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segunda-feira, 21 de setembro de 2015

"A liberdade do drible, "Dicionário Sentimental de Futebol" e "Quando a bola não entra"


A época futebolística também começou na literatura


http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=789146

Será possível conhecer a humanidade sem perceber a sua relação com o futebol? O próprio Albert Camus, Prémio Nobel da Literatura, afirmou: «Tudo o que aprendi sobre a natureza humana, aprendi-o com o futebol.» Desde as tribos que jogavam com a cabeça dos inimigos até à introdução de um "chip" na bola, o futebol tem sido o espelho da evolução do homem desde o princípio da memória colectiva. A narração dessa história, e consequente registo, tem pertencido aos jornalistas desportivos. É através da narrativa que os mais velhos passam aos mais novos os fenómenos ocorridos nas catedrais do desporto-rei. Os feitos dos heróis acontecem no campo e prolongam-se anos e anos na memória dos mais velhos e na imaginação dos mais novos. E isso deve-se a textos como os de Dinis Machado, Rui Miguel Tovar e Nelson Nunes.
Num curto espaço de tempo, foram publicados “A Liberdade do Drible” (Quetzal), de Dinis Machado, “Dicionário Sentimental de Futebol” (Quetzal), de Rui Miguel Tovar, e “Quando a Bola não Entra” (Ideia-Fixa), de Nelson Nunes.
Em registos diferentes, os três livros são complementares nas diferentes perspectivas que oferecem. E todos fomentam a mitologia futebolística
Dinis Machado é um exemplo de como as crónicas sobre futebol podem ter características literárias. “Liberdade do Drible” é a compilação de vinte e três textos publicados na “Bola Magazine”, no “Guia da Semana”, no “Tal & Qual”, em “O Jornal” e, principalmente, no jornal “A Bola”.
Marta Navarro, no prefácio, tem uma visão nada preconceituosa e muito honesta intelectualmente quando realça a importância do futebol “como entretenimento e campo de reflexão e especulação, e forma de se ir enfrentando o desafio e o mistério da convivência com a própria condição humana.”
Nas crónicas, Dinis Machado revisita a infância e as peladinhas com cascas de laranja, analisa a evolução das tácticas, o futebol como arte, a diferença entre o escritor e colunista, e a sociedade.
“Quando combinarmos tudo melhor, em tempos inescrutáveis, talvez a Humanidade seja uma boa equipa. Este é o grande jogo, arquitectado de muitos jogadores secundários. Adiar a utopia é adiar a nossa existência. É adiar tudo”
A linguagem também é assunto sobre o qual Dinis Machado incide a sua atenção. “A voz do peão”, como o autor lhe chama, é fonte de renovação semântica e lexical. Nessa voz está a origem de renovação lexical e semântica: 
“Jogar no miolo”, “arrancar o jogador pela raiz”, meter a bola “onde a coruja dorme”, “toque de letra”, “carrinho” são alguns de muitos exemplos da renovação presente na “voz do peão” (ou adepto). Essa riqueza lexical faz recordar um grande cronista brasileiro: Nelson Rodrigues. Em “À sombra das chuteiras imortais”, o cronista brasileiro afirma que “retire-se a pornografia do futebol e nenhum jogo será possível. Como jogar ou como torcer se não podemos xingar ninguém? O craque ou o torcedor é um Bocage. Não o Bocage fidedigno, que nunca existiu. Para mim, o verdadeiro Bocage é o falso, isto é, o Bocage de anedota. Pois bem: - está para nascer um jogador ou um torcedor que não seja bocagiano”
Rui Miguel Tovar consegue aliar a “voz do peão” a um registo textual mais cuidado e menos pornográfico. Sem cair na vulgaridade, Rui Miguel Tovar escreveu um livro indispensável para quem gosta de futebol e muito aconselhável para quem “não vai à bola”: “Dicionário Sentimental de Futebol” tem as histórias mais mirabolantes, bem contadas e divertidas sobre os intervenientes neste jogo tão cativante.
De A para Z, o leitor poderá saber ou recordar histórias maravilhosas sobre jogadores, botas, bigodes, pernas tortas, prostitutas, golos e mais golos e ainda “frangos”.
Sem vício clubístico, Rui Miguel Tovar contagia o leitor com a sua paixão pelo futebol. Os vastos conhecimentos do jornalista aliados ao domínio da linguagem de bancada dotam este livro com hilaridade, ternura, drama e magia. É inevitável ler e reler muitas entradas deste dicionário.
“Dicionário Sentimental de Futebol” consegue abranger desde acontecimentos que poucos devem saber (sabia que Mourinho fez um “hat-trick” pelo Belenenses quando era treinado pelo seu pai? E que Fernando Martins, presidente do Benfica, simulou um ataque cardíaco para poder contratar Eriksson?) até aos mais célebres, como a agressão de um Cantona a um espectador.
Eric Cantona, jogador Manchester United, praticou artes marciais durante um jogo com um espectador que o irritava. Foi alvo de inquérito disciplinar e suspenso. Chamado a retratar-se perante a Comissão de Inquérito, o futebolista francês disse o seguinte:
“Quero pedir desculpa ao Manchester United, a Maurice Watkins [director do clube] e a Alex Ferguson. Também quero pedir desculpa aos meus companheiros e à federação. E ainda à prostituta que partilhou a minha cama ontem à noite.”
Lev Yashin, lendário guarda-redes russo, também teve os seus dias mais complicados. No primeiro jogo que fez pelo Dínamo de Kiev (equipa do KGB) deu um “frango”. Resultado: foi castigado com dois anos na equipa de reservas. Durante esse tempo aproveitou para ser campeão nacional em… hóquei-no-gelo. Quando voltou a ter uma oportunidade, agarrou-a. Defendeu mais de 100 penaltis durante a sua carreira. Consta que berrava com os seus defesas ao ponto de a sua esposa lhe ter pedido para ele ter pena deles.
“Dicionário Sentimental de Futebol” é uma visita guiada aos bastidores do futebol, uma agradável rememoração e um testemunho sobre muito do que a actual geração de fãs ainda não sabe. Um livro de um “craque” do jornalismo desportivo sobre artistas da bola.
Cantona, Yashin, Maradona, Cristiano Ronaldo chegaram ao topo do futebol mundial. Pelo caminho ficaram milhares e milhares de futebolistas que ansiavam pelo mesmo. Nesses milhares, há aqueles jogadores que quase chegaram a um grande clube, mas por diversas razões não conseguiram. A bola foi ao poste, passou por cima da linha e não entrou.
Nelson Nunes escreveu sobre o “quase”, essa zona cinzenta antes da glória. “Quando a Bola Não Entra”, com prefácio de Fernando Santos (Selecionador Nacional), devia ser lido pelos pais de todos os meninos que começam a sonhar fora dos baldios e dentro de um campo de futebol. O ideal seria que o pai lesse duas a três páginas ao seu pequeno futebolista antes de cada treino.
O trajecto até à consagração é árduo, cheio de armadilhas e finalizado por poucos.
Nelson Nunes apresenta ao leitor as histórias de Edgar Marcelino (formado no Sporting), Fábio Marques (formado no Belenenses e Atlético de Madrid), Vítor Afonso (formado no Casa Pia e União da Madeira), Marco Bicho (formado no Marítimo e Barreirense), Gonçalo Gonçalves (formado no Benfica e Belenenses), Rebelo (jogou 13 anos no Estrela da Amadora), Pepa (formado no Benfica), Tininho (jogou no Beira-Mar, West Bromwich, Belenenses) e Vasco Durão (formado no Sporting).
Provavelmente o leitor lembra-se vagamente de alguns nomes e de outros não tem qualquer recordação. Isso deve-se a os jogadores mencionados não terem conseguido criar uma impressão tão forte nos relvados que levasse o amante do futebol a recordá-los. No relvado não conseguiram, mas os seus depoimentos em “Quando a Bola Não Entra” podem ser pedagógicos e marcantes para muitos futebolistas.
Lesões graves, empresários gatunos, clubes desonestos, imaturidade. Depois, sofrem as consequências de uma (falsa) profissionalização, muitas vezes consagrada com pouco mais do que o ordenado mínimo, que impediu a finalização dos estudos académicos.
São várias as razões apontadas nas conversas entre os jogadores e Nelson Nunes.
Edgar Marcelino e Pepa são os casos mais famosos depois do paradigmático Fábio Paim, ex-uma-dezena-de-clubes.
O jogador formado no Sporting pertenceu à geração de Quaresma, Hugo Viana, Silvestre Varela, Nani. E de Cristiano Ronaldo. Era um dos mais promissores médios ofensivos do Sporting. Um conjunto de decisões erradas, a desonestidade de dirigentes e a imaturidade empurraram-no para o esquecimento.
“Reconhecendo que, fruto da verde idade, estava empedernido sem razões, Marcelino confessa o primeiro erro da sua carreira: «Achei que tinha um estatuto que, na realidade, não tinha»”. Quando não foi por sua responsabilidade, algo falhou no lado do clube contratante: “Em toda a minha carreira, foram mais os clubes a quem coloquei processos na FIFA do que aqueles que me pagaram”
Pepa foi jogador do Benfica. No primeiro jogo e na primeira vez que toca na bola marca um golo pela equipa sénior do Benfica, em pleno Estádio da Luz. Foi o delírio para o jogador e para os adeptos. No entanto, o jogador afirma que preferia não ter marcado esse golo: “Contribuiu para muitas palhaçadas que fiz e erros que eu cometi”
Um dos erros foi a vida indisciplinada. Pepa, entretanto emprestado ao Lierse (Bélgica), “só queria era noite e boîtes e mulheres. Continuava com a mesma vida que andava a ter em Portugal”.
Quando rescinde com o Benfica, juntamente com Jorge Ribeiro e Rui Baião, um empresário levou-os para o Varzim com a promessa de uma possibilidade de se transferirem para o FC Porto. Tal não se cumpriu.
“A minha leitura disto, estes anos mais tarde, é que um jogador que fique no mesmo clube durante dez anos não tem qualquer interesse para o empresário. Mas se andar daqui para ali, ficar livre, fizer um bom ano numa equipa e depois houver outro clube que o queira, isso para o empresário é o melhor que há.”
A evolução do futebolista é secundária em relação às comissões do empresário.
“Quando a Bola Não Entra”, ou o fim do sonho. Olhar para trás, num diagnóstico doloroso de erros próprios e alheios.
A infância, o sonho, a memória e a desilusão. Três livros, três autores, três visões em registos diferentes. A época futebolística começa com grande qualidade.

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