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domingo, 1 de março de 2015

Cultura e ausência de sinapses

As Correntes d`Escritas são um fenómeno de popularidade. No Cine-teatro Garrett, sem um lugar por ocupar, Guilherme d`Oliveira Martins, actual presidente do Tribunal de Contas, do Conselho de Prevenção da Corrupção e do Centro Nacional de Cultura, semeou perguntas, apontou caminhos, combateu a apatia. O título da sua comunicação - “Quem tem medo da Cultura?- foi provocatória. Após o seu discurso, tornou-se inevitável pensar e escrever sobre este tema.
Imaginem um senhor Coelho ou um senhor Silva perante uma pintura de Jackson Pollock. Ombro com ombro gastam o seu tempo a observar as grandes telas pintadas com a energia visceral do pintor norte-americano. Até que um mata o silêncio:
“Já viu a quantidade de tinta que foi preciso? O quadro deve valer muito por isso.”
Perante a Arte, valoriza-se o mercado, esse novo “Bezerro de Ouro”.
Se ao ser humano lhe é retirada a capacidade de (se) interrogar, então ele resume-se a um utensílio nas mãos das forças políticas, económicas ou sociais. E fica refém da univocidade económica.
Seja numa perspectiva marxista, em que as forças económicas são a base de qualquer cultura, ou numa visão mais humanista, em que o pensamento e a organização social e económica estão dependentes da instrução, é certo que a cultura pertence ao domínio da libertação através do pensamento.
“Nem tudo tem preço, mas tudo tem valor”, afirmou Guilherme d`Oliveira Martins
A cultura é a raiz da liberdade. A diferença na unidade tornará a liberdade mais robusta, mais forte, mais agarrada à memória que a sustenta. O húmus é a história e a palavra dos antigos. As ideias humanistas colocam o homem como um fim/objectivo e não um instrumento. Mas liberdade é familiar da imprevisibilidade. Ora, essa estrutura abstracta a que chamamos mercado perspectiva o imprevisível como um vírus mortal. Não é por acaso que contemplação está cada vez mais afastada dos hábitos; a acção cerca o pensamento; o homem contemporâneo tem cada vez menos capacidade de estar sozinho, de se confrontar, de pensar. Está de joelhos em adoração ao “Bezerro de Ouro, S.A.”.
A diferença na unidade é o oposto do pensamento único, cujas raízes são o medo e a ignorância. O medo é antitético na sua relação com a cultura, pois implicaria ceder o seu território à transformação, abdicar da simplificação e indiferença.
A cultura almeja a proliferação de perguntas, em quantidade e qualidade. E para isso a memória dos outros dá fulgor e significado à memória de quem se interroga.
“Medo da cultura é afinal ter medo da liberdade e da democracia”, finalizou Guilherme d`Oliveira Martins.
O ser humano quer ser livre; esta vontade é intrínseca à sua natureza. Quando está preso, ele reage. No entanto, a mais competente e pérfida forma de escravização é aquela que dá a ilusão de liberdade. Homem preso pensando que é livre no império do medo e da auto-censura
Talvez seja melhor deixar a cultura de lado, pois é um luxo inacessível. Ou talvez não…


Correntes d`Escritas, Póvoa de Varzim, 2015

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