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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

"Dora Bruder", de Patrick Modiano (Diário Digital)



Nome: Dora Bruder.
Da abstracção de milhares e milhares de vítimas executadas pela ideologia nazi, Patrick Modiano (n.Paris; 1945), o mais recente Prémio Nobel da Literatura, resgata a humanidade. Consegue-o fazer com as armas de um grande romancista. Dora Bruder emerge do esquecimento. É um nome de uma menina resgatada a um número.
“ Se eu não estivesse aqui para o escrever, já não haveria qualquer vestígio da presença desta desconhecida e do meu pai num carro celular em fevereiro de 1942, ao longo dos Campos Elísios. Nada a não ser pessoas - mortas ou vivas - que acabam arrumadas na categoria dos «indivíduos não identificados»”
Em 1988, o narrador lê um pedido de informações sobre Dora Bruder no Paris-Soir de 31 de Dezembro de 1941. A partir desse momento, ele procede à arqueologia por um nome subterrado numa “camada de amnésia”.
Seis anos depois (1994), o narrador escreve sobre essa procura.

“Dora Bruder” (Porto Editora) é um exercício de rememoração em que várias experiências se interseccionam numa demanda pela identidade própria e alheia. Através da recolha de dados, o autor (e narrador) tenta definir o carácter da menina e das pessoas mais próximas. Mas tudo é nebuloso. Modiano é obsessivo na perseguição das personagens, sem nunca as conseguir apreender na totalidade. São vultos na história, incorpóreos, suposições em que ele se perde.
Serão os factos insuficientes para traçar o perfil de alguém? E para desenhar o trajecto de vida?
“Dora Bruder” baseia-se nestas interrogações, ou especulações, sobre o que nos forma no passado e como é a memória como registo. Os factos recolhidos impõem mais perguntas do que respostas. O narrador consegue somente vislumbrar sombras, enquanto procura caminhos no campo da possibilidade.
Modiano debate-se com a incapacidade de realmente conhecer Ernest Bruder (pai), Célile Burdej (mãe) e Dora Bruder. O autor investiga e tenta conhecer as suas personagens. “Dora Bruder” é também este interessante exercício literário: um romancista à procura de compor a sua própria criação.
“Deixaram poucas marcas atrás de si. Quase anónimas. Não se destacam de certas ruas de Paris, de certas paisagens de arrabalde onde descobri, por acaso, que haviam morado. O que se sabe deles resume-se amiúde a um simples endereço. E esta precisão topográfica contrasta com o que ignoraremos da sua vida para todo o sempre - esse hiato, esse bloco de desconhecido e de silêncio”
A demanda por essa menina judia leva-o a pensar sobre o tempo de ocupação nazi e do “Processo Judaico”. Ela percorreu os mesmos lugares onde ele está. Os tempos (da escrita, da recordação, de Dora) interligam-se nos mesmos locais habitados por Modiano, por Dora, e onde o horror outrora dominou. Estas características levam Modiano a avaliar a sua própria infância e adolescência.
A relação simbiótica entre realidade e ficção torna difícil a demarcação de uma fronteira entre ambas, caso exista algum interesse literário nessa demarcação. Modiano utiliza, também, o exemplo de “Os Miseráveis”, de Victor Hugo, para exemplificar a miscigenação entre o real e o fictício. É curioso perceber que, neste mês de Janeiro de 2015, Anne Hidalgo (Presidente da Câmara Municipal de Paris) decidiu dar o nome de Dora Bruder a uma rua do 18º arrondissement, em Paris. Esta é a rua onde a menina, agora personagem literária, viveu.
O Comité Nobel decidiu resgatar a literatura francesa do esquecimento pela contemporaneidade. E fê-lo indicando o nome de Patrick Modiano.
“Dora Bruder” e Patrick Modiano são nomes que merecem ficar na memória dos leitores.


Mário Rufino


http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=757865

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