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quarta-feira, 28 de outubro de 2015

"Flores" (Companhia das Letras), de Afonso Cruz



O cáustico e amargurado Afonso Cruz


http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=792757

Afonso Cruz (n.1971) tem várias facetas. Não me refiro à tão mencionada capacidade musical (“Soaked Lamb”), nem à produção de cerveja ou ao talento fotográfico. Penso somente nos livros do autor nascido na Figueira da Foz. A diversificação da sua produção literária dá a conhecer, tal como o espelho do narrador de “Flores” (Companhia das Letras), um homem complexo. No seu novo romance, o autor utilizou dolorosas experiências pessoais, o amor pela música e a realidade.
O narrador de “Flores” é um homem apático, dominado pela rotina, infiel e insensível às tragédias. As mortes num país estrangeiro são menos constrangedoras do que o seu chapéu desarrumado, ou de que lhe terem comido a última fatia da torrada. Em contraponto, o sr. Ulme (vizinho) não tem o filtro da distância e, em consequência, sofre com essas notícias. A ligação entre os dois indivíduos acontece quando o narrador tenta ajudar o Sr. Ulme a recuperar as recordações que formaram a sua identidade. Não o faz ingenuamente:
“Como não conseguia resolver a minha vida, decidi continuar a recuperar a do senhor Ulme”
Começa então a pesquisar o passado de Ulme. Recolhe depoimentos de quem o conhece, reconstrói acontecimentos da juventude, conhece paixões antigas. Sempre com o objectivo de responder a uma pergunta: Quem é Ulme?
Ulme sofre de uma doença degenerativa que lhe afecta o cérebro. Ele perdeu as memórias afectivas e lentamente vai perdendo a capacidade de comunicar. De acordo com Afonso Cruz, em entrevista à revista Visão, a doença de Ulme é muito mais do que um elemento ficcional:
“A minha mãe morreu com uma doença degenerativa igualzinha à do senhor Ulme, e há aqui uma espécie de purga quando se fala nestas coisas”
Com o decorrer da investigação, percebe-se que o reflexo dado pelas pessoas é incoerente. O seu vizinho Ulme não é a pessoa de quem falam. As perspectivas são plurais e díspares. Sem o património existente no passado, acessível através da memória, a identidade é posta em causa. O homem que ele conhece foi aquele Ulme, mas já não é.
Afonso Cruz utiliza esse “jogo de espelhos” também com o narrador, mas de uma forma diferente.
Numa das presenças no festival literário “Correntes d`Escritas”, o autor sublinhou a sua admiração por um livro de Luigi Pirandello: “Um, ninguém e cem mil”.
Vitangelo Moscarda, personagem principal da última obra de Pirandello, olha-se ao espelho e percebe que o seu nariz pende para o lado direito. O que para ele é uma revelação, para a sua mulher é uma constatação feita há muito tempo. Neste jogo de intertextualidade vem à memória um outro título de Pirandello (“Ele foi Mattia Pascal”), que poderia ser adaptado a este romance: “Ele foi Manuel Ulme”.
É a partir desta ideia que Afonso Cruz vai montando o mosaico referente à personalidade do narrador. O diálogo deste personagem frente ao espelho é constante; a nomeação do seu reflexo altera-se conforme o humor. Ele conversa com o seu reflexo…mas a figura que interpela não é sempre a mesma. Ele observa várias das suas versões. Olha para si para se conhecer; idealiza-se. E está tão perdido em si mesmo que não vê o sofrimento da sua mulher.
Entre o casal já não há desejo, nem comunicação. “Toco levemente os lábios dela e sabe-me a rotina, às finanças, ao barulho da máquina de lavar roupa”. E o casamento vai sendo destruído.
Na fundação deste personagem está a antítese de uma ideia presente em “O pintor debaixo do lava-loiças”. Nesta obra, a senhora Sors afirma:
“Eu, quando olho para as coisas quero que elas me sejam familiares, como o meu tio e o meu marido, como o pão que se come às refeições. Quero deitar-me sempre com o mesmo homem, com os mesmos lábios” 
As diferenças entre este livro e os anteriores são ainda mais profundas.
Em “Flores”, Afonso Cruz surpreende com alterações tanto estilísticas como estruturais. Ao contrário de romances antecedentes, este não é ilustrado. Só em “Jesus Cristo bebia cerveja” tal havia acontecido. Ainda mais importante é a alteração de voz narrativa e do tom menos “doce” da prosa. “Flores” é narrado por um homem infiel, anestesiado pela rotina e centrado em si próprio. É narrado na 1ª pessoa, enquanto todos os outros foram narrados na 3ª.
Outra mudança relevante é a quase ausência de aforismos. A capacidade do autor para construir aforismos tem sido evidente ao longo dos seus livros. As Enciclopédias são um exemplo disso. Nos romances, saliente-se a última parte de “Para onde vão os guarda-chuvas”. É uma compilação de aforismos. Em “Flores”, os aforismos existem em menor número, mas há um que serve de mantra para Manuel Ulme: “Entremos mais dentro na espessura”. Essa parece ser, também, a intenção de Afonso Cruz ao longo da história e da evolução das personagens.
Descobrir as histórias de Manuel Ulme é descobrir a identidade. Um homem é feito de histórias. Em “Os livros que devoraram o meu pai”, o leitor pode encontrar essa ideia matriz na obra de Afonso Cruz:
“Porque nós somos feitos de histórias, não é de a-dê-énes e códigos genéticos, nem de carne e músculos e pele e cérebros. É de histórias”
Manuel Ulme é, como qualquer ser humano, uma boneca de Kokoschka. Entrar mais dentro da espessura é descobrir os vários tempos e as várias histórias que o compõem. É nessas histórias, principalmente nas de Margarida Flores, que Afonso Cruz revela os enigmas e demonstra o seu amor pela música. 
A música aproxima, a música redime. É através do som que o ser humano se transporta no tempo e no espaço. A música permite estar fisicamente num lado, mas mentalmente noutro. E é a música que possibilita a redenção do narrador com o presente e, dentro do credível, a de Manuel Ulme com o passado. As flores têm neste romance a mesma importância. Elas simbolizam momentos dramáticos (funeral) ou alegres (encontros amorosos). E é o nome da personagem que virá a ser decisiva: Margarida Flores
A construção das personagens faz-se, estrategicamente, através do contraste. Assim como o exponenciar do humor e do drama. Afonso Cruz faz transitar personagens entre livros. O padre de “Jesus Cristo bebia cerveja” aparece em “Flores” (a acção também se passa no Alentejo), assim como o editor Isaac Dresner, de “A boneca de Kokoschka”. Para as conhecer o mais possível, o leitor tem de conhecer as circunstâncias em que elas interagem. Ou seja, tem de as observar em todas as possibilidades literárias. É através da introspecção e da interação com o Outro que elas se dão a conhecer.
A intertextualidade acontece em dois níveis: um em círculo mais fechado e que se concentra na obra do autor; outro em círculo mais aberto, em que as palavras de outros escritores são chamadas a acrescentar sentido ou mesmo a fundamentar a criação de ambientes, acontecimentos e personagens.
Há mudanças, mas o escritor mantém ideias que dão coerência à sua obra. A consciência de que a identidade está dependente da memória e a sempre iminente possibilidade de redenção são temas transversais nas histórias de Afonso Cruz.
Em “Flores”, Afonso Cruz é mais cáustico e amargurado do que foi em “A boneca de Kokoschka”, “O pintor debaixo do lava-loiças” ou em “Para onde vão os guarda-chuvas”. A doçura existe, mas está eivada pela frustração e azedume, pela banalização do mal e pela desvalorização das grandes questões sociais.
É preciso ir entrando mais dentro da espessura para se compreender um autor com tanto humanismo, complexidade e qualidade como Afonso Cruz. É essencial lê-lo.

1 comentário:

Patrícia C. disse...

Olá Mário,
Acabei ontem de ler o Flores e adorei. Ainda não tinha "perdoado" ao escritor o final dos Guarda Chuvas mas este Flores venceu-me. Já é o meu livro do Ano. Para além de ter uma escrita deliciosa (o que já não é novidade, claro, afinal é do Afonso Cruz) atingiu-me de uma forma muito pessoal.
Boas leituras
Pat

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