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terça-feira, 23 de junho de 2015

Entrevista com Susana Moreira Marques no Festival Literário da Gardunha




Susana Moreira Marques procurou olhar a morte nos olhos. Nas aldeias de Trás-os-Montes, a autora de “Agora e na hora da nossa morte” (Tinta-da-China) acompanhou uma equipa de cuidados paliativos. Nas muitas visitas, falou com pessoas em fim de vida. Os testemunhos foram registados, em livro, com invulgar sensibilidade. Susana Moreira Marques presenciou e inscreveu a humanidade de quem parte, a saudade sentida por quem fica, a partilha do medo do desconhecido. São vozes em debate sobre a Grande Fronteira. São despedidas. E são as dores da própria autora. Tudo se envolve numa prosa avessa ao melodrama e sintomática de uma preocupação em registar as histórias de “heróis comuns”.
“Os outros somos nós”, pode-se ler no livro. E daí talvez resida a capacidade de as histórias nos comoverem, mas também de nos amedrontarem. “Agora e na hora da nossa morte” reflecte a precariedade dos entrevistados, o choque emocional da autora e a mortalidade dos leitores.
Nós seremos os outros.
O Diário Digital conversou com a jornalista no Festival Literário da Gardunha, entre cerejeiras e castanheiros, sobre este seu livro que foi considerado por vários críticos literários, em 2012, como um dos melhores do ano.
No site andotherstories.org, li esta frase sobre ti: “A journalist with a poet´s sensibility, a poet with a journalist´s clear eye”. Com “Agora e na hora da nossa morte” estamos perante o “new journalism”?

“And Other Stories” é uma editora inglesa independente que publica muita literatura estrangeira, em inglês. Vai publicar o meu livro no Reino Unido, em Setembro, e nos Estados Unidos, em Outubro.
Essa descrição foi feita por alguém da editora ou pela tradutora. A dada altura, eles chamam ao meu livro “reportagem filosófica”, algo que eu nunca tinha ouvido, mas eu identifico-me com a descrição, de facto. É possível que o meu livro tenha mais em comum com uma prosa poética do que com um romance.
Os jornalistas no “Novo Jornalismo” chamavam aos livros de não-ficção que faziam “non-fiction novel”. Foi uma influência para mim, como foi para todos os jornalistas que querem fazer um tipo de jornalismo que conta histórias. O “Novo Jornalismo” é incontornável e é sempre uma inspiração. Nele podem-se ir buscar exemplos de autores que trabalharam com a realidade, sem ter inventado nada, e conseguiram fazer obras literárias extraordinárias, com capacidade de comover o leitor, de deixar lastro na própria sociedade e até na história da literatura. Curiosamente, de todos os autores do “Novo Jornalismo”, o que mais me influenciou é o menos conhecido, ou conhecida, pois é uma mulher, a Joan Didion. Em Portugal, ela tem só um livro publicado (“O ano do pensamento mágico”), que é uma memória da morte do marido dela. Nos anos 60 e 70, época do “Novo Jornalismo”, ela escreveu muitos ensaios de estilo pessoal ou reportagens pessoais, que eu descobri há alguns anos e que foram para mim uma revelação. “Pessoal” talvez não seja a palavra. É uma escrita muito íntima, que traz o leitor para a intimidade da própria autora de uma forma diferente da dos outros autores do “Novo Jornalismo”.
Eu acredito no poder da não-ficção em ser literatura. Tenho pena que em Portugal isso tenha ainda pouco peso, ou exista pouco.
É difícil “catalogar” o teu livro…

Tive receio de que ele não resultasse. Tive medo de que as pessoas que fazem ficção, ou mesmo os críticos literários, pensassem que isto não era suficientemente literário e que as pessoas do jornalismo pensassem que isto era demasiado literário. Ou seja, que ficasse uma coisa no meio sem agradar nem a gregos nem a troianos. Felizmente isso não aconteceu. Estando nessa fronteira, as pessoas apreciaram o livro. Quando me sentei para escrever não pensei em escrever um livro difícil de catalogar, com uma forma diferente. Não tinha esse objectivo. A forma apareceu-me naturalmente como a certa para aquilo que eu queria contar e para utilizar da melhor maneira o material que tinha. Não tinha intenção de quebrar géneros.
Tinha a ambição de fazer qualquer coisa que ficasse. Muitas vezes, quando trabalhamos com a realidade no jornalismo, as coisas são muito perenes, pois estão muito dependentes da realidade daquele momento. Percebi que tinha potencial naquelas histórias para fazer qualquer coisa que ficasse, pelo menos um pouco mais de tempo, e que fosse um livro para fazer pensar sobre a morte. Tinha ambição nesse aspecto, mas não tinha a ambição de fazer algo transgéneros. Queria fazer algo literário no sentido de ter um valor como texto. Muitas vezes, o problema da não-ficção é que só é visto pelo conteúdo, pelo impacto que pode provocar, pela história. Raramente é apreciado o trabalho da linguagem. Eu queria fazê-lo. E esse trabalho talvez não seja diferente do de um ficcionista. Todo o trabalho de escritor está lá, sendo que o material é o real. O trabalho da linguagem em si é igual. Os instrumentos são os mesmos: as palavras, os ritmos de narração, a forma mais longa ou mais curta...
Vou citar algumas frases do teu livro para contextualizar a pergunta:
“Manual de Sobrevivência:
3- Fazer das pessoas personagens
4- Não deixar de chorar pelas personagens”
Foi a estratégia que adoptaste para manter distanciamento e objectividade?

Sim, por um lado foi uma estratégia de sobrevivência para poder escrever sobre pessoas que estavam a passar por situações muito duras. Quando se invadem momentos tão íntimos, em que as pessoas estão a sofrer fisicamente ou psicologicamente, tens de manter um certo distanciamento, um certo “sangue frio”. Por outro lado, não podes ser “frio”. Seria quase desumano não te comoveres. Não te podes deixar de comover porque isso é a tua humanidade.
Tem também uma outra leitura, agora em relação ao processo de escrita em si. Nós para podermos escrever bem sobre pessoas reais temos que as transformar em personagens. Temos que pensá-las como personagens. Os leitores não conheceram aquelas pessoas, por isso temos que descrevê-las e torná-las reais, tal como personagens de um romance. Nesse sentido é preciso pensá-las desta forma, mas sem deixar de chorar por elas porque as suas histórias são verdadeiras e não queremos que se tornem figuras menos próximas de nós.
“No cemitério, uma fotografia, e às vezes só um nome. Os nomes sobrevivem, mas nunca foram os nomes que nos fizeram únicos”
Foi por isso que deste voz às pessoas no teu livro? Passaste do discurso indirecto para o directo.

Em parte sim. Queria dar voz a essas pessoas que nunca têm voz. Há uma parte do livro antes da entrevista com o senhor João e a senhora Maria em que eu falo do meu avô.
Os meus avós tiveram um percurso típico dos portugueses daquela época. Eram pessoas de famílias sem grandes posses, em pequenas aldeias. Os avôs tinham a 4ªclasse, as avós nem isso tinham. No início dos anos 50 emigraram para Angola como milhares de outros portugueses.
Sempre quis prestar-lhes homenagem.
É um pouco essa ideia: dar voz a estas pessoas que nunca tiveram direito a história. Nada fica deles quando desaparecem.
Por outro lado, apercebi-me, também, que as pessoas diziam coisas extraordinárias e lindíssimas. Numa região como Trás-os-Montes, usam-se termos que só se dizem naquele sítio. Quis deixar esse registo e, nesse sentido, o livro é um documento. Por vezes, vejo os ficcionistas a construirem vozes inteiras. Eu percebi que tinha um material incrível que nenhum ficcionista conseguiria recriar.
De onde veio a necessidade de olhar a morte nos olhos? Estavas grávida na altura, se não me engano…

Sim, estava.
Há um paradoxo muito interessante. Viste as pessoas no fim, enquanto tu própria estavas a gerar uma vida.

Fiquei grávida quando já tinha começado a trabalhar para o livro e durante toda a gravidez estive a trabalhar neste livro.
Indo à primeira parte da tua pergunta: este livro foi um acaso. Interessavam-me os cuidados paliativos porque eu tinha tido uma experiência bastante forte e não muito boa com a morte dos meus avós. Em 2010, perdi dois dos meus quatro avós num espaço de seis meses. Foi a minha avó materna e o meu avô paterno. E ambos tiveram uma “má morte”; ambos morreram sozinhos, sem a família junto deles. Isto foi algo que tive muita dificuldade em aceitar. Senti muita raiva e impotência por não ter conseguido fazer mais para ajudá-los nesses últimos momentos de vida. Isso despertou-me para a questão dos cuidados paliativos e comecei a perceber que muitas pessoas tinham passado pela mesma experiência com avós, ou pais, em que a partir de certa altura, por causa de doenças incuráveis ou prolongadas, há muita falta de apoio físico e psicológico. Uma amiga, que trabalha nesta área, disse-me que a Gulbenkian estava a fazer um enorme investimento nos cuidados paliativos, e eu fui entrevistar a pessoa responsável, o Director do Departamento de Saúde da Gulbenkian, para o jornal Público. Durante a entrevista, ele falou-me deste projecto-piloto de cuidados paliativos domiciliários para ajudar as pessoas a morrer em casa, nas aldeias, no Alentejo e em Trás-os-Montes.
Pensei em fazer uma reportagem. No entanto, a Gulbenkian já tinha a ideia de pedir a alguém que fizesse um trabalho que pudesse documentar aquele projecto, e sugeriu-me que lhe fizesse uma proposta para algo mais longo. Fui para casa pensar e depois propus fazer um livro. Convidei o André Cepeda para ir comigo. Ele fez as fotografias que aparecem na 1ª edição, uma co-edição entre a Gulbenkian e a Tinta-da-china.
Foi muito bom porque pude trabalhar com condições. Teria sido muito difícil fazer este livro sem dinheiro. Não se tratava só de estar em casa a escrever. Implicava fazer viagens e passar tempo com muitas pessoas. Fiz três viagens a Trás-os-Montes em momentos diferentes para acompanhar algumas famílias. Foi um privilégio enorme. É tão raro poder fazer um trabalho deste género com tempo!
Muitas vezes, as pessoas perguntam-me se não foi uma experiência muito dura, como é que eu aguentei fazer isso. Na verdade, foi muito menos duro do que eu imaginava que ia ser. A primeira viagem foi realmente muito dura, muito difícil. Cada dia, ia com uma médica e um enfermeiro e seguia a rotina deles; é um ritmo intenso, pois vão de aldeia em aldeia, de casa em casa. Eu chegava ao hotel depois de fazer 8 a 10 visitas a pessoas gravemente doentes ou mesmo acamadas, algumas a viver em situações de pobreza incríveis. Chegava completamente arrasada ao hotel.
Quando eu dizia, há pouco no debate, que a morte é real, é porque é um processo físico real; vê-se a degradação das pessoas. A morte passou a ter uma imagem para mim. Isso foi um choque, mas a partir do momento em que se tem esse choque e a morte passa a ser real, deixa de ser tão misteriosa e não mete tanto medo. Percebi que as pessoas quando estão numa situação limite vêem as coisas de outra forma: dão valor à vida e vêem o que é realmente importante.
Quanto ao facto de eu estar grávida, é verdade que supostamente as mulheres ficam mais sensíveis, mas eu senti que a gravidez me tornava ainda mais forte e capaz de enfrentar o trabalho que estava a fazer.
Essa rima entre estar a ver pessoas em final de vida e estar a dar vida, o facto de eu estar perante todo o ciclo da vida naquele momento, dava-me força. É de um enorme consolo: a vida acaba, mas recomeça.
Há várias tonalidades de medo no teu livro. Somos animais governados pelo medo?

Somos governados pelo medo, no nosso dia-a-dia. E não só pelo medo da morte. Temos medo de perder o nosso trabalho, ou de não estarmos à altura das nossas expectativas. Temos muitos medos. Quando se está numa situação limite, as pessoas não deixam de ter medo, mas é nessas alturas que mostram a coragem que têm. O ser humano tem uma capacidade de coragem e de aguentar sofrimento extraordinária. Nós somos cobardes e corajosos, permanentemente. Vamos vivendo as duas coisas a par uma da outra.
Há várias menções a Deus. O próprio título é parte de uma oração. A religião serviu de “intermediária” entre ti e as pessoas? A religião está presente nessas regiões?

Trás-os-Montes é um lugar onde a religião é muito forte. Existem aldeias que não têm quase nada, não têm correios, às vezes nem sequer um café, mas têm uma igreja.  As minhas personagens eram pessoas que tinham tido uma educação religiosa tradicional e que se apoiavam muito nessa fé. Havia muitas questões que eu me colocava, mas que eles não se colocavam precisamente porque tinham, sobre o que era o fim da vida, uma narrativa que vinha do que eles tinham aprendido em crianças. Há um momento bonito numa das entrevistas com um senhor mais velho, que tem 80 anos, em que ele diz assim a propósito da ressurreição de Lázaro: “Jesus também ressuscitou, e dizem que nós todos ressuscitamos, mas eles ressuscitam ao cabo de dois, três dias, e nós ao cabo de milhões de anos. O que eu aprendi no berço só no túmulo me esqueça. Os meus pais deram-me esta fé. É a que tenho. Parece-me que há qualquer coisa depois da morte. Tenho essa ideia. Tanto nos metiam medo com coisas! Para que nos andariam a enganar?”
Por outro lado, as pessoas de Trás-os-Montes – sobretudo a geração que viveu a ditadura e emigrou – aceitam a morte como aceitaram a vida, de forma estóica e sem grande questionamento: a vida é assim, é sofrimento, temos de passar por estes sacrifícios... Vivem a morte com essa resignação mas também com a naturalidade própria do mundo rural. O ciclo da natureza está sempre presente: morrer, renascer… Essa permanente visão da vida a acabar e a recomeçar - seja nas plantas ou nos animais - faz com que as pessoas tenham outra maneira de encarar a morte.
Eu não sou uma pessoa religiosa. No entanto, a morte coloca-nos a questão da existência e por mais que sejamos não-crentes não deixamos de ter a grande interrogação: Para que é que foi a nossa vida? O que é que acontece a seguir?
Dei por mim a dialogar com um Deus em que não acredito, mas não havia mais ninguém com quem dialogar.
“Os outros somos nós”.
Há uma parte no teu livro em que tu falas de uma certa maneira de mostrar amor que, segundo interpretei, parecia estar perdida para ti. Conseguiste encontrá-la no meio dessas pessoas e de situações tão difíceis?

Sim, consegui, mas depois voltei a perdê-la.
Vivemos na cidade e num mundo com muitos estímulos. É difícil focarmo-nos. Estas pessoas estavam num ambiente muito diferente: em aldeias com poucas pessoas, onde todos se conhecem e se entreajudam, onde as pessoas são muito unidas. Essa experiência, de passar tempo nas aldeias, foi muito forte para mim, vinda de onde estava a vir. Por outro lado, é em situações limite que percebemos o que é importante. Quando as pessoas estão à beira da morte, as pessoas percebem o que é importante. E o que é mais importante é o amor. Eu queria que o leitor fizesse esse caminho: olhar para estas pessoas e perceber que elas somos nós. O que lhes aconteceu não só nos pode acontecer como nos vai acontecer.
Claro que nós não podemos viver permanentemente com essa agudeza, essa capacidade de ver a essência. Seria o ideal, mas não é a nossa vida do dia-a-dia, porque nós estamos completamente assoberbados. Por vezes penso nisso. Aprendi muitas coisas que, entretanto, já esqueci.
Eu esqueço, mas o texto não esquece. Isso é o mais importante.
A tua vontade em falar dos cuidados paliativos, ou da questão dos imigrantes (conjunto de artigos para a “P2/Público”) vão ao encontro do que disseste na mesa de debate: Olhar a história por outro lado. Enquanto todos olham para o mesmo sítio, o jornalista observa um lado diferente.

Sim, identifico-me muito com essa ideia. Talvez tenha a ver, simplesmente, com a minha personalidade. Nesse aspecto não estou tão preocupada em captar a actualidade, ou o que está mais “quente” no momento. Procuro olhar para as situações que as outras pessoas não estão a olhar. Talvez porque me pareça importante, ou porque precise de procurar as minhas próprias histórias.
Tem a ver com a perenidade de que falaste?

Sim, sim… Tenho muita vontade de registar coisas que vão desaparecer e fazer com que elas fiquem. Grande parte da minha motivação para escrever talvez seja essa.
Neste momento estou a trabalhar sobre memórias de pessoas mais velhas, do tempo da ditadura. Interessa-me muito a história das pessoas comuns. Temos um país de heróis comuns que atravessaram momentos históricos difíceis e que viveram aventuras inacreditáveis.
Talvez esse trabalho até tenha começado neste livro, onde para além da morte aparece muito o fim de um estilo de vida e de uma forma de olhar o mundo. Sinto muita urgência em registar esse olhar


No Diário Digital:  http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=778312

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