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sexta-feira, 3 de julho de 2015

"Má Luz" (Teorema), de Carlos Castán.


«Má Luz»: homens em ruínas


“A vida dura enquanto alguém nos espera e o resto é já sobrevivência, dizia, embora sobreviver não deixe de ter também a sua piada e a sua beleza”. A existência dos dois personagens principais de «Má Luz» (Teorema), do consagrado contista Carlos Castán (n. Barcelona; 1960), resume-se a esta sobrevivência, sob a negrura do fatalismo e da negatividade.

O narrador e Jacobo são amigos muito próximos. Partilham noites de conversas sobre juventude, literatura, filosofia e problemas que os afligem.
Um dia, Jacobo é morto em sua casa. As manifestações de receio da vítima, a que o narrador não deu importância, concretizam-se. A busca do assassino leva-o a viver a vida de Jacobo, numa espécie de fuga de si mesmo, e a conhecer a misteriosa Nádia.
Em “Má Luz”, a história é um motivo para um exercício de estilo do autor sobre a mortalidade, a solidão, a amizade e o arrependimento. É uma novela que se serve da (pouca) acção para ter o vagar suficiente para analisar a psique das personagens em questão.
A lenta velocidade do tempo narrativo permite as divagações do narrador, nunca nomeado, sobre aspectos basilares da sua vida. As incoerências surgem, as amarguras também, numa rede de desalento que incapacita os indivíduos de contrariar os seus estados anímicos.
A linguagem poética denota o trabalho do autor sobre o ritmo do texto. A prosa de Carlos Castán impõe a sensação de radical solidão do narrador e de Jacobo, através da sugestão, fluidez e capacidade de envolver o leitor.
Estes dois avatares iluminam reciprocamente as frustrações vivenciais, numa relação de amizade, de mútuo apoio e de partilha de cinismo perante a vida.
“Duas pessoas podem inclusive abraçar-se uma à outra, apertar as mãos com força, mas uma mão não consegue penetrar no inferno da outra, nem sequer compreendê-lo remotamente. É impossível.”
Algures na vida eles decidiram trilhar caminhos sem saída. As mulheres, o álcool, as noitadas da juventude resultaram em dois homens de meia-idade sem nada com que se orgulhem. Eles estão perdidos num labirinto de solidão. De forma contraditória, esse labirinto também lhes fornece algum conforto. Aquele inferno é o deles; é conhecido. Toda a luz (= conhecimento) que vem do exterior agride-os. A clausura do assassinado é a expressão física desse transtorno. Ele isola-se da informação mundana e entrega-se ao conhecimento mediado pelos livros. No entanto, há uma interrogação que o assalta e ao narrador, também:
Como viver os anos que lhes sobram, enquanto iluminados por uma má luz que desvenda os fantasmas e revela as más decisões, o corpo gasto e os gestos cansados?
Toda a luz exterior é perversa. Jacobo e o narrador revêem-se em pessoas, figuras ou pinturas, enquanto estão presos a um latente estado depressivo.
“Quanto demora a morrer um homem que se estende na cama sem outra ideia na cabeça, olhando para o tecto, decidido a não se mover mais daquele lugar, a não comer, a não responder a campainhas nem telefonemas?”
Carlos Castán conquistou a atenção do público espanhol através da qualidade das suas narrativas breves. “Má Luz” é a sua primeira novela.
Sobre esta sua narrativa mais longa, que detém forte intertextualidade com outros autores, o autor, em entrevista a “Heraldo.es”, afirmou: “hay un verso del poeta Paul Celan que funciona un poco como lema del libro, «estábamos muertos y podíamos respirar»”.
“Má Luz” é uma poderosa narrativa sobre a solidão destes misteriosos indivíduos, cujos corpos teimam em continuar a respirar.
Mário Rufino

3 comentários:

Carlos Faria disse...

Uma das obras que está na minha lista de livros a comprar, este artigo mostra mais uma vez que é uma narrativa para se ler.

Mário Rufino disse...

Obrigado, Carlos.
É um bom livro. Autor interessante. Gostava de ler os contos dele. Em Espanha, é muito conhecido pelas suas narrativas breves.


Abraço

macy disse...

Como sempre, Mário Rufino, tu deixas-me inquieta com as tuas excelentes opiniões... Inquietude boa...
Teresa Carvalho

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