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sexta-feira, 31 de outubro de 2014

"Montedor", de José Rentes de Carvalho



Em 2012, a propósito de «O Rebate», J. Rentes de Carvalho (n. Vila Nova de Gaia, 1930) falou com o Diário Digital sobre “Montedor”, o seu primeiro romance, agora reeditado pela Quetzal. Nas palavras do autor, este romance «foi escrito numa espécie de revolta contra a situação familiar e social portuguesa».

Rentes de Carvalho demonstra essa «revolta» através de um labirinto circular, construído com frases austeras, dotadas da eficácia encontrada, por exemplo, no Prémio Camões Dalton Trevisan. De igual modo, a cenografia é construída somente com as informações indispensáveis. Nada mais do que isso. “Montedor” contextualiza-se, pela imagética, tema e cenografia, no final da corrente neo-realista, cujos principais protagonistas foram José Gomes Ferreira, Carlos de Oliveira, Manuel da Fonseca, Fernando Namora ou Alves Redol.
A 1ª edição de “Montedor” é de 1968. O Portugal desse tempo era um país atrasado social e materialmente. O Antigo Regime impunha a inexistência de uma classe média. Era uma época em que os ricos eram os donos das soluções. Os pobres lutavam pelo pão e sonhavam com as possibilidades que o dinheiro oferece.  O exterior era mistificado; o sentimento de inferioridade e a fome  levavam os jovens a querer emigrar.
Este homem que nos narra a sua história é um  ser preso neste ambiente claustrofóbico e sem saída visível. Pertence a uma geração perdida em terras subdesenvolvidas, rurais, ofuscada pela riqueza alheia.
A concretização dos seus sonhos de vida melhor são  contrariados pelo fado guardado para os pobres. É um jovem sem saída:
“Que roube, faça mal, apanham-me e dão-me um castigo, um destino. Mas assim, quieto, parado à espera do milagre, o Pai a sustentar-me, não conto. Traste sem uso. Do menino que prometia ficou isto, o corpo inerte, a cabeça pesada de desejos que não são para satisfazer, um nojo vago do que está à volta e é vil.”
Ele é um homem preso num tempo e num espaço, económico e social, ocupados por gerações caladas pelo medo, desilusão e pela ausência de auto-estima. Seria um futuro possível para o escritor português, caso não tivesse emigrado.
Nesse meio social, a mulher era alvo de violência doméstica e limitada nos seus direitos individuais. Tudo era aceite, assim mandava a tradição. Em contraste, a educação sexual do homem era liberal.
Saramago, quando “Montedor” foi editado pela editora Prelo, reservou muitos elogios para a estreia literária de Rentes de Carvalho. O nobelizado, ainda longe de pensar em ser o escritor que viria a ser, louvou na “Seara Nova” o aparecimento deste novo escritor.
Através de um percurso peculiar, e devido a uma forte aposta da Quetzal, há muito que o autor deixou de ser desconhecido.
Rentes de Carvalho não sabe escrever mal. “Montedor” é a primeira prova de que um novo escritor aparecia na realidade literária portuguesa. 

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