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quinta-feira, 5 de novembro de 2015

"O Voo Noturno das Galinhas" (Nova Delphi), de Leila Guenther



Os instantâneos de vidas de Leila Guenther


http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=793219

A editora Nova Delphi, responsável pelo Festival Literário da Madeira, apostou numa autora ainda desconhecida em Portugal. A aposta foi ganha. Leila Guenther (n.1976; Santa Catarina, Brasil) participou em várias antologias e publicou dois livros de contos. O seu primeiro livro - “O voo noturno das galinhas” (Nova Delphi) - já havia sido publicado no Brasil (2002) e traduzido para espanhol, pela Borrador Editores, em 2010. “70 Poemas para Adorno”, editado pela Nova Delphi, também contou com a sua colaboração.
Nas narrativas de “O voo noturno das galinhas” algo acontece, mas não se percebe o quê. A leitura continua fluida, aprazível, mas há algo que perturba. Chega-se à terceira ou quarta narrativa breve com a sensação de que algo estranho se passou; algo que não se conseguiu identificar. E volta-se atrás. Relê-se. Recorda-se. Liga-se as informações. E surge a surpresa.
“O voo noturno das galinhas” é um sonho inquieto, em “flashes”, e perturbador.
A autora escreve sobre o quotidiano e aponta as fissuras da realidade.
“O outro mundo de Clarissa”, em que é revelada a influência de outros autores  (Erico Veríssimo, neste caso), marca o tom do livro:
“Sua vida era comum, com as atividades das garotas de sua idade: estudos, afazeres domésticos (…) não havia aventuras nem nada de extraordinário. No entanto, pela primeira vez, reparei no que não acontecia, pensando com assombro se essa menina e esse lugar de fato existiam”
Longe vão os tempos normativos de Propp, em que à causalidade se sucediam efeitos articulados e previstos. As narrativas breves de “O voo noturno das galinhas” diferenciam-se dos contos estruturalistas. Leila Guenther regista instantâneos de vidas em que as brechas nos hábitos são potenciadas pela rotina.
O ambiente onírico em que as personagens são envolvidas deixa tudo em aberto. A própria descrição minimalista da cenografia adensa esse onirismo.
“Na noite daquela crise, quando o meu corpo caminhava em direção à janela, vi uma paisagem nova.”
Sem causa e consequência, os momentos narrados pela autora brasileira deixam, por vezes, o tempo e o lugar em suspenso. A simplicidade das narrativas é uma armadilha. Há um subtexto fortíssimo, como uma corrente interior que tudo arrasta apesar da falsa placidez oferecida por uma primeira leitura. A autora optou, com muito sucesso, pela subtileza e sugestão, deixando o campo de interpretação o mais largo possível.
São 33 textos sobre encontros, desencontros, rupturas e conciliações; 33 feridas expostas ao leitor num livro que rejeita o facilitismo, o adorno ou mesmo a preguiça do leitor.
“Diferente é ser um ferimento: toda ela doía ao mais leve contato da vida”
Nada é ostensivo, tudo está latente. A leitura tem de ser muito mais do que superficial. E vale bem o tempo.

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