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quarta-feira, 8 de abril de 2015

Apresentação de "Submissão" (Alfaguara), de Michel Houellebecq



“Submissão” (Alfaguara), o novo romance de Michel Houellebecq (n. 1958; Ilha da Reunião), foi apresentado ontem [01/01/2015] na sala 4 do Cinema Medeia Monumental, em Lisboa.
Pedro Mexia (crítico literário), Clara Ferreira Alves (jornalista), José Manuel Fernandes (publisher/fundador do “Observador”), Clara Capitão (editora da Alfaguara) e António Costa (Leopardo/Medeia Filmes), a quem foi entregue a mediação da conversa, apresentaram a obra de um dos mais polémicos autores franceses da actualidade.
O lançamento de “Submissão” surgiu como possibilidade de conjugação interdisciplinar entre cinema e literatura. Após a apresentação do livro, o público presente pôde visionar as estreias dos filmes “O rapto de Michel Houellebecq”, de Guillaume Nicloux, e “Experiência de quase-morte”, de Benoit Delépine e Gustave Kervern.
O atentado aos jornalistas do “Charlie Hebdo”, no dia de apresentação de “Submissão” em França, dramatizou a postura polemista de um autor que procura pensar as mais proeminentes questões contemporâneas. Esse vínculo à realidade faz com que os seus livros consigam conquistar o público com menos apego à ficção.
“O livro [“Submissão”] foi mal lido em França”, afirmou Clara Ferreira Alves. Esta obra, segundo a jornalista, não tem nada a ver com a islamofobia.
O autor socorreu-se de dados “canónicos” do islamismo. No entanto, “é evidente que Michel Houellebecq não tem simpatia pelo Islão”.
Essa leitura desviante, se é que chegou a acontecer qualquer leitura, levou o primeiro-ministro francês, ainda sob o horror provocado pelo atentado, a afirmar que “A França não é Michel Houellebecq, não é intolerância, ódio e medo.”
A situação tornou-se insuportável para o autor, que teve de se refugiar em parte incerta.
Segundo Pedro Mexia, Houellebecq rejeita, tanto na literatura como pessoalmente, valores dados como adquiridos. Ele interroga tudo e escreve contra o “Império do Bem” (iluminismo, Maio 68, etc.)
É o tipo de escritor que as pessoas lêem para se indignar, afirmou.
Para José Manuel Fernandes, em “Submissão” o conforto motiva a aceitação; não se trata de uma conversão (ou submissão) espiritual.
A hipotética vertente visionária de “Submissão” é a menos importante para o fundador do “Observador”; essencial é entender como credível o que é escrito por Michel Houellebecq.
O autor retracta a decadência do ocidente, composto por sociedades amorfas, desinteressadas, desinteressantes e somente preocupadas com a aquisição e manutenção do conforto.
O Islão é uma solução para o tédio, completou Pedro Mexia. As questões que angustiam os ocidentais (o desemprego, o sexo, a escolaridade) são resolvidas com as soluções religiosas apresentadas pelo Islão.
Clara Ferreira Alves vê Michel Houellebecq e Martin Amis como os grandes escritores europeus contemporâneos.
Houellebecq é um romancista de ideias. Ele usa a ficção para sujeitar à análise um conjunto de teorias. O romance de ideias havia desaparecido. O autor de “O Mapa e o Território” (Prémio Goncourt 2010) revitalizou o romance em que a ideia é o centro do debate. No caso de “Submissão”, a ideia de religião como mobilização e “cimento social”.
A relação do personagem com o Islão é de conforto e não de fé. O comodismo é o pilar da sua ligação à religião. Ele é a imagem de um ocidente melancólico, sem valores, entediado e entregue à manutenção de conforto.
“Há sinais deprimentes de que estamos vagamente adormecidos”
Michel Houellebecq obriga a rever o que sustenta a sociedade europeia. Através da ficção, o autor francês estabelece interrogações e convoca a inteligência do leitor.
Clara Capitão, no fim da apresentação, sublinhou a luta pela liberdade de expressão, valor inalienável da civilização tal como a conhecemos.
“Submissão” chegou para desassossegar e promover a discussão.
O Diário Digital publicará, em breve, a recensão crítica ao mais recente romance de Michel Houellebecq.

Mário Rufino


 http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=766959






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