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quinta-feira, 17 de setembro de 2015

"Meursault, contra-investigação" (Teodolito), de Kamel Daoud


«Meursault, contra-investigação»: nomear o outro


http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=788153
O que é a verdade? Cada acto pode ser analisado por diversas perspectivas; cada versão pode ser diferente. E será uma só a verdadeira? Não, como demonstram as teorias adjacentes à possibilidade de Mundos Paralelos ou Possíveis, tanto na Física como na Teoria da Literatura. Kamel Daoud (Mostaganem; 1970) escreveu “Meursault, contra-investigação” (Teodolito) com o objectivo de dar a conhecer uma outra versão da história contada por Meursault, personagem criada por Albert Camus, em “O Estrangeiro”.
Moussa. O nome do assassinado é Moussa. E é o seu irmão que nos conta a história daquela tarde em que Moussa leva 4 tiros, à beira-mar em Orão (Argélia), e de tudo o que se passou depois. Mas desta vez conta a história pelo lado esquecido a um interlocutor incógnito num bar dessa cidade do litoral argelino.
Ao “árabe” de Camus é dado um nome. A personalidade de um homem tem o nome como elemento essencial. A despersonalização na obra de Camus existe também no rotular do homem através da raça, credo ou nacionalidade. Sem nome, os homens são “objectos vagos e incongruentes, vindos do antigamente”, como escreveu Daoud. De outra forma tudo seria diferente, pois “Não se mata facilmente um homem quando ele tem um nome”.
O facto de Moussa ser a representação do colonizado dá maior ênfase à distância não percorrida entre o pensamento de Meursault e a dignidade do “árabe”.
A metáfora é evidente e denota as cicatrizes da (des) colonização demasiado recente.
Quando as pessoas do bairro onde viviam Haroun, irmão de Moussa, e a mãe mostraram uma foto de Meursault, num jornal, Haroun diz que “para nós ele era a incarnação de todos os colonos tornados obesos depois de tantas colheitas roubadas”
A complexidade da história é compreendida pelo narrador. Ele sabe que não se pode emancipar da influência do colonizador (França). Haroun percebe que a cultura anterior à colonização é, também, a sua história e que a nova identidade passa pela assimilação da cultura recebida por imposição. O irmão de Moussa pega nas ruínas deixadas e aprende a expressão máxima da sua cultura para poder contar esta história: A língua (outrora ele falava francês).
Essa assimilação cultural tem os seus custos:
“Uma língua bebe-se e fala-se, e um dia ela possui-nos; então, ganha o hábito de agarrar nas coisas em vez de nós, apodera-se da boca como faz o casal no beijo voraz”
No entanto, ele sabe, antecipadamente, que não domina, como Camus, a capacidade narrativa para levar o leitor a assumir, como canónica, a sua verdade. A cultura não se faz dominante somente pelo poderio económico, ou militar; concretiza-se pela capacidade de narrar uma versão dos acontecimentos. E em qualquer história existe tensão entre facto e recriação. É o que acontece nesta obra de Kamel Daoud. Essa tensão emana de o corpo do morto não aparecer, de Moussa ser um nome representativo de uma situação (colonizado) e do facto de a sua história nunca ter sido contada.
Quando lia para a mãe, que não sabia francês, as poucas linhas da notícia do assassinato do irmão, Haroun preenchia os muitos espaços vazios:
“A Mamã teve direito a toda a reconstituição imaginária do crime, a cor do céu, as circunstâncias, as réplicas entre a vítima e o seu assassino, a atmosfera do tribunal, as hipóteses dos polícias, as astúcias do proxeneta e de outras testemunhas, a defesa dos advogados…”
Mas talvez a ideia de Kamel Daoud tenha sido (também) outra: o não aparecimento do corpo é a antítese do aparecimento de Meursault nos jornais. Um existe factualmente e entra na história de uma época; o outro é “invisível”, silencioso, um mero objecto utilitário. Tal qual o 6ª feira de “Robinson Crusoe”. O livro de Daniel Defoe foi sujeito a uma reinterpretação por JM Coetzee em “Foe”. A mesma ideia foi utilizada por Kamel Daoud em “Meursault, contra-investigação”.
A obra de Daoud ganha e muito se o leitor ler/reler “O Estrangeiro”, de Albert Camus. No entanto, o autor nascido em Mostaganem (cidade argelina no noroeste do país) tem o cuidado de providenciar as devidas contextualizações ao leitor, dando, desta forma, algumas bases para a leitura da sua obra.
A reinterpretação da obra de Camus é um dos aspectos em que o livro de Kamel Daoud se destaca. O autor é, em primeiro lugar, um leitor. Há uma dupla recriação: uma na leitura e outra na (re) escrita. A tradução do livro do jornalista e escritor Kamel Daoud foi feita por Inês Pedrosa, também jornalista e escritora. Refira-se a utilidade das notas de rodapé. São esclarecedoras de alguns aspectos menos acessíveis ao leitor.
“Meursault, contra-investigação” é uma inteligente interpretação dos “vícios” colonialistas presentes em “O Estrangeiro”, embora na obra de Camus o tema da alteridade na ligação com o Outro seja muito secundário em relação ao Absurdo. (ver texto sobre “O Estrangeiro”). Kamel Daoud utiliza a relação entre França e a Argélia para, de forma ficcional, abordar um tema tão estudado por Said, Fanon e Mbembe (entre outros): o binómio colonizador-colonizado, contextualizado pelos estudos do pós-colonialismo. Da mesma forma que o Nobel Coetzee, o autor argelino utiliza a ficção para o leitor compreender melhor a realidade. Consegue fazê-lo com distinção.

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