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quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

“Imunidade: a corrente antivacinação e os seus perigos”, de Eula Biss



Eula Biss (1977; EUA), professora na Northwestern University, tem assistido ao crescimento da corrente antivacinação. Quando engravidou, decidiu estudar os benefícios e os malefícios da vacinação. Desse estudo surgiu “Imunidade: a corrente antivacinação e os seus perigos” (Elsinore), finalista do National Book Critics Circle Award.


Desde Maio de 2014, a vacina antimeningocócica tipo B (Bexsero) causou “70 casos de suspeitas de reacções adversas”, segundo os registos da Autoridade Nacional do Medicamento, em Portugal. Desses 70 casos, 36 apresentaram-se como suspeitas graves.
Perceber que algo criado para proteger o ser humano pode ter o efeito contrário semeia o medo. Se pensarmos como pais de uma criança, então o medo toma proporções muito maiores. Em Portugal, o movimento antivacinação não tem a expressão que atingiu nos Estados Unidos da América, onde há cada vez mais pessoas a não querer que os seus filhos sejam vacinados. Mas para o medo não há fronteiras.
Perguntem a uma mãe ou a um pai qual é maior medo que a (o) assalta quando olha para o seu bebé. A doença é de imediato apontada como a causa das maiores angústias. Por vontade dos progenitores, a criança seria completamente imune. Tétis, mãe de Aquiles, procurou essa imunidade total quando mergulhou o seu filho no Estige, rio que separa o mundo dos vivos do Inferno. Ao segurá-lo pelo calcanhar, proporcionou a manutenção de alguma falibilidade. Tétis mergulhou o filho no perigo para o inocular totalmente. No entanto, a imunidade total é um mito tal qual esta história sobre Aquiles.
A mitologia é uma das áreas que Eula Biss utiliza para explanar o senso e contra-senso da vacinação. A literatura, a história, a psicologia e a sociologia são outras das áreas que servem de recurso na montagem de um estudo com evidente preocupação em comunicar com o leitor. A autora recolheu informações através da análise de bibliografia adjacente ao tema, usou as suas experiências pessoais, ouviu as suas amigas e leu sobre a vacinação na comunicação social. O resultado do seu trabalho aproxima-se mais de uma história contada ao leitor do que de um cinzento ensaio para académicos.
As histórias são fundamentais em “Imunidade”. A autora chama ao seu texto os contos dos irmãos Grimm, o “Drácula”, de Bram Stoker, e, principalmente, as metáforas existentes na literatura. Sempre com o objectivo de explicar a raiz do medo. Eula Biss depressa percebeu que a metáfora não se limita ao texto literário. A metáfora está muito presente na metalinguística da medicina.
O acto de perfurar o corpo com uma agulha para introduzir um organismo estranho é violento. Os ingleses chamam-lhe “jab” (golpe) e os americanos “shot” (tiro). Se pensarmos na vacina BCG que muitos dos leitores levaram no braço, percebemos pela cicatriz essa violência exercida sobre a carne. Hoje, o corpo não fica marcado, mas os pais continuam a recear os efeitos da introdução desses organismos estranhos. Autismo, esclerose múltipla, diabetes, asma, alergia ou mesmo a morte súbita associados às vacinas (assim sublinham os defensores da antivacinação) causam profundo receio nos pais. Nos EUA, são cada vez em maior número os que optam por não vacinar os filhos. No entanto, a decisão de vacinar, ou não vacinar, está longe de ser uma questão de decisão individual. Segundo a autora, “a pessoa não vacinada encontra-se protegida pelos corpos que a rodeia, corpos através dos quais a doença não circula. Mas uma pessoa vacinada rodeada por corpos que hospedam doenças fica mais vulnerável ao fracasso da vacinação ou ao enfraquecimento da sua acção. Estamos protegidos não tanto pela nossa própria pele, mas por aquilo que está para além dela”
O indivíduo não é independente da comunidade. A sua relação com o “Outro” é inevitável. A compreensão desta interdependência é (ou devia ser) mais iluminada do que era há mais de cem anos. Em 1898, quando a varíola se difundiu, chamaram-lhe “nigger itch” (comichão preta), ou “italian itch” (comichão italiana), ou ainda “mexican bump” (inchaço mexicano). De acordo com Susan Sontag, a quem Eula Biss recorre para descodificar as metáforas presentes na medicina, a sífilis “era French pox para os ingleses. Morbus Germanicus para os parisienses, doença de Nápoles para os florentinos e doença chinesa para os japoneses”.
O mal é sempre extrínseco.
As razões que sustentam a antivacinação assentam na emoção e assumem diversas tonalidades. A desinformação é, segundo a autora, a principal responsável pela propagação do medo. As questões religiosas (vacina do colo do útero), as de mercado (vendas dos laboratórios), ou as de adopção de uma vida mais natural (em detrimento de produtos de laboratório) advêm mais dessa desinformação do que de uma opinião mais estruturada. Eula Biss dá mais espaço ao dualismo natural e artificial, em detrimento de outros dualismos, para demonstrar o quanto a desinformação pode afectar o indivíduo e a comunidade.
A inoculação está longe de ser um produto artificial da medicina moderna. As raízes da vacinação estão na medicina popular, ou “natural”.
Em 1774, um lavrador nos EUA usou uma agulha de cerzir para transportar pus de uma vaca infectada com varíola bovina para infectar os filhos e a mulher. Eles adoeceram para depois recuperar e não contrair a versão mais aguda da doença, que viria a causar milhares de mortos.
Eula Biss demonstra em “Imunidade” o dualismo entre ciência e natureza, público e privado, verdade e fantasia na análise das virtudes e defeitos da vacinação.

A professora consegue aliar o tom pedagógico à capacidade de narrar uma história. “Imunidade – A corrente antivacinação e os seus perigos” é um ensaio surpreendente.

http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=798147

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