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quinta-feira, 9 de abril de 2015

"O que não pode ser salvo" (Quetzal), de Pedro Vieira



A clássica história de traição e ciúme é actualizada no enredo e no discurso. O triângulo amoroso de “O que não pode ser salvo” (Quetzal), composto por uma filha de emigrantes portugueses, um rapaz de um bairro desfavorecido e um terceiro elemento oriundo da classe média, é a base para uma realista criação literária, plena de traição, racismo e vingança, por parte de Pedro Vieira (n. 1975; Lisboa).
A pluralidade criativa de Pedro Vieira, vencedor do Prémio PEN Clube Português para Primeira Obra, em 2012, com “Última Paragem Massamá” (Quetzal), abrange áreas como a ilustração (Revista Ler), apresentação (“Inferno”, Canal Q), guião (no mesmo canal) e a literatura.
Lisboa é a cidade onde escreve, desenha e vive. E é sobre ela e sobre as suas periferias que concentra a sua atenção.
A importação de imagens líricas não faz parte do seu modo criativo. Ao bucolismo e ao lirismo vindos do exterior, o autor propõe imagens urbanas. As personagens crescem entre muros grafitados, casas clandestinas, downloads de filmes e de música, transportes públicos cheios de indignidade e gerações à deriva. O escritor não vai à literatura estrangeira pedir emprestada a sua temática; vai procurá-la aos bairros periféricos, à pessoa com quem cruzamos na rua, à selva do mercado de trabalho. É nestes ambientes que os personagens Janine, Tiago e Mateus tentam contrariar a corrente que os empurra para a mediocridade.
O livro arbítrio está dependente da estrutura social e familiar. Estas promovem ou condenam o indivíduo ao (in)sucesso.
Esta realidade não está assim tão longe dos olhos do leitor. Não é um mundo idílico; é o mundo cruel com que se lida diariamente. Basta interromper a leitura, olhar em redor, e identificar, sem grande dificuldade, a realidade transposta para a literatura.
A estruturas familiares são diversas e, nestes casos, pouco saudáveis. As amizades escondem um jogo de enganos, e as personagens resistem ou vencem conforme a capacidade de manipular.
O determinismo social impede a evolução deste triângulo amoroso. E os seus elementos estão sempre em perda. As oportunidades são escassas e a precariedade é vista como normal.  
Num mundo de desigualdade de oportunidades, onde o trabalho derrota a dignidade (simbolizado pelo auricular do call-center), vence o que melhor se adapta.
O discurso literário compõe-se de léxico utilizado em diferentes zonas do país, divergentes estratos sociais e plurais formas de comunicação (SMS, Chat). O ritmo é fluido e as imagens sobrepõem-se.
O leitor é levado nessa torrente até a um desfecho que espelha o desmoronamento da moralidade e o drama das existências retractadas. 
“Otelo”, de Shakespeare, é a matriz das relações de paixão, posse e ciúme que orienta Pedro Vieira na efabulação das ligações entre Tiago, Janine e Mateus. Este trio amoroso é a projecção na contemporaneidade de Iago, Otelo e Desdémona.
Pedro Vieira faz da sua escrita uma nova hipótese de ver a realidade. Através da sua prosa, o leitor poderá ver o que lhe tem passado despercebido: O outro, o indivíduo que está quase ombro-a-ombro.
É entre gente comum que o autor procura a universalidade.
“O que não pode ser salvo” é um bem conseguido exercício literário sobre as periferias da existência.

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=765994

O Que Não Pode Ser SalvoO Que Não Pode Ser Salvo by Pedro Vieira
My rating: 4 of 5 stars

O meu texto sobre o livro:

http://oplanetalivro.blogspot.pt/2015...




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