uma nova etapa. Na noite anterior, o elefante Salomão chegara ao fim da sua epopeia de 2014. José Rui Martins, responsável pela adaptação dramatúrgica (em colaboração com Pompeu José), falou com o Diário Digital num café perto de sua casa, onde recordei aquelas ruas cheias de gente, os cafés vazios antes do espectáculo, a festa durante a viagem do elefante e a melancolia final.
O ar saudoso dos elementos portugueses contrastava com a cantoria dos espanhóis, embalados pela voz de Luís Pastor. Uns entregavam-se à tristeza, outros afastavam-na com música. Todos partilham Saramago.
“A Viagem do Elefante” foi um sucesso tanto nas localidades como nas redes sociais, onde ultrapassou 1.200.000 visualizações (Facebook). A comunidade real e a comunidade virtual uniram-se para ver Salomão.
José Rui Martins chegou e, enquanto esperávamos pela vinda de Pilar del Rio para regressarmos a Lisboa, conversámos sobre “A Viagem do Elefante”.


Que desafios são postos pelo texto de José Saramago à adaptação dramatúrgica?

O fascínio do livro é exactamente a teatralidade dele. Ou seja, pareceu-nos imediatamente na leitura que estava tudo a mexer. É um “defeito de fabrico” das pessoas do teatro…não é só das pessoas do teatro. O leitor habitual, quando lê qualquer obra e no caso de “A Viagem do Elefante”, também povoa o seu pensamento e a sua forma de analisar com aqueles personagens todos.
Tudo estava fácil. O Saramago tinha escrito diálogos muito ritmados, muito vivos. Foi um trabalho simples nesses termos. Complicado é dar o salto na história, porque tem momentos minuciosos que, realmente, para contar no espectáculo o tornariam bastante pesado. Tivemos de fazer opções pelos momentos decisivos da história. Os momentos onde a narrativa exige um quadro emocional vincado são mais difíceis num espectáculo de rua do que fazer num espectáculo de sala. A atenção do espectador está mais dispersa. O foco teatral não é tão naturalmente conseguido como dentro de uma sala de espectáculo. Tem um horizontal visual com muitas coisas a acontecer.

Não se pode disciplinar tão bem o olhar do espectador…

Não se pode, não se pode…  O espectáculo de rua tem esse fascínio. No final, há espectadores que sobre a mesma cena não só não têm a mesma interpretação como viram coisas que outros não viram. Temos uma frente de 100 metros e em todos os sítios algo está a acontecer. Imaginemos que o foco teatral está quando o elefante morre; ao mesmo tempo está a rainha ou o rei, a 100 metros, a reagir. Só quando os projectores abrem é que o demarcam ou não sob o ponto de vista teatral, mas isto não impede que o espectador, vendo o personagem a 100 metros, não vire para lá o olhar e espere a interacção entre as duas coisas.  E nos momentos de humor, igualmente. São momentos de humor muito finos. Não é um humor desbragado. É a subtileza das palavras e das situações que Saramago sugeriu que faz rir

Como fazem quando chegam aos locais? Têm de adaptar tudo novamente?

Sim, temos de adaptar tudo à arquitectura local. Fazemos um estudo prévio com visitas de reconhecimento do espaço, altura em que tiramos as medidas, etc. Fazemos os encontros para despertar, junto das associações e das pessoas, o quanto seria importante para nós e para eles essa experiência. Há inscrições. Não fazemos qualquer tipo de “casting”. Temos uma limitação, em termos de figurinos, de só termos cerca de 70.

Como é que conseguem envolver a comunidade de forma tão emocional?

Julgo que é da mesma maneira que eles nos envolvem.
O Trigo Limpo Teatro ACERT desenvolve este cariz comunitário de teatro há muitos anos. Todos os anos tem uma grande celebração desta natureza comunitária que é “Queima e rebentamento do Judas”. É um dos espectáculos anuais.
O espectáculo é desenhado para não viver sem os participantes locais. E quando chamamos “participantes locais” evitamos o termo “figuração” porque quem viu espectáculo de ontem viu tudo menos figuração. Viu, sim, os personagens colectivos que foram protagonistas daquele espectáculo. Juntamente com o rei, com o cornaca, mas o fundamental é entre os personagens colectivos e o cornaca. Esses são os grandes personagens. Sem eles, o espectáculo não vive e não tem, junto do espectador, este carácter quase epopeico da viagem.
Cada grupo daqueles [locais] chega a fazer 5 personagens de seguida.

São pessoas que nunca fizeram teatro?

Alguns fazem teatro. Não é o nosso critério de selecção, nem de perto nem de longe.
Vi desde adolescentes até aos mais velhos…
Essa mistura é um fascínio. Que mais se pode ter para compor a população que se despede do elefante do que desde os adolescentes até aos de 90 anos? A autenticidade disto!
Os rostos traduzem esses múltiplos caracteres, formas de andar, formas de estar e de olhar. O grupo, que é o personagem colectivo, é também o resultado do olhar astuto da criança, do  olhar de experiência do velho. Não precisamos de compor esses personagens; eles são-no naturalmente.
Nós só lhes contamos a história e dizemos o que se pretende do ponto de vista de interpretar. O resto é uma interpretação muito pessoal. Lá está: a mudança de idade, a experiência, se é ou não um trabalhador rural…
Não é só pessoas que não fizeram teatro. Tivemos participantes que nunca tinham visto teatro. Isto é fantástico para nós.
Tivemos pessoas numa localidade que não podiam andar. Nós não sabíamos como havíamos de fazer. Um espectáculo como este implica que todos os personagens andem e com algum ritmo.
Então criámos um personagem colectivo só para eles. Tinham um banco, onde estavam com os leques e os lenços a reagir em simultâneo. Foi uma alegria imensa para eles! E para nós também!

É explicável a empatia que as pessoas sentem pelo elefante?

[conseguir] Isso foi muito complicado. Não o fizemos realista, sob o ponto de vista da concepção cenográfica, porque achamos que nunca deveríamos suplantar aquilo que estava no livro. Era insuplantável, quando alguma coisa estava em cima de um chassi de uma carrinha. Teria que ser a nossa representação com ele a dar esse sentido humano. Para mim e para os meus colegas, quando fazemos a primeira contracena com o Salomão, ele deixa de ser aquela coisa que anda sobre uma Ford Transit. Para nós é um colega do elenco.
Quando ele, por exemplo, salva a criança… Foi também o cornaca, mas para as pessoas foi aquele gigante, que é ternurento, tem sentimentos.
A partir de determinado momento, o que sai da boca do cornaca - aquele discurso tão humano, tão especial, tão emocionante- é ouvido por nós, em contracena, como se o elefante lhe tivesse dito um segredo. Aliás, ele está sempre a falar pelo seu elefante.
Aquela humanidade de ser um personagem fixo, sobre o seu elefante, singelo, de uma modéstia incrível, que diz as verdades todas... eu julgo que funcionou.
E todas as contradições humanas acontecem naquela viagem: o comandante português que é agressivo relativamente ao cornaca e à sua cultura, mas num outro momento abraça-o e tem saudades dele. É um sentimento tão português: Quando se perde as coisas dá-se valor. Até aí desprezou-se. É um exercício sobre a condição humana.
Entro nessa cena e tenho certeza absoluta de que há silêncio total de milhares de pessoas quando o elefante estende a sua tromba e passa na palma da mão do actor. Quando aquela tromba estica...é o braço mais bonito do aperto de mão. É quando o espectador diz: “ eu gostava de estar ali a despedir-me dele”.

O elefante acaba por ser mais do que credível; ele acaba por emocionar...

Ganha vida. Sabíamos que isso era um grande risco. Fizemo-lo com todo o carinho, mas não sabíamos [se resultava]. Isso só é conseguido através da coordenação dos actores para reagirem com ele.
É naquele animal que é depositado aquilo que na nossa vida fazemos. Ou seja, a nossa vida é composta por situações de encanto, de desencanto, de grandes erros que fazemos e que depois tentamos emendar. Este livro, “A Viagem do Elefante”, é riquíssimo nesse nível para além das múltiplas geografias.
Estudámos a poética do Saramago, que depois seleccionámos com o Luís Pastor. Há poemas do Saramago a corresponder a cada cena. Tínhamos situações em que tínhamos 3 poemas que correspondiam a uma cena em coisas tão diversas. Por quê? Porque Saramago escreveu sempre sobre a condição humana.
Naturalmente, está presente na sua obra poética, que não é a mais reconhecida, como sabemos. É transversal a toda a obra.

Sabemos o triste destino de Salomão, no fim do livro. O que vai acontecer a este Salomão no fim?

Não sei. É aquilo que Saramago diz, em “off”, no final: Todos temos que morrer, mas enquanto estivermos vivos vivamos a vida com grande intensidade. Julgo que é o que nós pensamos neste momento. Relativamente ao elefante Salomão, enquanto estiver connosco, que viva com máxima intensidade e que vá para a digressão de 2015.
Temos uma relação de tal afectividade a este engenho cénico que de certeza que terá o destino de outros que nós tivemos. O ciclista da Expo está numa rotunda de Tondela, a convite da Câmara. Em relação ao Salomão, não sei que destino terá, mas terá sempre um destino muito nobre.
Ele não é nosso; é de milhares de participantes e de espectadores. Ele já não é do Trigo Limpo.
Ele não morre, tal qual acontece com Saramago. Não morre.

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