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sábado, 8 de agosto de 2015

"Por Fim" (Sextante), de Edward St Aubyn.


«Por Fim»: a catarse de um grande escritor

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Entristece-se o leitor quando chega à última página de um livro com esta qualidade. Neste caso, é mais correcto afirmar à última página dos 3 volumes, na edição da Sextante, que contam as vicissitudes da família Melrose. “Deixa Lá”, “Más Novas”, “Alguma Esperança”, “Leite Materno” e “Por Fim” (as 5 novelas que compõem o “Ciclo Melrose”) apresentaram ao leitor português a impressionante capacidade literária de Edward St Aubyn (n.Cornwall, Reino Unido; 1960).
O autor inglês sublinhou, em várias entrevistas, o biografismo existente no percurso do personagem Patrick Melrose. É uma identificação impossível de descodificar. Até onde o autor é a sua personagem? O percurso de Patrick, desde “Deixa Lá” até “Por Fim”, é doloroso.
Desde a primeira novela até à última, Patrick, nascido em consequência de um estupro, foi violado pelo pai, ignorado pela mãe, viciado em drogas e responsável por recolher as cinzas do pai; casou, teve dois filhos e, já em “Alguma Esperança”, começou a sua catarse. Em “Deixa Lá”, Patrick vê a sua casa de infância, um lugar pelo qual tinha “um carinho imaginário que o tinha mantido são na infância”, ser doado a uma seita. Em “Por Fim”, a sua mãe, Eleanor Melrose, morreu.
Ele parece chegar à libertação que tanto tem almejado, pois “tudo estava perfeito agora que ele era órfão.” E analisa desta forma a sua relação com os pais:
“Acho que a morte da minha mãe foi o melhor que me aconteceu desde… bem, desde a morte do meu pai”
As cerimónias fúnebres são palco de encontros entre familiares. Nesta construção cénica muito delimitada, a família e amigos mostram as hipócritas ligações que os unem. A ironia, que segundo Patrick é a pior dependência de todas, é certeira na escrita de St Aubyn.
A acção, de forma similar a “Alguma Esperança/Leite Materno”, volta a passar-se em ambientes fechados. A gestão dos diálogos é soberba devido à capacidade do autor em criar ou manter a tensão e revelar particularidades psicológicas das personagens. A entrada e saída dos principais intervenientes de cena e os constantes “flashbacks” asseguram o dinamismo da narrativa. A partir dessas interacções, as memórias surgem e revelam ao leitor os traumas das personagens, em especial de Patrick. É através dessas recordações que, ao longo do “Ciclo Melrose”, Patrick vai assumindo o seu passado e ultrapassando os seus traumas. A gestão dos momentos de revelação, por parte de Edward St Aubyn é, mais uma vez, extraordinária. A utilização de metáforas, parábolas e da intertextualidade com obras literárias (“Porgy”, de DuBose Heyward, por exemplo), pintura (“Saturno devorando um filho”, de Goya) dotam as revelações de acutilância. São estratégias outrora utilizadas, com a mesma competência, em “Alguma Esperança” e Leite Materno”, onde as referências a “King Lear”, de Shakespeare, e “Bleak House”, de Dickens caracterizaram as relações entre personagens.
A menção a Saturno é particularmente relevante. A pintura de Francisco de Goya é violenta. Saturno, também conhecido por deus do tempo (Cronos), devora o seu filho. A figura grotesca e algo difusa de Saturno permite o realce do corpo melhor iluminado do filho e o sangue a escorrer pela boca devoradora.
É uma imagem metafórica. Para Patrick, a figura do seu pai era repugnante. Ele era grotesco com as crianças. Os abusos sexuais eram permanentes:
“ (...) como Patrick, também elas foram violadas e instigadas a um mundo subterrâneo de vergonha e sigilo, secundadas por ameaças coniventes de castigo e morte”
A passividade da mãe, que se recusava a confrontar a aberração comportamental do marido, afundava ainda mais Patrick numa depressão profunda.
A figura de Saturno (Cronos) é, noutra perspectiva, símbolo da voracidade do tempo. Para Patrick e para outras crianças, Cronos fez do passado e do presente um tempo só, voraz e ligado pelos traumas.
Segundo Anette, personagem de “Por Fim”, o sentido da vida é o impacto que fazemos nas outras pessoas. Para Patrick, “ a vida não é mais do que a história das coisas a que dedicamos a nossa atenção”.
A união entre a perspectiva de Anette e a de Patrick resulta no “Ciclo Melrose”. A teia de ligações e influências nefastas entre membros da família resultou em vidas destruídas e com muito para contar. A continuação de comportamentos doentios acontece por hereditariedade ou assimilação comportamental. Edward St Aubyn, a crer no biografismo, terminou com “Por Fim” a sua catarse. Ou não? Mesmo que o tenha feito, espera-se mais deste autor que, em 5 novelas, mostrou ter invulgar qualidade.
“Deixa Lá/Más Novas”, “Alguma Esperança/Leite Materno” e “Por Fim”, os três volumes publicados pela Sextante, são um elogio à literatura. A não perder.

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