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segunda-feira, 15 de junho de 2015

LeV- Literatura em Viagem: Balanço



A conflitualidade em debate

Durante os dias 8, 9 e 10, em Matosinhos, e 11 de Maio, em Lisboa, O “LeV – Literatura em Viagem” debateu ideias, aproximou línguas e promoveu o contacto entre culturas distintas.
Durante os 3 dias de Matosinhos, a música, a política e a literatura foram as perspectivas adoptadas para os debates sobre o conflito. Jorge Sampaio, Rui Tavares, João Pereira Coutinho, Luís Represas, Joan Miquel Oliver e Pedro Abrunhosa juntaram os seus contributos a diversos escritores e jornalistas num festival literário que celebrou a viagem.
O primeiro passo deste caminho, organizado pela Câmara Municipal de Matosinhos e produzido pela Booktailors, foi dado por Jorge Sampaio, Presidente da República entre 1996 e 2006, no Salão Nobre do edifício dos Paços do Concelho.
Na “Conferência Inaugural”, Jorge Sampaio declarou que o maior interesse de uma viagem é o encontro com o “Outro” e a procura do diferente. De outra forma, a viagem pode ser longa, mas o viajante nunca chega realmente a “sair de casa”.
Os múltiplos cargos políticos que ocupou permitiram-lhe visitar todos os municípios do país. As frequentes deslocações ao estrangeiro alimentaram o seu ódio por aeroportos.
A quantidade de participações oficiais e o pouco tempo de descanso fazem das Viagens de Estado “tudo menos distracção.”
“Cada gesto e cada palavra exprimem Portugal. Isso tudo obriga a uma grande concentração”
Sempre fundamentando-se com exposição fotográfica, Jorge Sampaio contou histórias passadas com as muitas pessoas que teve oportunidade de conhecer nos diversos países visitados.
 “O que conta para mim são as pessoas que nós encontramos”
Nesses encontros de culturas, de civilizações e de perspectivas sobre o mundo, o ex-Presidente da República procurou a narrativa, as histórias, e encontrou a capacidade de interlocução do povo português. Os portugueses - afirmou - têm uma universalidade atrás deles que muitas vezes não reconhecem.
A questão do “Outro” foi transversal à sua comunicação. A ideia de viagem como caminho para entender diferentes civilizações foi partilhada pelos diferentes convidados que, nos dias seguintes à “Conferência de Abertura”, participaram nas mesas de debate e nas entrevistas.
Após a apresentação de “A Invenção da Vida” (Verso da História), de Lourença Baldaque, “Raiz do Mundo” (Verso da História), de Francisco Ribeiro Rosa e “Viagens Pagãs” (Parsifal), de Fernando Dacosta, a primeira Sessão teve a presença do escritor Catalin Florescu (romeno) e o jornalista Artur Domoslawski (polaco) para debater “Os Conflitos Interiores”, com moderação de Luís Ricardo Duarte (jornalista do Jornal de Letras).
O poema “Whether we write or speak or do but look”, de Fernando Pessoa, foi o mote para o debate efectuado em língua inglesa (tradução simultânea).
Domoslawski, autor do polémico “Ryszard Kapuściński: A Life”, confessou a dificuldade em descrever uma pessoa ou uma comunidade e recordou um conto de Borges, intitulado “Borges e Eu”, em que o autor argentino mostrava perplexidade sobre a interpretação de si próprio. Na sua perspectiva de jornalista, tem de existir um vínculo com a verdade “from the warm interior to the cold of writing”. Um dos factos interessantes das viagens feitas pelo jornalista polaco foi o de lhe ter permitido construir um assinalável domínio do português do Brasil num país improvável. Foi em Inglaterra e com um grupo de estudantes brasileiros.
Catalin Florescu é romeno, vive na Suíça e escreve em alemão. A sua saída do país natal aconteceu durante o regime de Ceausescu. A Roménia, afirmou, é a paisagem da alma, e a língua alemã a sua ferramenta. Não tem qualquer problema com essa pluralidade. A sua identidade é um assunto bem resolvido.
Catalin Florescu procura ir aos países onde acontece a acção dos seus livros. Investiga muito e vai falar com as pessoas. Ele quer conhecê-las e ao tempo em que ele e elas vivem. Envolve-se. Nunca se sente “lost in translation”, nem nunca perdeu a sua voz.
No seu tom peremptório, afirmou que se preocupa com a existência humana e a consciência de si mesmo, seja como ser humano, escritor ou psicólogo (área de formação).
As metáforas que remetem para a nossa humanidade, mencionadas por Fernando Dacosta na apresentação do seu livro, podem estar nas grandes deslocações de Catalin Florescu ou concentrarem-se na própria habitação, ou mesmo no quarto, tal como Xavier de Maistre escreveu em “Viagem à volta do meu quarto”.
Tessa de Loo (escritora holandesa) e Paloma Díaz-Mas (escritora espanhola) debateram os conflitos ancestrais dos dois animais que, em tantas casas, são companhia do ser humano: os cães e os gatos.
Para Tessa de Loo, o cão e o gato são metáforas do ser humano. Eles são a esquerda e a direita políticas, a veracidade e a ficção narrativas, o tempo quase parado dentro de um microcosmos alheio à velocidade do exterior.
Sendo diferentes, têm de ser educados dentro de uma estratégia de respeito e entendimento mútuo. Tessa de Loo, confessa “dog lover”, discordou muitas vezes de Paloma Díaz-Mas, “cat lover”, nesta conversa em inglês, com tradução simultânea, moderada por Sérgio Almeida (jornalista).
Paloma Díaz-Mas, autora de “O que aprendemos com os gatos” (Quetzal), defendeu a existência de um pacto com o gato. Tem de haver mútuo respeito. A autora nascida em Madrid rejeitou a impossibilidade de convivência entre o ser humano, o gato e cão.
No entanto, as diferenças são evidentes: enquanto com um cão se pode aprender o conceito de lealdade, com o gato tem-se a sensação de que se é tolerado dentro do seu território.
Se o cão fosse um homem, disse Tessa de Loo, não votaria ou votaria nos democratas.
A coabitação ente opostos acontece também numa casa a que chamamos Parlamento. O debate de diferentes perspectivas dominantes parece separar mais um lado do outro do que o cão de um gato.
Rui Tavares (fundador do partido LIVRE), João Pereira Coutinho (cronista e co-autor de “Por que virei à direita”) debateram “Os conflitos ideológicos” com moderação de Pedro Vieira (Booktailors).
Rui Tavares apontou o nascimento das duas facções políticas como um acontecimento simultâneo datado entre 28 de Agosto e 11 de Setembro de 1789.
Nos Estados Gerais, em Versalhes, a Nobreza, o Clero e o Povo reuniam-se em salas diferentes. O Povo exigiu que se sentassem todos na mesma sala com o intuito de haver igualdade de voto (1 voto, 1 homem). Alguns elementos da Nobreza passaram para o lado do Povo, considerado o 3º Estado, que chamou a si mesmo a “Assembleia dos Comuns”. A primeira decisão foi a de abolir os direitos feudais, a segunda foi a de aceitar a “Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão”. Depois destas decisões, ficaram perante um dilema: o Rei deveria ter o direito de vetar as decisões da Assembleia?
A divisão entre esquerda e direita é vista, pela primeira vez, nesta ocasião. Na última semana de Agosto dá-se a reunião em que é dito ao Presidente da Mesa que as divisões eram bem visíveis. À esquerda do Presidente da Mesa (direita da sala) estavam os que defendiam que o Rei não deveria ter o direito ao veto; à direita do Presidente da Mesa (esquerda da sala) estavam os que apoiavam o direito ao veto.
Para o fundador do LIVRE, “Ambas [esquerda e direita] definem-se – como não poderia deixar de ser – por formas diferentes de olhar para a igualdade e liberdade”.
João Pereira Coutinho afirmou que hoje a diferença é mais complexa, embora continue a fazer sentido.
“Existe uma diferença que é sobretudo aquilo a que os cientistas políticos designam de “Princípio da Rectificação”. A esquerda tende a rectificar as desigualdades sociais através do papel do Estado, enquanto a direita tende a valorizar os aspectos como a liberdade individual e a ideia de que, essencialmente, a noção de igualdade ser não de resultados, ou de redistribuição de riqueza, mas uma igualdade de todos perante a lei”
Se houvesse bons e maus, afirmou Rui Tavares, não se chamavam esquerda e direita; chamavam-se bons e maus.
A retórica na política está, hoje, afastada da definição e nobreza platónica de outros tempos. Para Platão, a retórica, que era considerada uma qualidade, devia estar acompanhada de outra característica benévola. Caso contrário, a retórica serviria para seduzir um homem, ou uma comunidade, a enveredar por um caminho dominado pela maldade.
Na contemporaneidade, o mal parece ser um lugar-comum em que o individualismo impera sobre a cooperação colectiva. Ou não?
Joel Neto (escritor português) e Bruno Vieira Amaral (escritor português) debateram o tema “O Mal não é um lugar-comum”, com moderação de Pedro Marques Lopes (jornalista da TSF e SIC), enquanto Kim Young-ha (escritor sul-coreano) e Tiago Salazar (escritor português) debateram, posteriormente, “O individualismo é o sonho do mal”, com a moderação de António Reis (jornalista da SIC).
Para Bruno Vieira Amaral, o Mal não tem sentido; é um desequilíbrio ou desarmonia. No entanto, um escritor tenta compreendê-lo. A alegria, pelo contrário, não suscita interrogações.
Dando o exemplo das catástrofes naturais, afirmou que o Mal é uma interrupção da previsível normalidade. A pergunta impõe-se nestas circunstâncias: “Será isto produto de uma vontade?”
O objectivo de um acto maldoso torna a relação do homem com o Mal ainda mais complexo. Quando é que a violência é legítima ou ilegítima? A legitimidade da violência depende do objectivo do acto violento? Será vista como maldade quando surge para nos defendermos?
Joel Neto concentrou a sua atenção no reverso do Mal. O escritor açoriano não tem tanta certeza de que é mais aliciante entender o Mal.
Apesar do interesse em compreender as personagens complexas e capazes de atrocidades, na literatura mundial, Joel Neto está muito mais inclinado para escrever sobre “ a possibilidade do Bem” do que escrever sobre a natureza do Mal.
Raskolnikov foi um exemplo, entre outros, de como um indivíduo pode ser complexo e titubear entre o Bem e o Mal. Raskolnikov (“Crime e Castigo”) não era um homem egoísta, já quanto a Ahab (“Moby Dick”), o seu egoísmo e obsessão levaram-no a impor a sua individualidade sobre os homens que o rodeavam.
Tiago Salazar, em “O individualismo é o sonho do mal”, afirmou:
“Adoro um personagem há muitos anos. É o Heathcliff de “O Monte dos Vendavais”. Ele é mesmo mau e não quer ser melhor do que é. Ele tem uma escolha. Nós também temos a escolha, todos os dias, de decidir ser, como indivíduos, bons ou maus. Todos os dias, temos experiências de Bem e Mal no nosso íntimo.”
Para o autor português, em países com regime ditatorial, o individualismo é discutido como liberdade individual, seja no aspecto social ou artístico. Ainda hoje, afirmou, após quarenta anos de democracia em Portugal lutamos para sermos indivíduos.
Na realidade política norte-coreana, a individualidade é um objectivo.
Kim Young-ha sempre almejou a conquista do individualismo. Na Coreia do Sul, a tarefa nunca foi fácil. Era um sonho. A sua geração não queria fazer parte do sistema. Hoje, os sul-coreanos estão no centro de uma confusão entre o individualismo e outro qualquer tipo de sistema. Devido a isto, o autor sul-coreano afirmou que o individualismo tem muitas caras e depende da realidade cultural e política.
Gonçalo M Tavares falou da maldade individual como parte de um conjunto composto, também, pela maldade colectiva. O instinto de sobrevivência (“prefiro que o outro morra em vez de ser eu”) complementa a ideia colectiva inerente à indústria da morte. O acto e decisão individual são acompanhados pelo fomento da proliferação das armas e dos conflitos.
O sacrifício é o momento em que o homem rompe com essa realidade. No entanto, “toda a decisão do bem e do mal é um dilema”. E num dilema há sempre perda, seja qual for a decisão, disse o autor de “Viagem à Índia”, no debate “Escrever, Marchar”, com moderação de Pedro Vieira.
Esse dilema está presente, também, na produção literária. Segundo Francisco José Viegas, interlocutor de Gonçalo M Tavares, “nós sabemos o que é o bem: é a penicilina, a epidural, o gelado de limão. O mal, nós nunca sabemos de onde é que ele vem. O mal, às vezes, vem de coisas que nós pensamos serem muito boas”.
O Ex-Secretário de Estado da Cultura mencionou um elemento do público, presente num debate anterior, que perguntou como é que os escritores podem mudar as pessoas e acabar com o mal. “Impossível”, respondeu. “ Chegámos à conclusão de que o Mal e o Bem são necessários para a construção do romance. (…)“ a literatura é um campo de conflitos entre o Bem e o Mal”.
Richard Zimler (escritor norte-americano) adopta esse conflito através das personagens.
Em debate sobre “O conflito ajuda à criatividade?” (sessão de encerramento), com Joan Miquel Oliver (músico e escritor espanhol), Pedro Abrunhosa (músico português) e moderação de Tito Couto, o escritor norte-americano afirmou que os conflitos interiores acontecem sobre o ponto de vista dos avatares por si criados. O autor é uma espécie de actor.
Joan Miquel Oliver e Pedro Abrunhosa discordaram sobre o papel do artista. Para o músico portuense, “a crise e o conflito não ajudam a arte. A arte, por si própria, é fruto da conflitualidade interior”. E acrescentou que “a arte é uma forma de confrontar o indivíduo com a realidade”. E aqui se concentra a divergência entre os dois músicos. Para o músico catalão, o vínculo com a realidade não depende da condição de artista, mas sim da escolha do indivíduo. A realidade não vincula a posição do artista. Este pode querer a arte para uma posição de conflito, ou não. Assim como pode cantar ou escrever sobre os problemas interiores, ou não. “ Se a realidade não me satisfaz, tenho que criar um mundo artificial que me satisfaça, a mim primeiro, e depois às pessoas que ouvem os meus discos”  
O aproximar de ideias é, muitas vezes, abdicar da pluralidade de caminhos para o nascimento de um caminho único, de um pensamento único. O LeV optou pela pluralidade de pensamentos, de ideias, de culturas.
Das palavras do LeVzinho à música clássica, a 9ª edição do LeV foi muito bem recebida pelo muito público, numa cidade aquecida pelo sol e animada pela Festa do Senhor de Matosinhos.
O LeV – Literatura em Viagem contou ainda, na sua programação, com entrevistas a Luís Represas (por Tito Couto, da Booktailors) e a Mário Cláudio (por Maria João Costa, da Rádio Renascença)
O Quarteto de Cordas de Matosinhos finalizou os 3 dias de festival com o “Quarteto de Cordas nº 16, em Mib maior, K428 (1783)”, de Wolfgang Amadeus Mozart.
O fim oficial aconteceu já em Lisboa, na Fundação José Saramago, com a apresentação de “Olhares sobre a História da Música em Portugal (Verso da História), e o debate “Que Conflitos para o século XXI?” entre Dulce Maria Cardoso e Rui Cardoso Martins, com moderação de Pedro Vieira.


Mário Rufino

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=772970

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