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segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

Entrevista a Leonardo Padura



Leonardo Padura: «Sem heresia não há desenvolvimento»



Leonardo Padura é um homem calmo. Quem passar por ele, sem o reconhecer como um dos maiores escritores cubanos, não percebe que ele é, também, um homem com alma de revolucionário. Alma talvez não seja a palavra adequada para o autor de «Hereges» (Porto Editora), que se considera agnóstico.

Em “O homem que gostava de cães” (Porto Editora), o seu anterior e consagrado romance, Leonardo Padura concentrou-se nas figuras de Mercader e Trótski. Agora, com “Hereges”, o escritor cubano incide a sua atenção e pesquisa sobre uma família judia, um quadro de Rembrandt, uma menina rebelde e, mais uma vez, sobre o conhecido ex-polícia Mário Conde.
Leonardo Padura veio de Cuba, país de residência, para participar nas Correntes d`Escritas (Póvoa de Varzim).
“Hereges” é composto por “Livro de Daniel”, “Livro de Elías”, Livro de Judith” e “Génesis” e é dificilmente catalogável; pode ser considerado um policial, um livro histórico, ou a simbiose dos dois.
A família Kaminsky, composta por judeus, tenta desembarcar do navio S.S. Saint Louis em Havana no ano de 1939. A proibição levá-los-á aos campos de concentração alemães. Detem, em segredo, uma pequena tela de Rembrandt. É o seu tesouro.
Essa tela será a ligação entre as 4 partes de “Hereges”. O intrépido Mário Conde irá investigar o rasto da pintura de Rembrandt.
“Hereges” é uma demanda por um quadro, pela identidade, pela liberdade.
O significado de hereges (palavra) difere muito ao longo dos séculos. Hoje, tem - na Europa- um sentido negativo. Qual é o sentido de “herege” neste romance?Eu creio que a heresia é uma atitude humana bastante frequente. Por vezes, não chega ao extremo de se pôr numa novela “física”, mas muitas se colocam nas novelas sociais. As atitudes que a comunidade, grupo, ou a sociedade consideram não serem as politicamente correctas podem levar a um extremo e produzirem estes desencontros que são catalogados de heresia.

“Hereges” é um exercício literário sobre a identidade?É sobre a liberdade, embora tenha a ver com a identidade, com a busca de uma pertença. A procura de liberdade percorre toda a novela através de épocas históricas distintas e personagens muito diferentes, que também enfrentam um conflito de identidade.
O judeu sefardita, que trata de adaptar-se a esta sociedade completamente diferente em Amsterdão no século XVII, um judeu polaco asquenaze que trata de fazer-se cubano como uma forma de reafirmação da sua personalidade e de resolução de seus conflitos existenciais, e uma jovem cubana que trata de afastar-se da norma que, socialmente, se considera a mais correcta para criar o seu próprio território, sua própria identidade, dentro de um grupo que tem um comportamento completamente alternativo.
Na Mesa [“A literatura é um poço de liberdades”] falou sobre a mudança social em Cuba. Há, agora, uma maior amplitude…A sociedade cubana foi se dilatando social e economicamente. Neste momento, de forma relativa, há gente muito pobre e gente que enriqueceu. Isto é uma situação socioeconómico completamente diferente da que se vivia nos anos 80 em que havia homogeneidade em Cuba e em que, talvez sendo todos mais pobres, éramos todos mais iguais. Isso vai desaparecendo.
Hoje, estamos numa época de transição do Castrismo para algo ainda indefinido. Haverá uma crise de identidade em Cuba (entre os cubanos)?Eu creio que esta crise de identidade que está ocorrendo é quase universal. Cuba é uma cultura muito jovem; Cuba, como país, tem duzentos anos de existência. Era uma colónia espanhola onde havia espanhóis brancos, africanos negros, alguns crioulos com incipiente apego à realidade cubana, mas a partir daí é que começa a fundação cubana. Quer isto dizer que é uma sociedade que está em evolução.
Nos anos em que [a sociedade] esteve muito perto dos Estados Unidos, a influência foi muito grande. Depois da independência, chegou uma grande quantidade de imigrantes espanhóis a Cuba. Essa presença espanhola foi muito importante.
Eu falo aqui [em “Hereges”] dos judeus. Numa outra novela falo dos chineses na sua relação com a sociedade cubana. Tem sido uma formação de identidade que tem estado em constante movimento, em constante evolução. Assim sendo, creio que a entrada de outras alternativas tem que ver com esta pós-modernidade que se vive a nível universal. É um processo natural e previsível.
Há paralelismo entre os judeus, no sentido em que procuram uma Jerusalém, e os cubanos na construção de um país, de um novo pensamento?A minha geração educou-se num ambiente de grande ortodoxia política. O que era correcto estava muito claramente estabelecido. Foi uma geração que acreditou, mas que também se viu obrigada a acreditar, no sentido social. Agora, [esta geração] crê muito menos e busca suas próprias alternativas de distintas maneiras: uns dentro de Cuba, outros saindo de Cuba porque o factor económico tem um peso muito grande e, também, por causa da informação. Nos anos 80, éramos uma sociedade muito fechada e com muitas referências do mundo socialista que nos rodeava. O mundo capitalista era muito nebuloso e muito afastado. Hoje em dia, com todos os instrumentos que a modernidade criou para a comunicação e para a relação entre as pessoas, transformou-se. Apesar de, por exemplo, a internet em Cuba ser muito complicada, eu me assombro com a quantidade de gente que tem página no facebook. Agora, há uma “instituição” que se chama “El Paquete”, que vende séries, filmes, programas humorísticos, propaganda… Há pessoas que conseguem toda esta informação, organizam-na, depois esse paquete sai pela cidade a vendê-la. Se no domingo, nos Estados Unidos, se vê o último episódio de “Homeland”, na 2ª feira à noite vemo-la em Havana.
É muito difícil haver um cerco ideológico tão fechado como havia noutras épocas.
Pepe Cartera não casa com Caridad por causa de terem religiões antagónicas. Ele respeita a dela e não lhe pede para mudar e também não muda a sua.
A religião separa mais do que une?O tema da religião é muito visceral para mim. Penso que Marx tinha razão quando, num momento, disse que a religião era o ópio do povo. Eu nem sequer sou ateu; sou agnóstico. Cresci numa casa onde minha mãe era católica, meu pai era maçom, havia um altar de “Virgen de la Caridad del Cobre”, que é a patrona de Cuba, e havia Santa Bárbara, São Lázaro… Aí fomos criados, o meu irmão e eu, mas no final penso que não fui convertido para nenhuma religião.
Respeito as pessoas que têm crenças religiosas e inclusivamente as admiro porque têm algo a que agarrar-se, algo que me falta.
Tenho um bom amigo, católico, que tem um grande sentido do que é desfrutar a vida. E ele sempre disse: “Tu devias crer, porque quando alguém crê se dá conta de que está encontrando uma razão para viver, mas sobretudo está encontrando uma razão para quando morre. Isto que estamos vivendo é o princípio. Cremos que depois vamos desfrutar muito mais.”
Mas quando a religião se converte num instrumento de negação do outro, que crê às vezes no mesmo Deus, ou se converte numa agressão ou repressão, parece-me que é absolutamente uma deformação do que deveria ser o princípio fundamental da convivência humana: o direito de cada um em crer ou não crer.
Nas páginas finais de “Hereges”, eu digo que um homem devia ter o direito de crer ou não crer. Quando as religiões se convertem em defesa ortodoxa e agressiva, aí parece-me que perdeu todo o sentido.
É por isso que pretendeu captar a Humanidade em detrimento da mistificação? (de igual modo a Rembrandt)Das religiões interessa-me a humanidade que pode haver nelas.
O mais importante da cultura ocidental é a Bíblia, evidentemente. É o texto fundador de toda uma consciência cultural em que vivem todos os ocidentais. Parece-me um livro maravilhoso, mas quando se converte num regulamento, como é para os judeus e para os cristãos, limita o sentido de algo que propõe a própria Bíblia: o livre arbítrio do homem.
Na sua relação com a transcendência, substituiu a religião pela arte?
Isso é muito difícil. Eu não sei se transcenderei, mas quando chegas ao Museu Real de Arte, em Rijksmuseum, e vês uma sala dominada por “A Ronda Nocturna”, de Rembrandt, dás conta da transcendência da arte; dás conta de que é um valor eterno contra o qual ninguém pode lutar. A grande arte é transcendente e é capaz de transmitir, através dos séculos, todo um sentimento humano e a relação do homem com a sua sociedade. Por isso é que as tragédias gregas continuam a ser representadas e nós continuamos a vê-las. Através da arte logrou-se expressar a incerteza do homem no mundo. Na própria Bíblia existe esse mesmo princípio. A Bíblia é uma grande obra literária que tem uma leitura religiosa, filosófica, mas também pode ter uma leitura narrativa e humanista.
Montou uma estrutura complexa em “Hereges”, com 4 partes. Por que optou por essas quatro variações?Pareceu-me que era possível desenvolver cada história com sua própria estrutura dramática. É um romance composto por vários romances [ou novelas] cuja sucessão transmite uma mensagem única, uma unidade, apesar da diversidade. Por isso tratei de construir cada história com o seu princípio, desenvolvimento e conclusão, fechando-a em si mesma. Deixei um elo para chegar à outra [novela] e assim sucessivamente até chegar ao final, esta 4ª parte que é “Génesis”. Há um elo visível e material, que é esse pequeno quadro de Rembrandt com o retracto de um judeu em que o pintor busca a humanidade de Cristo, e há um conceptual, que é a procura da liberdade pelo indivíduo. Esses dois elos vão até ao fim da obra e unem-na em um todo.
Quando Mário Conde fala com a avó de Judy, ela afirma que Judy poderá ter sido prejudicada por saltar etapas; Judy amadureceu muito depressa devido às suas leituras. É possível que a leitura de alguns livros, para os quais o leitor ainda não tem maturidade, possa ser prejudicial?Há alguns dias vi na televisão, por pura casualidade, as declarações do realizador chileno de cinema [Pablo Larraín com “El Club”], que ganhou o Urso de Prata em Berlim. Ele dizia que há ocasiões em que a sociedade e os governos consideram que há filmes que são perigosos.
Perigosas são as armas! O filme não mata ninguém. O filme não agride ninguém. Quando um governo os considera perigosos é porque os filmes tocaram na essência da sociedade que esse governo tinha preferido não ver tocada. Em geral, a arte tem um certo carácter subversivo e revolucionador da mente sobretudo quando não é de entretenimento e tem uma intenção filosófica, humanista, cultural profunda. Nenhum livro derrota um governo, mas pode transformar um indivíduo. Há muitos casos em que a cultura, o consumo de literatura e do cinema faz ver a realidade de forma distinta. Isto é, justamente, uma das funções da arte: ajudar o homem a ver a sua realidade de uma forma mais clara, mais diáfana, mais compreensiva.

A Heresia/rebeldia é essencial à evolução social?Sim, sem heresia não teria havido o desenvolvimento da Humanidade. Se aceitamos os cânones das ortodoxias de forma absolutamente obediente, o homem não se desenvolve. No final, de uma forma ou de outra, todas as pessoas que revolucionaram a sociedade, tanto na ciência como na cultura ou na política, eram, de certa forma, hereges. Galileu foi considerado um herege. Cervantes foi um herege. O que ele fez foi liquidar a literatura medieval, “roubando-a”. Pegou no romance de cavalaria e criou o género moderno de Romance. Como esse exemplo, podemos encontrar muitos. O próprio Rembrandt foi herege, como pintor. 
Sem heresia não há desenvolvimento.

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